Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 28 de março de 2017


Opinião do Professor

Por trás da polarização política na Venezuela

Arthur Ituassu*

21/03/2014

 Reprodução

O site FiveThirtyEight, editado pelo estatístico americano Nate Silver, famoso pelos prognósticos para o campeonato de beisebol e as eleições presidenciais nos Estados Unidos, publicou agora em meados de março uma excelente análise de Dorothy Kronick sobre o que está por trás da excessiva polarização política na Venezuela. A autora é estudante de doutorado na Universidade Stanford.

A partir do diagnóstico de que são as classes média e alta que protestam hoje contra o presidente Nicolás Maduro, e não a classe mais baixa, a autora pergunta: se ambos os grupos sofrem conjuntamente com o atual racionamento de alimentos, altíssima inflação e um perigoso contexto de violência social, o que os divide em relação ao governo em Caracas? Para Kronick, a resposta está no fato de que detratores e defensores do atual governo venezuelano avaliam o chavismo de forma diferenciada. Enquanto aqueles pró-oposição comparam a situação atual da Venezuela com o desenvolvimento histórico recente de outras nações latino-americanas, partidários do regime bolivarista analisam o momento em relação ao passado pré-Hugo Chávez.

 Reprodução

Nesse contexto, Kronick lembra que, após a bonança dos anos 1970, os choques do petróleo e as crises dos anos 1980 e 1990 geraram um "pesadelo econômico". Nesse sentido, em relação ao desastre anterior, a Venezuela demonstrou recuperação após a chegada do socialismo bolivariano. A renda subiu e a pobreza caiu, como mostram os gráficos 1 e 2 acima, com base em informações do Banco Mundial e do Banco Central venezuelano.

 Reprodução

Não à toa aqueles que apoiam o governo temem o retorno dos tempos pré-Chávez. Quinze anos depois da revolução bolivariana, o slogan político governista "No volverán" se mantém forte para boa parte da população venezuelana. No entanto, mesmo o sucesso pode ser relativizado e aí surgem as bases para a discordância. Afinal, o preço do petróleo, que girava em torno de US$ 10 nos anos 1980 e 1990, explodiu na virada do século, como mostra o gráfico 3 acima. Frente ao aumento impressionante do preço do principal produto venezuelano pergunta-se: foi o regime bolivariano tão bem-sucedido assim?

 Reprodução

Na comparação com o desenvolvimento de outros países da América Latina, a Venezuela não vem se saindo bem. Os gráficos 4, 5 e 6 mostram isso, no que diz respeito à média do crescimento do PIB per capita entre 1999 e 2012 (gráfico 4 acima), à inflação média anual no mesmo período (gráfico 5) e à média anual de redução da mortalidade infantil no intervalo (gráfico 6). As colunas em vermelho representam a posição venezuelana em meio a outras nações do continente.

 Reprodução

Nesse contexto, para Dorothy Kronick, o que poderia ajudar os venezuelanos hoje seria algum tipo de aprendizado recíproco. Em especial, segundo a autora, sobre o que dizem os dados comparativos com o desenvolvimento histórico recente de outros países da região.

 Reprodução Por um viés mais político, no entanto, pode-se dizer que os números são apenas uma parte de um impasse no qual estão presentes questionamentos legítimos sobre a capacidade da democracia liberal venezuelana de construir um ambiente com padrões mínimos de justiça social e a possibilidade do regime bolivarista de se constituir em um poder não só eficiente em termos de governança como realmente democrático e regido por padrões mínimos de igualdade cidadã em sua ação.

*Coordenador do curso de Jornalismo da PUC-Rio, doutor em Relações Internacionais pelo IRI. Texto originalmente publicado no blog do Ituassu.