Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 16 de outubro de 2017


Opinião do Professor

O reitor que fez a PUC-Rio ser o que é hoje

Eurico Borba* - aplicativo - Do Portal

16/10/2013

 Acervo do Núcleo de Memória da PUC-Rio

Quando se escrever a história desta grande e excelente universidade, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, certamente dois nomes surgirão como marcos referenciais a serem para sempre lembrados: os padres jesuítas Leonel Franca SJ e Laércio Dias de Moura SJ.

O primeiro, Leonel Franca, gaúcho, filósofo, figura marcante no ambiente cultural católico do seu tempo, os anos de 1930 e de 1940, foi o seu primeiro reitor. O homem a quem o cardeal Dom Sebastião Leme encarregou de erguer a universidade em 1941 e fixar os seus objetivos de excelência acadêmica e de testemunho de fé e de evangelização nos mundos da cultura e das ciências, nas sociedades carioca e brasileira. Exauriu-se fisicamente na execução da obra que havia lhe sido confiada, mas a árvore que plantou tinha raízes fortes e profundas, crescendo e frutificando de forma exemplar, sob a proteção do Sagrado Coração de Jesus, ao qual a Instituição havia sido consagrada.

O segundo, Laércio Dias de Moura, mineiro criado em São Paulo, formou-se em Direito antes de entrar para a Companhia de Jesus. Na antiga Faculdade de Direito de São Paulo, foi colega de estudos de Andre Franco Montoro e de sua esposa, Lucy (os três estudaram canto juntos com uma professora francesa), de Ulysses Guimarães (com o qual conversava em latim quando se encontravam), futuros líderes políticos de grande importância para a história recente do Brasil, e de Esther de Figueiredo Ferraz, futura ministra da Educação – foram amigos pelo resto de suas vidas.

Completou seus estudos de filosofia em Nova Friburgo no Instituto dos Padres Jesuítas, no Estado do Rio de Janeiro, e de teologia na Universidade Gregoriana, em Roma. Doutorou-se em Direito Internacional em Paris. Somando-se seu tempo total dedicado à PUC-Rio, verificamos que ali permaneceu a maior parte da sua vida de sacerdote: – professor, secretário da Reitoria, reitor em duas ocasiões, presidente da Mantenedora, e no final da sua vida ativa ouvia confissões dos alunos, professores e funcionários, que o procuravam na sala dos fundos da antiga capela, num total de cerca de 40 anos de dedicação exemplar. Faleceu na residência para padres idosos, da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte.

Não quero lembrar meu querido amigo por sua vasta e brilhante trajetória acadêmica e administrativa. Deixo para outros a tarefa de registrar suas ações, como reitor, nos 21 anos em que ocupou o cargo, em duas ocasiões (1962/70 e 1982/95). Gostaria apenas de afirmar que nestes anos todos, tempos difíceis, a marca de excelência acadêmica alcançada pela universidade, o princípio da necessária interdependência e complementaridade entre os vários centros e departamentos, característica maior de todas as grandes universidades, a reforma universitária de 1968, o incentivo e a criação dos cursos de mestrado e doutorado, o gerenciamento seguro da grave crise financeira que abalou a universidade entre os anos de 1967 e 1986, bem como a preocupação permanente com a missão e testemunho evangelizadoras, que a instituição deveria exercer no ambiente cultural do estado e do país, não teriam sido alcançados sem a orientação segura, tranquila, persistente e determinada do padre Laércio. A PUC-Rio é o que é hoje devido, principalmente, à ação exercida pelo reitor padre Laércio Dias de Moura SJ.

Num primeiro momento, sua forma de agir, de ouvir as várias opiniões, de dirimir dúvidas, de somar esforços, de refletir (a prática do correto discernimento) poderia parecer fraqueza ou mesmo temor de decidir. Depois se verificava que o método “mineiro” de conduzir traduzia uma imensa sabedoria. Detestava confrontações – era um homem que procurava, sempre, consensos justos e corretos, demonstrando sempre uma enorme e corajosa determinação de fazer bem feito aquilo que exigia a obra que lhe fora confiada.

Quero lembrá-lo como pessoa amiga, um ótimo companheiro para um bate-papo descontraído, simpático e educado, possuidor de um sorriso cativante, cultivando silêncios eloquentes e, algumas vezes, a expressão de uma alma preocupada. Era caridoso, humilde, sofredor com os vários embates que a universidade teve de enfrentar, internos e externos. Quero lembrá-lo, principalmente, como homem de oração.

Quando, em 1970, o padre Laércio foi substituído e transferido para Roma como assistente do padre geral para a América Latina, um grupo de professores visitou o grão-chanceler, na época o cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, para pedir que o nosso reitor continuasse à frente da universidade. Dom Jaime, muito solícito, nos perguntou: por que esta insistência em manter o padre Laércio? Existem outros bons jesuítas capazes de conduzirem a PUC. A professora Amélia Lacombe, então diretora do Departamento de Letras, disse, com muita graça e sabedoria: “Dom Jaime, encontrar num só jesuíta a graça de também, ao mesmo tempo, ser advogado e mineiro é muito difícil, e são as características de que precisamos, agora, na pessoa que dirige a nossa casa”.

Recordo, ainda aluno em 1961, que o reitor Laércio inspirava respeito. Costumava passar sala por sala, pedia licença ao professor e dava um pequeno aviso administrativo ou formulava um convite para um evento que iria acontecer. Nós todos nos levantávamos, espontaneamente. Em certa ocasião, em 1963, quando o Diretório Acadêmico da Escola de Sociologia e Política liderava a vida estudantil na universidade – sempre agitando bandeiras “revolucionárias” – convocou uma assembleia para debater a regra dos dois terços nas representações dos Conselhos – Universitário e Departamentais. A ideia era ter um terço de alunos, um terço de funcionários e um terço de professores na estrutura de cada conselho. Evidentemente a Reitoria e a maioria dos professores não aceitavam esta campanha despropositada, de âmbito nacional, patrocinada pela UNE. O padre reitor foi convidado a participar da Assembleia para explicar as razões da sua oposição. Compareceu, discutiu, foi vaiado a aplaudido, retirando-se com dignidade, esfriando a absurda pretensão do alunado de esquerda.

Sua sala era no 4º andar do Prédio Cardeal Leme, o “prédio velho”, pequena, com duas cadeiras e duas poltronas para os visitantes. Recebia a todos, ele mesmo servia um café muito ruim de uma velha garrafa térmica e conversava com simpatia, sabendo ouvir e argumentar. Havia outra sala ao lado com três funcionários – esta era toda a estrutura da Reitoria à época.

Já formado, professor, minha convivência com o padre Laércio mudou e foi se estreitando até chegar a uma amizade muito especial. Com carinho permitia-se usar expressões para com seus mais íntimos, (que eram poucos), do tipo: “Meu filho, o que estás dizendo é de uma burrice cósmica...”. E então sorria gostoso, senhor da situação, conduzindo com habilidade a conversa para onde quisesse. Uma vez me disse: “Se não fosse padre, eu seria concierge de um grande hotel. Falo várias línguas, sei conversar sobre muitos assuntos, explico bem como se chegar a um endereço e tenho paciência com as reclamações. Seria um sucesso, cativaria todos os hospedes”.

Bem informado tinha opiniões claras sobre a política, conhecia as questões educacionais, sabia das dificuldades das outras universidades confessionais, era um ponto de referência para os demais reitores de todo o Brasil. Quando se reunia em eventos onde era necessário produzir uma declaração (foi presidente da Associação Brasileira das Universidades Católicas/Abesc e conselheiro do antigo Conselho Federal de Educação), lá estava padre Laércio, naturalmente reconhecido como o melhor escriba do grupo, aquele que sabia colocar, em palavras leves e objetivas, a opinião de todos, obtendo o desejado consenso do grupo.

Vestia-se com humildade. Em 1988, um grupo de amigos providenciou dois ternos, algumas camisas e dois pares de sapatos, pois o reitor apresentava-se para trabalhar, recebendo pessoas, com os cotovelos do paletó totalmente puídos, aparecendo o tecido da camisa por baixo das mangas do casaco e os sapatos com a sola gasta e furada. Usava, invariavelmente, as roupas de um irmão seu, que morava em São Paulo, com a mesma compleição física e que, nas visitas que lhe fazia, dava as suas roupas usadas. Com o falecimento do irmão, nós seus amigos é que passamos a alertá-lo para a necessidade de um traje decente. Por anos a Reitoria tinha um carro – um Opala marrom, velho, horrível. Depois de muita discussão o padre Laércio aceitou um carro usado mais novo, pois ia para as cerimônias, para os aeroportos, enterros e casamentos, como reitor representando a PUC, de ônibus. Frugal nas refeições, escolhia, quando convidado, os pratos pelo lado dos preços – “para não pesar muito para o amigo que está convidando...”.

Almoçava comigo, de quando em vez, num restaurante pequeno em Ipanema, e eu pedia chope para nós dois com pouco colarinho – explicava que com muita espuma éramos surripiados em cerca de 20% do precioso líquido e ele então, com um sorriso maroto dizia: “Eurico, você é mais miserável do que eu...”

Gostava de música clássica – ouvia, num radiozinho pequeno no seu quarto, a Rádio MEC do Rio de Janeiro, sabendo de cor os horários dos principais programas musicais. Adorava o Frank Sinatra – “Que voz, esta voz é um dom de Deus, que simpatia, que letras bonitas e com que emoção ele canta!”. Lia Agatha Christie e comprava seus livros, em inglês de preferência, num sebo que existia no final do Leblon. Nos feriados e fins de semana, caminhava da PUC até a Pedra do Arpoador, de manhã cedinho. Voltava quando estavam abrindo o sebo e aí, com alguns trocados comprava “obras-primas”. Creio que ele leu todos os livros da dama inglesa – “Diverte, ensina a ser observador e treina o meu inglês”.

Em 1990, precisando ir à Alemanha para o contato com um possível financiador, conseguiu-se com um grande empresário, membro do Conselho de Desenvolvimento, a passagem e mil dólares para despesas. Na volta fez questão de devolver 450 dólares, que sobraram, com uma rigorosa prestação de contas – o empresário espantou-se com a honestidade e disse: Por favor, padre Laércio, guarde para uma próxima viagem”.

Aguardava, com ansiedade e alegria quase infantis, as férias que invariavelmente realizava numa praia (sempre em janeiro), no litoral de São Paulo, numa casa modesta que a Companhia de Jesus mantém para a recreação dos seus membros. Marcava, com antecedência, as passagens de ônibus e acertava com o padre Mendonça, outro jesuíta que havia sido vice-reitor Comunitário da PUC (1967/72), para que pudessem conversar, caminhar e jogar buraco. Dizia rindo: “O Mendonça, como bom matemático, leva tudo a sério, até um jogo de buraco. Fica brabo com meus erros, manobras fora das regras e minha conversa. Me divirto com a permanente seriedade dele, é um ótimo companheiro”.

Para muitos poucos, com uma expressão marota e um quê de encabulamento, confessava que, quando a loteria esportiva e depois a Megassena estavam acumuladas com um prêmio polpudo, caminhava até a Praça do Jockey e fazia um jogo, no mínimo valor. Contava que o seu confessor ficava furioso com a atitude, mas dizia com meio sorriso: “Se Nosso Senhor ajuda tantas pessoas, talvez queira ajudar a PUC. Então é preciso oferecer-lhe o instrumento para operar sua Graça.... Já pensou? Pagaríamos todas as nossas dívidas e ainda sobraria alguma coisa para alguns investimentos.”

Rezava muito – o breviário e o terço estavam sempre ao seu lado. Orava absorto do mundo que o cercava. Seus retiros eram rigorosos, ficava inalcançável – não falava com ninguém, inclusive fazia suas refeições antes que a comunidade se reunisse para ficar isolado, sem falar. Nas viagens, percebia-se, de repente, que estava com breviário aberto ou com o terço nas mãos, e nada o fazia sair da sua concentração. Um dia, no trecho Brasília-Rio, pedi licença para ver o seu usado breviário, que não conhecia, e saber como era rezado. Mostrou-me. No meio das páginas muitos “santinhos” recordando festividades várias de familiares, de amigos e amigas, e o texto de uma oração datilografada. Perguntei – o que é isto? Ele, meio sem jeito, respondeu: “É uma oração para a proteção dos viajantes, que sempre rezo quando entro num avião”. Tinha um grande medo de viajar de avião, mas sua postura e fisionomia austera não demonstravam, talvez uma coragem oferecida pela oração que tão contritamente rezava.

Sua missa era sóbria, mas densa do mistério amoroso da eucaristia – era uma atmosfera de contrição que se sentia de imediato. Não era um orador, mas suas prédicas, simples, diziam muita coisa e a palavra de Deus se tornava clara e amiga, reconciliando os corações e mentes atordoadas que assistiam a celebração do Divino Mistério. Em 1988 foi operado na Clínica São Vicente – foi só, levou uma malinha para poder celebrar a missa no quarto do hospital, e somente após a cirurgia que seus amigos ficaram sabendo.

Nunca o vi reclamar da vida, lamentar uma perda, cultivar uma saudade, uma dor, uma angústia, um ressentimento. Desculpava a todos que o agrediam de alguma forma: “Não foi por mal com a intenção de ofender - é a maneira dele falar...”. Estava sempre conduzido pela certeza de que Deus o amparava e só lhe cabia agradecer e louvar nosso Pai do Céu pelas inúmeras graças que nos eram concedidas. Sentia a presença de Santo Inácio ao seu lado sempre: “Que homem extraordinário que foi, um exemplo permanente. Veja que linda a sua reflexão: em tudo ver Deus”. Emocionava-se de forma muito reservada, só para si – nós seus amigos percebíamos quando ele silenciava durante uma discussão, uma conversa, e seu olhar pousava no infinito. Sabíamos, então, que estava a orar.

Soube se retirar quando percebeu que as forças físicas que sempre o animaram estavam começando a faltar. Fez com a educação e a elegância que sempre cultivou – afastou-se silenciosamente, nada cobrou, nada exigiu. Como sempre fizera com seus superiores, que respeitava e acatava suas determinações com alegria, sem discutir Assim foi silenciosamente para Belo Horizonte, em 2006, na casa de repouso da Companhia, comunicando depois, para alguns poucos amigos, mais chegados, que tinha se retirado para se preparar para o “grande encontro”. Nunca mais o vi.

Falávamos ao telefone em momentos cada vez mais espaçados. Lembro-me de suas poucas últimas palavras que ouvi, logo depois do falecimento do padre Fernando Bastos de Ávila, em 2010. “Agora durmo na enfermaria, é mais fácil para cuidarem de mim e não dou tanto trabalho. É uma comunidade muito boa, e o Superior é excelente companheiro, muito solícito e amigo. Ainda rezo o terço com a comunidade e celebro num altar que montam aqui numa sala ao lado, com um irmão me auxiliando. Falar me cansa e já quase não consigo ler. Deus te abençoe meu filho, reze por mim”.

Restam o seu exemplo, o seu testemunho cristão exemplar, lembranças e uma imensa saudade, além da certeza de que tenho um amigo, santo, lá no céu.

Foi um privilégio conhecer o padre Laércio e ter podido trabalhar com ele, de ter sido seu amigo.

Resquiecat in pace.

* Eurico Borba é ex-aluno (turma de Economia de 1965), ex-professor (1967/93), ex-diretor do Departamento de Economia (1968/70), ex-vice-decano do CCS (1969/70) e ex-vice-reitor de Desenvolvimento da PUC-Rio (1987/92).