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Rio de Janeiro, 28 de abril de 2017


Opinião do Professor

No Maraca "deles", o reencontro com vocação da arquibancada

Alexandre Carauta* - aplicativo - Do Portal

17/06/2014

 Arte: Lucas Sereda

O Maraca continua lindo. Menos importa que o bilhão e meio da reforma tenha lhe roubado parte da personalidade e da imponência originais. Ou que a geral, regaço dos malucos-beleza, prato cheio pros antropólogos, se perpetue só na lembrança. Menos importa que a polarização das torcidas como orquestrara Mário Filho tenha se diluído num anel pasteurizado e muito menos acessível àqueles que fizeram do futebol o que o futebol é. Saudade também dos bandeirões e dos encontros, marcados e fortuitos, em torno do Bellini. O Maraca continua irremediavelmente lindo.

Quiseram os deuses da bola que, no reencontro com uma Copa, o cartão de visitas do futebol brasileiro não fosse “nosso”. Reconstítuísse sua grandeza vestido de azul e branco. Não propriamente a grandeza das pernas endiabradas, como no lampejo de Messi rumo ao segundo gol, arremate de sinuca, para alívio e delírio dos devotos. Tampouco a grandeza das luzes e sons que tentam aproximar o Maraca das arenas americanas. Recheado de argentinos, o Maracanã despiu-se da maquiagem moderninha para reviver a grandeza da farra, do carnaval misturado. Ali, naquele anel tingido de hermanos, impôs-se a essência do estádio inaugurado há 64 anos como estandarte do “Brasil realizador”. Tinha de ser num domingo.

Ninguém reparou se parte da mulherada calçava ou não cobiçadas sandálias de sola vermelha, ou se descamisados de rádio no ouvido deram lugar a jovens de celular viciados na onda selfie. Prevalecia o DNA da arquibancada. A cada ovação - oração - da massa azul aos comandados do técnico Alejandro Sabella, a turma em verde-amarelo emendava: “pentacampeão”. A cada adoração a Messi, retrucávamos de bate-pronto: “Neymar”. A cada louvor à pátria de chuteira deles, a metade dos 75 mil que acompanharam a dura vitória argentina (2 a 1) cantava com ímpeto quase cívico : “Domingo, eu vou ao Maracanã.... Ò, ô, ô, Bósnia!”. Disso, sim, é feito o Maraca.

Hino até em estádios fora do Rio, a marcha composta por Neguinho da Beija-Flor tabelou com a História. Em 13 de julho de 1950, uma quinta-feira memorável, 150 mil vozes também embalaram com uma marchinha o baile do time estrelado por Ademir Menezes sobre a Espanha, 6 a 1. “Touradas de Madri”,  sucesso de Braguinha e Alberto Ribeiro, animou o maior carnaval do Maracanã à nossa seleção. Faltaria combinar com os uruguaios a esperada apoteose.

Embora longe dessa dimensão épica, a marcha cantada para a Bósnia, na esgrima oral contra os empolgados vizinhos, simbolizava a resistência de uma vocação. Por trás das novas formas de ver e torcer; por trás das caneladas administrativas e do verniz moderninho, resiste no Maracanã o pendor à salada mista, à provocação, à festa.

Enquanto Messi, Di Maria e Aguero esbarravam na marcação e na autossuficiência, o duelo da galera compensava o jogo morno. Imprimia movimento, cor e brilho na reestreia do Maraca em Copa do Mundo. Mais que isso, redimia a violência que ainda ronda o nosso futebol. Todos provocaram, vaiaram, xingaram numa boa, lado a lado, como contrapontos necessários para iluminar uma partitura. Que me desculpe o golaço do camisa 10 argentino, mas o espetáculo foi a aquarela em azul, branco, verde e amarelo. (Teria seria completo com o empate da Bósnia nos minutos finais...)

PS: Pena não termos mais a chance de ver Pirlo nesta Copa. Pro meu gosto, ele e o canhotinho James Rodríguez, da Colômbia, foram os melhores armadores da primeira fase do torneio. O veterano e o novato revelam-se exceções em equipes povoadas de volantes, alguns até muito bons, mas volantes - como o Brasil de Felipão. Maestros andam escassos nos times e nas seleções... Dariam uma baita ajuda, por exemplo, a Messi e Neymar.

*Editor do Portal, professor de Comunicação da PUC-Rio e apresentador do programa O Negócio é Esporte.