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Rio de Janeiro, 28 de março de 2017


Opinião do Professor

Golpe: "Documentos revelam faceta agressiva de JFK"

Arthur Ituassu*

04/04/2014

 Divulgação: Nasa

Arquivo de Segurança Nacional americano (The National Security Archive, NSA) divulgou esta semana (02/04/2014) transcrições inéditas de conversas do presidente John F. Kennedy com assessores sobre o golpe militar no Brasil. O NSA fica na Universidade George Washington e já havia divulgado, por conta dos 40 anos do golpe, audio tapes do presidente Lyndon Johnson, sucessor de Kennedy, clamando que os Estados Unidos fariam "tudo que fosse possível" no apoio à queda de João Goulart.

Os documentos se juntam aos muitos já divulgados em Washington sobre ações e conversas de Kennedy, Johnson e seus respectivos assessores, incluindo o embaixador Lincoln Gordon e o coronel Vernon Walters, sobre a Operação Brother Sam, como foi chamado o plano de apoio dos EUA ao golpe no Brasil. Nesse contexto, entretanto, ainda faltam os registros das operações clandestinas da CIA, a Central de Inteligência Americana, para desestabilizar a Presidência João Goulart entre 1961 e 1964. Esses documentos, ainda secretos, seriam, segundo Peter Kornbluh, que dirige o Projeto de Documentação sobre o Brasil no NSA, a "caixa preta dessa história toda". Recentemente, Kornbluh entrou com um pedido ao governo Barack Obama para que libere esses arquivos.

Um fato interessante dos registros divulgados agora é perceber que a primeira gravação feita por Kennedy no Salão Oval da Casa Branca – o presidente inaugurou secretamente esta prática – aborda a situação no Brasil. "Acho que um trabalho importante que temos de fazer é fortalecer os militares", disse o embaixador Lincoln Gordon, em 30 de julho de 1962, para o presidente Kennedy e seu assessor Richard Goodwin. Gordon continuou afirmando que os Estados Unidos deveriam "deixar claro, de modo discreto," que não seriam "necessariamente hostis a uma ação militar, se estiver claro que o motivo para tanto é a entrega do país aos... comunistas", completou Kennedy.

Durante o encontro, o presidente e seus assessores decidiram elevar os contatos com os militares brasileiros, trazendo para campo o coronel Vernon Walters, que se tornaria o principal agente secreto americano na preparação do golpe. "Nós bem que poderíamos desejar que eles [os militares brasileiros] assumissem no fim do ano", sugeriu Goodwin, na reunião de julho de 1962, "se eles forem capazes".

Os documentos confirmam a faceta agressiva de Kennedy já conhecida no meio acadêmico, mas talvez pouco reconhecida em ambientes mais leigos. JFK, na verdade, acendeu o pavio da Guerra Fria desde a campanha. Um exemplo clássico disso foi a forma como atacou o presidente Eisenhower, acusando-o de permitir que os soviéticos tivessem passado à frente dos Estados Unidos tanto na corrida armamentista quanto na espacial, e apenas na segunda isso era verdade.

Apesar de não ter sido o mentor do plano de retirada de Fidel Castro do poder e de não ter envolvido as Forças Armadas norte-americanas na invasão da Baía dos Porcos, JFK estava ciente do fato e deu luz verde à operação comandada pela CIA. Para muitos historiadores, a Crise dos Mísseis e o quase desastre ocorrido na viagem-teste apressada do primeiro submarino nuclear soviético, o K-19 (conhecido como o “fazedor de viúvas”, ou “Hiroshima”, pela Marinha russa, e cuja história foi transformada em filme com Harrison Ford), foram respostas da linha-dura no Kremlin à agressividade de Kennedy.

Na verdade, Eisenhower deixou a Kennedy uma vantagem significativa na corrida armamentista da Guerra Fria. Ainda assim, JFK, ao tomar posse, iniciou a produção de 1000 mísseis balísticos intercontinentais, além de 32 submarinos Polaris, com mais 656 mísseis. Moscou, no mesmo momento, não tinha um submarino sequer capaz de lançar mísseis balísticos até o K-19, que podia carregar apenas três. Na época, enquanto os soviéticos tinham 50 bombardeiros com capacidade de carregar ogivas nucleares, os americanos tinham mais de 500.

*Ituassu é coordenador de Jornalismo do Departamento de Comunicação da PUC-Rio e doutor em Relações Internacionais pelo IRI.