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Rio de Janeiro, 24 de abril de 2017


Opinião do Professor

Depois do ajuste, há um longo caminho até o "Final Feliz"

Luciana Brafman*

08/08/2015

 Divulgação

Engana-se quem pensa que surgirá sobre o mapa brasileiro um luminoso anúncio de “Final Feliz” quando (e se) o ajuste fiscal estiver implementado, a inflação migrar para o centro da meta e a Lava Jato for concluída. Esse momento, tão aguardado, será apenas um “Começo Feliz”.

Os ajustes por que estamos passando, como o fiscal, podem até ser condições necessárias, mas não são suficientes para que o país decole como aquele foguete outrora desenhado na capa da Economist. Essa percepção gera um certo cansaço ou até um desânimo (para não falar em pessimismo), pois se está sendo tão difícil passar da fase 1 deste jogo, que dirá pegar o pote de ouro… Enquanto isso, vamos nos desfazendo de importantes conquistas alcançadas desde 1994.

O grave, nisso tudo, é que não parece haver fôlego para se montar um plano de avanço para quando a arrumação da casa estiver finalizada. Esse plano consiste justamente em reunir as condições suficientes para o país se recuperar, com a volta da credibilidade e dos investimentos. O resultado, quando a economia se enrosca numa espiral positiva, é que a população ganha qualidade de vida, o que, no fim das contas, é o que importa.

Ortodoxos x Heterodoxos

Conseguir tirar o Brasil da areia movediça não é garantia de um avanço instantâneo, milagroso.  E o problema é que a economia não tem uma única fórmula mágica que a resgate do ciclo recessivo. Na verdade, há uma divisão entre os economistas sobre como sair do buraco, nem todos defendem a ortodoxia. Ou seja, não há consenso que indique o ajuste fiscal como primeiro passo desse processo. Nem dentro do próprio governo.

Há quem acredite que, neste momento, o ajuste aprofunda a recessão. Os chamados heterodoxos propõem, portanto, a volta de medidas anticíclicas, a exemplo de 2009, com aumento do gasto público, para incentivar investimentos e fazer a roda girar de novo.

Recentemente, o país se sustentou também na frágil corda dos subsídios para setores eleitos e em expansão da demanda. Estávamos construindo uma ponte tábua a tábua durante a travessia, na medida do possível, sem pensar em como chegar do lado de lá, sem um projeto construtivo.

Aumento da produtividade

Seja como for – com ou sem o ajuste fiscal no curto prazo – não vejo, em paralelo, a difusão de propostas ou de um debate sério com o foco no longo prazo. Será que existe alguém no governo pensando também na oferta? Em como elevar a produtividade, reduzir o Custo Brasil, implementar a Reforma Tributária, adequar a infraestrutura, apostar realmente no nível educacional? Esse tipo de ação é que dará ao Brasil a capacidade de manter um desenvolvimento mais robusto, sustentável.

Os governos precisam gerar políticas de Estado, que não se resumam a quatro (ou cinco) anos. É preciso continuidade. É preciso pensar de verdade nas gerações futuras, em vez de ficar só apagando incêndios ou se fiar na sorte da maré internacional, dos preços das commodities, das oportunidades cada vez mais disputadas mundo afora. Mas esta não é responsabilidade apenas do governo. Toda a sociedade, empresas e academia incluídas, precisam se envolver.

Esforço e tempo

O que vamos fazer, por exemplo, para dar um futuro aos nossos jovens que nem estudam nem trabalham?  A última pesquisa divulgada pelo IBGE, em fins de julho, mostrou que a taxa de desemprego entre os que têm de 18 a 24 anos subiu para 17%. E já somam quase 2 milhões os jovens entre 15 e 17 anos que estão fora da escola.

O que vamos fazer para permitir que as cerca de 15 milhões de famílias dependentes do Bolsa Família – um programa louvável, antes que me critiquem – comecem a tentar andar algum dia com as próprias pernas?

O que vamos fazer para, a partir da política de conteúdo local, desenvolver tecnologia de ponta e nos tornar grandes players mundiais de equipamentos para a indústria do petróleo? Ou será mais uma medida protecionista em vão? E vamos continuar exportando somente matéria prima…

Poderia continuar exemplificando com a lista de “O que vamos fazer” por mais longas linhas e de modo ainda mais incisivo, mas a mensagem será sempre a mesma: precisamos avançar na produtividade, e isso requer esforço e tempo.

Enquanto corremos atrás do prejuízo, temos que olhar também para frente. Plantar hoje o que desejamos colher. Só que não estamos ainda nem plantando, estamos apenas tentando recuperar o terreno.

* Jornalista, bacharel em economia e professora de Comunicação da PUC-Rio. Originalmente publicado no Órama Blog.