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Rio de Janeiro, 26 de março de 2017


Opinião do Professor

Bojunga: Estado Islâmico recruta a força pela internet e se espalha

Claudio Bojunga* - aplicativo - Do Portal

17/11/2015

 Davi Raposo

Em artigo escrito originalmente há um ano para o Portal, o escritor, jornalista e professor de jornalismo internacional da PUC-Rio Claudio Bojunga destrincha a caligrafia geopolítica do grupo extremista:

Pela primeira vez, por razões diversas, Arábia Saudita, Irã e Estados Unidos têm um inimigo comum: o Estado Islâmico (EI). Com uma diferença: essa guerra santa ameaça as fronteiras dos dois primeiros. O que há de novo – fora as degolas para aterrorizar o mundo e conquistar manchetes – é seu poder econômico e militar como organização, seu fanatismo ideológico e a utopia de reconquista do mundo islâmico. 

Ao contrário da Al Qaeda, uma rede piramidal com militantes invisíveis e refugiados em cavernas ou aparelhos urbanos, a estrutura do EI é horizontal e escancarada. Recruta a força no terreno ou na retórica pela internet e se espalha em uma guerra de movimentos no campo de batalha.

Esses jihadistas sunitas combatem Bashar al-Assad para se contraporem aos xiitas do Hezbollah, que o defendem com a benção do Irã. Dispõem de um exército bem armado com uns vinte mil homens e contam em suas fileiras com os aguerridos militares iraquianos do antigo exército do sunita Saddam Hussein, expurgados e perseguidos pelo governo sectário do xiita Nouri al-Maliki.  O Irã – Meca do xiismo – fez um favor aos Estados Unidos ao promover a saída de Maliki do poder no Iraque.

Mas Teerã não vai forçar o governo Assad (também apoiado pelos russos) a um cessar fogo, sem chegar antes a um acordo com Riyad e Washington. Arte: Davi Raposo

A Cruzada Árabe

A campanha do EI é liderada por Abu Bakr al-Baghdadi e se inspira nos ideais do sunismo wahabita da Ikhwan (“Irmandade”, em árabe). A palavra deriva de Muhammad Abd Ibn Al Wahhab, que viveu em meados do século XVIII na Arábia Central. Seus ensinamentos constituem a matriz do rigorismo islamista.

Contemporâneo do Iluminismo na Europa, o wahabismo é seu exato oposto: na negação da História e na recusa da evolução. Para evitar o culto em seu nome, apropriado pelo reacionários sauditas, os jihadistas revolucionários se dizem “salafistas”, palavra que se traduz por “os piedosos ancestrais”.  

Fundamentalismo que prega o Islã da mesma forma que os ancestrais o praticavam. Ao contrário dos guerreiros do EI, o wahabismor da realeza saudita é conservador: tem ojeriza à revolução e mantém estreita a aliança com os Estados Unidos, sacramentada pela o petróleo.

O EI briga pela purificação e unificação do Islã pelas armas e exige a aplicação da Charia (lei islâmica) na vida cotidiana.  Ele descende da milícia tribal Ikhwan, que se empenhou depois da Primeira Guerra Mundial em levar Abd al-Aziz Ibn Saud ao poder na península arábica, destronando os Hachemitas. Temendo um arremedo de “modernização” sedentária do fundador da dinastia Saudita, a milícia rebelou-se contra ele e foi dizimada em 1929. O EI retoma a sua bandeira.

Para os especialistas, o conflito intra-árabe – sunita/ xiita – marca a segunda fase da rebelião árabe pela “ikhwanização” da luta. Processo que se segue ao golpe militar no Egito com a prisão dos membros da Irmandade Muçulmana e a guerra civil na Síria.

Ao contrário do que aconteceu no Cairo e em Tunis, o exército sírio ficou ao lado de Assad (um alauíta, vertente xiita) e desencadeou feroz repressão aos ideais dos jovens modernizadores republicanos da Primavera Árabe.

O EI tem dinheiro farto e não depende de um financiador, papel desempenhado pela rica família de Bin Laden no caso da Al Qaeda. Os recursos provêm do mercado negro do petróleo, extraído do leste da Síria, de resgates e auxílio variado vindo do exterior. Isso explica seu avanço fulminante pelos territórios do Levante e a tomada de Mossul, cidade de 2 milhões de habitantes, a segunda maior do Iraque.

Em vez de rumar para Bagdá, o EI avançou na direção do Curdistão e combate agora nas cercanias da fronteira turca com a Síria. Nos últimos dias, porém, uma coluna tomou o caminho de Amaryat al-Falluja, cidade a uns 40 km de Bagdá, na região de Anbar.

Os turcos ignoraram os apelos da Otan e se recusam a entrar numa “guerra entre terroristas”, como diz Erdogan. Na verdade, temem a explosão da comunidade curda da Turquia que promove manifestações de rua em defesa de seus irmãos do outro lado da fronteira.

A Turquia negou o pedido americano de usar a base de Incirlik no sul do país. Washington por enquanto se limita aos ataques aéreos contra o EI sem conseguir deter seu avanço.

O estrategista

No rico panteão jihadista, o ideólogo do EI é conhecido como Abu Musab al-Suri, militante sírio preso pelos americanos em outubro de 2005 no Paquistão, supostamente enjaulado em lugar desconhecido. Suas ideias estão em “O Apelo à resistência islâmica global”,  livro do início dos anos 90 de 1.600 páginas. Nele Abu Musab al-Suri prega um sistema insurrecional descentralizado, conectado apenas pela ideologia, sem estruturas hierárquicas, menos vulnerável às investidas das forças de segurança americanas. Suas lições se encontram em arquivos de áudio na internet.

Uma biografia de Abu Musab al-Suri, do norueguês Brynjar Lia, revela que esse antigo opositor do regime do Baath sírio, foi um ex-combatente ao lado dos muhajedins afegãos contra a ocupação soviética. Tornou-se peregrino por ocasião da diáspora do jihadismo internacional.

A certa altura ele aparece no “Londonistão” (apelido dos arrabaldes da capital britânica repleta de muçulmanos) onde organiza um escritório para propagar as mensagens da Al Qaeda. Sua influência é detectada nos anos 80, nas sublevações da Síria e, na década seguinte, na Argélia.

Casado com uma espanhola, tem o codinome “El Rubio”, menção a seus incomuns cabelos avermelhados.  Al-Suri é apontada pelas autoridades espanholas de ser um dos mentores do atentado ao trem em Madri, em 2004.

Brynjar Lia diz ainda que, ao contrário de al-Zarqawi, um dos líderes da Al Quaeda, al-Siri não é um guerreiro. Muito menos um líder religioso, como o clérgio jordano-palestino Abu Muhamed al-Maqdisi. Considera-se um estrategista militar que põe seus conhecimentos seculares a serviço da guerra santa, aproveitando os ensinamentos de outras táticas de guerrilhas.

Em busca do califado perdido

Não faz muito tempo, jihadistas do EI tweetaram fotos de tratores derrubando trechos de uma barreira que integra os limites entre o Iraque e a Síria. Anunciavam triunfalmente que estavam apagando a fronteira “Sykes-Picot”.

A menção ao acordo imperialista franco-britânico de partilha do Oriente Médio, de 1916, diz o analista Malise Ruthven, revela a agenda militar de longo prazo do EI: a restauração do Islã sunita pré colonial, desfigurado pelo imperialismo franco-inglês depois da derrocada do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial.

Convém lembrar que o nome do Estado Islâmico em árabe é “al-Dawla al-Islamya fil-Iraq wa al-Sham”. As siglas em inglês, ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria), ou ISIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) traduzem melhor os propósitos jihadistas. Trata-se, nas duas versões, de restabelecer o Grande Levante do passado, dando a entender que a campanha de hoje é uma longa guerra de reconquista.

A traição do Ocidente

Em 1939, George Antonius, egípcio cristão de origem libanesa, publicou em Jerusalem “O Despertar Árabe”, história do Movimento Nacional Árabe. O livro mapeia as origens étnicas e linguísticas - das primeiras conquistas islâmicas ao Renascimento Intelectual na Grande Síria do século XIX e daí até o movimento armado insurrecional que liquidou o domínio otomano no mundo árabe em aliança com o Império Britânico durante a Primeira Guerra Mundial.

Antonius mostra que as promessas dos britânicos a Hussein Bin Ali, Xerife e Emir de Meca, cujos filhos Faiçal e Abdula lideraram a revolta contra os turcos, eram incompatíveis com o compromisso dos ingleses com a França segundo o acordo secreto Sykes-Picot de 1916. E também com a Declaração Balfour (1917) que prometia uma pátria nacional (homeland) ao povo judeu na Palestina. Prenúncio de traições no melhor estilo do imperialismo clássico.

O acordo Sykes-Picot - dos nomes do conselheiro de Lord Kitchener, Mark Sykes, e do diplomata francês François-Georges Picot, prévia um mandato da França na Síria, no Líbano e para a Grã-Bretanha na Palestina, na Transjordânia e no Iraque. Em “Os Sete Pilares da Sabedoria” T.E Lawrence descreve como em julho de 1921, quatro meses depois de Faiçal haver assumido o trono da Síria, os franceses tomaram Damasco, expulsaram o rei hechemita e impuseram um domínio que só seria revogado com a queda do governo de Vichy. Faiçal recebeu como prêmio de consolação o reinado do Iraque reduzido a um mandato britânico. O irmão Abdullah ficou com Jordânia.

Segundo Malise Ruthven, ao anunciar que está apagando a fronteira entre a Síria e o Iraque, o EI abole simbolicamente os estados artificiais criados segundo as conveniências das potências europeias. Pretende “restaurar a era das fronteiras porosas e costumes islâmicos universalmente observados”.

Essa visão edênica negligencia um detalhe capaz de atrapalhar a volta no tempo: a inconciliável divisão entre Sunitas e Xiitas que antecede em muito a intervenção ocidental na região.

O segundo despertar

Para Edward Said (1935-2003), intelectual palestino, autor de “Orientalismo” e professor da Universidade de Columbia, o jihadismo “é menos um retorno às raízes da religião islâmica do que uma reação aos governos corruptos do Oriente”. O escritor marroquino Tahar Ben Jelloun acrescenta: “é também uma reação extremada ao Ocidente e à longa conivência dos governos ocidentais com os ditadores do mundo árabe”.

O outro nó do problema é o apoio sistemático dos Estados Unidos a tudo que os israelenses fazem na região.

Segundo o francês Gilles Kepel, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Science Po) e respeitado analista político do mundo árabe contemporâneo, as sementes do fundamentalismo jihhadista islâmico moderno devem ser procuradas nas décadas dos 60 e 70. Ali se origina o repúdio à geração dos líderes nacionalistas Gamal Abdel Nasser (Egito), Boumedienne (Argélia), Zulfikar Ali Butto (Paquistã), Sukarno (Indonésia) e outros não alinhados.

O novo islamismo combativo denunciava o fracasso do nacionalismo secular e propunha  uma “revolução cultural”  inspirada nas críticas de um punhado de intelectuais religiosos revivalistas de corte autoritário. O dogmático Sayid Qutb (1906-1966) foi o nome icônico desse movimento radical: defendia a imposição de preceitos islâmicos mesmo pela violência. De sua cela, no Cairo, anunciava que esses líderes não eram islâmicos, mas modernizadores pagãos. Nasser não gostou e mandou enforcá-lo.

Seu salvacionismo político servirá, mais tarde, de conforto ideológico aos jovens árabes de origem camponesa que emigraram para a Europa por não terem perspectiva de trabalho em seus países. Nos subúrbios de Londres, Paris, Bruxelas e Hamburgo encontraram a violência urbana, o preconceito, a discriminação, o tráfico de drogas e a prostituição. Aos poucos foram se refugiando nos valores tradicionais do passado num processo de “auto radicalização” via internet.

Eles serão cooptados pelos guerreiros retornados do Afeganistão na repulsa aos valores ocidentais e ao papel de mantenedor dos déspotas da região desempenhado pelo EUA. Entre 1979, ano do retorno do aiatolá Khomeini ao Irã, e 1996 , ano do triunfo do Talibã no Afeganistão, o mundo assiste a uma sequência de sublevações e atentados no mundo islâmico.

Foram conflagrações locais e independentes, embora conectadas: o Movimento Islâmico Armado na Argélia, a guerra civil no Sudão, a guerra Irã-Iraque, os atentados em Luxor, a invasão da Mesquita de Meca, a desintegração do Líbano, a intifada de al-Aqsa, as erupções na Chechênia e na Bósnia. Milhares perdem a vida nesses episódios. No Iraque e no Sudão, talvez um milhão deles.

O ataque às Torres Gêmeas e ao Pentágono, de 11 de setembro de 2001, detona a “guerra ao terror” de Bush filho e Dick Cheney e explica a emergência dos neoconservadores. Os fundamentalistas da política americana que passam a dominar a cena política em aliança com os cristãos integristas do “Bible belt” (o “Cinturão bíblico”).

A primeira corrente é representada por Paul Wolfowitz (aluno do estrategista Albert Wohlstetter) no cargo de Subsecretário da Defesa; a segunda pelo secretário de Justiça John Ashcroft. O ideário neoconservador é elaborado na Heritage Foundation e na revista Commentary, onde se destacam Irving Kristol e Norman Podhoretz.

Os teóricos/ideólogos falcões são Bernard Lewis e Samuel Huntington, autor de “O Choque de Civilizações”. Segue-se a desastrosa invasão do Iraque. O que deveria ser, a princípio, o “state building” de um regime democrático dirigido por xiitas pró-ocidentais, capazes de inspirar uma revolução democrática no vizinho Irã, desandou num país dilacerado, parcialmente ocupado pelo EI, marcado pela corrupção sistêmica, atrocidades arbitrárias e pela desagregação social.

De 1980 até hoje, o Iraque experimentou três grandes guerras que arruinaram a infraestrutura física do país; uma tentativa de genocídio dos curdos; dez anos de embargo, trocando petróleo por comida, um programa que devastou sua economia, arruinou a classe média; provocou o exílio dos mais talentosos, o deslocamento de quase cinco milhões de famílias e uma crise de confiança irremediável entre as comunidades sunita e xiita. Isso, depois de uma longa tutela americana de ocupantes “negligentes e estúpidos”, como escreveu Max Rodenbeck.

A outra face

Mas há o reverso da medalha, uma história diferente que não se pode descobrir se nos limitamos às representações toscas, reducionistas e grosseiramente racistas do mundo árabe, frequentes na grande mídia. Sem dúvida há um déficit de democracia no mundo árabe, devido à debilidade de suas sociedades civis e instituições políticas por inúmeras razões históricas. Mas existem também forças dinâmicas de renovação que vieram à tona na Primavera Árabe, criando uma dialética entre os sonhos de liberdade, emancipação e luzes e as sombras projetadas pelo poder e a tradição.

Nos primórdios do século XXI, uma florescente cultura de mudança desafia imaginativamente o status quo. Em doze países, vozes públicas se levantaram,  surgiram publicações ousadas, críticas estridentes passaram a moldar uma tendência vigorosa que inclui juízes desafiadores no Cairo, clérigos rebeldes em Teerã, donos de redes de televisão por satélite em Dubai, feministas criativas em Rabat, jovens técnicos em Jedah, jornalistas ousados em Beirute e em Casablanca, escritores corajosos em Damasco.”

A emergência da Primavera foi provocada pelas tensões de um crescimento demográfico exponencial no mundo muçulmano: o aumento em sete vezes de sua população em três gerações, explicando em parte o mal estar social que afligia os jovens desempregados em massa. Os 100 milhões de árabes em 1970 se tornaram 300 milhões em 2011.

O desemprego e a marginalidade urbana endêmicos contrastam com dirigentes cada vez mais corruptos e vorazes que se perpetuam no poder. A legitimidade das elites anticoloniais e nasseristas de outrora se evaporou na submissão aos Estados Unidos, na roubalheira, na vida parasitária de “rentiers” dependentes do exterior.

A pobreza e a inconformidade grassa entre os jovens que não viveram a era colonial. Começam as manifestações, passeatas, comícios. Tendo liquidado Bin Laden, Washington começou a suspeitar que esses velhos ditadores, que parecem ter saído de um romance de Garcia Marques, fazem parte do problema, não de sua solução.

A revolta é estimulada pela internet, sobretudo no Egito e na Tunísia. As demandas sociais se ligam à ideia de modernização. Até mesmo a classe média alta se sente desprotegida e apoia os protestos.

Um severo racionamento de água e de alimentos precipita a explosão. Os preços nos mercados do Egito disparam. Uma seca provoca migração em massa de camponeses para a região de Daara, onde a rebelião contra Assad se inicia. A faísca desencadeadora é a autoimolação pública de um vendedor de legumes na Tunísia. A Primavera é bloqueada pelo conflito entre sunitas e xiitas.

Kepel diz que a terceira fase já está sendo um conflito entre sunitas: jihadistas salafistas contra wahabitas tradicionais. O EI considera que a guerra santa é legítima, não só contra o infiel inimigo do Islã, mas também contra os maus muçulmanos que devem ser assassinados ou convertidos.

O reino acuado

A Arábia Saudita suspendeu o financiamento aos sunitas que lutam contra Assad quando o EI anunciou que “o caminho para Ryiad passa por Damasco”. Quer dizer, depois de acertarem as contas com Assad, eles se voltarão contra a Arábia Saudita, que consideram um reino entreguista, corrompido pelo dinheiro do petróleo.

A utopia do EI é um Califado soberano e revolucionário capaz de abranger toda a comunidade de fiéis (“umma”). É o que a gerontocracia saudita mais teme: a revanche histórica da sedição Ikwan esmagada em 1929.

O grande paradoxo, afinal, é que foram os americanos e sauditas que abriram a caixa de pandora do jihadismo. Os americanos ao fornecerem, nos anos 80, os mísseis “stinger” aos combatentes contra os russos no Afeganistão, entre os quais figuravam Bin Laden e al-Zarqawi. Nas palavras de um agente graduado da CIA, foi uma guerra “vencida com o nosso ouro e o sangue deles”.

Os sauditas também financiaram os muhajedins afegãos e as brigadas sunitas que os ajudaram contra os soviéticos. E, pior, permitiram o estacionamento de tropas americanas em solo sagrado do Islã depois da primeira Guerra do Golfo. Não por acaso, nos atentados de 11 de setembro, 15 dos 19 piratas do ar eram sauditas, como Bin Laden.

Karen Elliot House, que estuda e visita a Arabia Saudita há 30 anos, descreve essa sociedade fechada e conservadora, onde até as lojas da Starbucks têm compartimentos separados para mulheres e homens. Mas um sistema de regras religiosas, restrições governamentais e tradições culturais não combina com a geração da internet. Paira no ar ainda o medo do eventual esgotamento do ciclo do petróleo e a armadilha representada pelo tipo de sucessão adotado pelo reino.

O poder lá não muda de geração. Os 44 filhos de Abdul Aziz Bin Saud vem se sucedendo no trono desde a morte do patriarca. De irmão para irmão, a partir de 1953. O atual rei, Abdulah, não está longe dos noventa anos. O irmão mais moço tem mais de 60. A certa altura a dinastia não terá mais peça de reposição. House evoca a gerontocracia soviética em seus últimos anos. A hipótese de que o regime possa um dia viver uma primavera política com a chegada de um jovem Gorbachev nessa paisagem austera não é absurda.

A conjectura mais sombria é a de Alastair Crooke, ex-agente do MI-6, o Serviço Secreto inglês, autor de "A Resistência: a Essência da Revolução Islâmica". A da implosão do país por forças de vanguarda que reivindicam um wahabismo “autêntico” wahabismo dirigido contra os filistinos no poder. É a realização do sonho do EI.

* Jornalista, escritor e professor de jornalismo internacional na PUC-Rio. Artigo originalmente publicado em 16/10/2014.