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Rio de Janeiro, 28 de março de 2017


Opinião do Professor

A miragem da nova classe média latino-americana

Arthur Ituassu*

27/09/2013

 José Cruz / Agência Brasil

O ex-economista-chefe do Banco Central Argentino Eduardo Levy Yeyati publicou, no último dia 25, no site do Project Syndicate, uma análise bastante questionadora dos ganhos na elevação da renda ocorrida recentemente no contexto latino-americano. Segundo ele, ganhos de renda não devem ser tomados necessariamente como aumento do bem-estar da população.

De acordo com o economista, hoje espera-se que novas 400 milhões de pessoas chegarão à classe média no mundo até 2020, somando-se às 1,8 bilhão de pessoas com esse nível de renda no planeta. Mesmo que a ampla maioria dessa nova classe média viva na Ásia, a América Latina também faz sua contribuição. Entre 2003 e 2009, por exemplo, segundo Yeyati, a classe média latino-americana cresceu em 152 milhões de pessoas, totalizando 30% da população no continente.

Tal transformação econômica tem sido apresentada, para o ex-dirigente do Banco Central argentino, como uma prova do sucesso das políticas expansionistas da última década. Entretanto, mesmo que medidas de redução da pobreza e diminuição das desigualdades devam ser exaltadas, os ganhos de bem-estar proporcionados devem ser vistos com cautela, segundo Yeyati.

Pelo menos três argumentos sustentam uma visão mais cuidadosa. Em primeiro lugar, é preciso atentar para a explosão do consumo, em relação à poupança da população. Se o ganho de renda se transforma em boa parte em consumo e pouco em poupança, o sistema fica muito dependente de um ritmo intenso de expansão. Nesse contexto, quando vem a retranca famílias inteiras podem voltar ao estado precário anterior. Ou seja, se não houver poupança, os ganhos recentes serão fulgazes.

Além disso, como sugere um estudo do Banco Mundial, famílias de renda baixa e média, especialmente na Argentina e no Brasil, estão consumindo bens com alta taxa de depreciação, como televisores e carros. Tais orçamentos familiares, segundo Yeyati, são particularmente vulneráveis se financiados por crédito bancário. Se o consumo cresce mais rápido que os ganhos, e os débitos a serem financiados se tornam cada vez maiores, orçamentos familiares podem acabar em uma situação pior do que aquela antes da elevação da renda.

Finalmente, o terceiro e talvez mais importante motivo para a cautela diz respeito às dúvidas levantadas por Yeyati com relação à elevação do bem-estar da população. Segundo o economista, elevação da renda não necessariamente é sinônimo de aumento na qualidade de vida da população. Afinal, o mesmo trabalhador de classe média que hoje desfruta de uma renda maior, enfrenta os engarrafamentos gigantescos e os péssimos sistemas de transporte público das grandes cidades da região. Ele adquire planos de saúde para fugir do precário atendimento médico dos sistemas públicos de saúde no continente e paga pela educação dos filhos em escolas particulares no intuito de evitar as instalações mal cuidadas e os professores mal pagos dos sistemas educacionais latino-americanos, com algumas poucas exceções.

Para Yeyati, a provisão deficiente de bens públicos nas sociedades latino-americanas, como educação, saúde e segurança, é, nesse sentido, o outro lado da moeda da expansão econômica na região. Nesse contexto, subsídios e transferências estatais impulsionam ganhos privados de renda, inserindo novos consumidores no mercado capitalista do continente. Ao mesmo tempo, a permanência da incapacidade do Estado de prover bens públicos dificulta a transformação desses mesmos ganhos de renda em real elevação na qualidade de vida da população. Ou seja, ao fim, ganha muito o mercado, um pouco o cidadão. 

*Doutor em Relações Internaiconais pelo IRI e coordenador de jornalismo do Departamento de Comunicação da PUC-Rio.