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Rio de Janeiro, 21 de agosto de 2017


Opinião do Professor

"A marca Coutinho amplia nossa sensibilidade; é universal"

Miguel Pereira* - aplicativo

17/02/2014

 Agência Brasil

A trágica morte de Eduardo Coutinho é um fato que nos faz refletir sobre as diferentes dimensões da vida.  Artista lúcido e criativo, Coutinho fez de sua existência a busca da melhor maneira de entender o outro e a si próprio. Não apenas a sua obra cinematográfica testemunha isso, como suas ações e atitudes cotidianas. Preservou a sua intimidade e revelou a dos outros como sendo a sua. Com isso estabeleceu um elo existencial entre seus personagens e ele mesmo. Intimidade significa algo que diz respeito aos sentimentos, convicções, pensamentos e afetos. Aquilo que todos nós fabulamos como moeda espiritual das nossas vidas. É o encantamento gerado pela poesia da vida comum e não pela inteligência controladora ou pelo moralismo farisaico. Essa foi a marca principal do cinema de Eduardo Coutinho e da sua própria vida. O humano em sua postura radical e ética e na generosidade de ser e existir. Sabemos dos seus gestos no sentido de não abandonar aqueles que participaram de suas obras. De alguma forma continuava conectado e interessado neles. Walter Carvalho escreveu um belo artigo ressaltando essa dimensão da personalidade do Eduardo Coutinho.

Embora se definisse como uma pessoa não religiosa, realizou a obra cinematográfica que melhor define o ato da fé na vida humana: Santo forte. Este filme foi finalizado com recursos de um fundo da organização católica holandesa Porticus, num concurso realizado para produções da América Latina. É o cineasta brasileiro mais premiado por organismos católicos. Lembro que no primeiro Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, realizado em novembro de 1984, no hotel Nacional, Cabra marcado para morrer, ganhou o prêmio da Organização Católica Internacional de Cinema e Audiovisual (OCIC), o primeiro a ser anunciado, além do Tucano de Ouro, que teve o empenho especial de um dos membros do júri, o ator italiano Ugo Tognazzi, que ficou extremamente impressionado com o filme. Na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é o campeão do troféu Margarida de Prata. Essa identidade com os valores do cristianismo, espelhada em seus filmes, se traduz também num comportamento profundamente humano que muitas vezes se escondia em atitudes um tanto ranzinzas ou irônicas. Na verdade, Coutinho tinha um profundo respeito pelo outro, além de ser uma pessoa alegre e emotiva por trás dessa couraça.

Seu cinema era de pesquisa contínua e inovações. Coutinho era um artista insatisfeito no sentido de que sentia necessidade olhar para mundo para compreender e não para julgar. Seus métodos não podem ser repetidos, pois dependiam da sua maneira de ser. A marca Coutinho é um guia que ajuda e amplia a nossa sensibilidade. Por isso, é universal.