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Rio de Janeiro, 27 de junho de 2017


Mundo

Sobrevivente do Holocausto: "Direitos humanos são sinônimo de respeito"

Luísa Oliveira - aplicativo - Do Portal

12/03/2015

 Paula Bastos Araripe

De camisa azul, suspensórios, calça social, sandália de couro e meias, o polonês Aleksander Laks, 87 anos, abriu a porta de seu apartamento em Copacabana, numa tarde quente de março: “Chegaram os meus amores!”, disse ele, com a voz mansa, o olhar sereno e sorriso no rosto, que se manteria nas horas seguintes, apesar das emoções e das tristes memórias remexidas. Um dos últimos sobreviventes vivos da perseguição nazista, Laks passou por Auschwitz-Birkenau e Flozemberg, campos de extermínio da Polônia, onde morreram mais de 1,5 milhão de pessoas, entre eles seus pais e a avó, e por uma das Marchas da Morte, sendo resgatado em 1945 pelo exército soviético.

Viveu nas ruas até conseguir contato com tios que haviam imigrado antes para o Brasil, aonde chegou em 1948. Na terra que adotou de alma e coração, reconstituiu sua vida. “Fui um dos poucos que conseguiu se recompor”, diz ele, que se considera 100% carioca e torce pelo Flamengo. Viúvo, pai de dois filhos e avô de três netos, Laks abriu o álbum da família e relembrou o nascimento do primeiro filho, nos anos 1970: “Foi muito especial. Está vendo a minha barba? Eu era hippie nessa época”, conta, sob gargalhadas, antes de pedir à cuidadora Rosângela que servisse um cafezinho.

 Paula Bastos Araripe Desde então, se tornou figura requisitada em todo o país, dando palestras para jovens e adultos, contando as experiências que registrou no livro O sobrevivente – Memórias de um brasileiro que escapou de Auschwitz (assista a trechos da palestra de Laks na PUC-Rio em 2009) e presidindo a Associação Brasileira dos Israelistas Sobreviventes da Perseguição Nazista. Ainda assim, por mais que esta seja sua rotina há 70 anos, emociona-se: “Não consigo me dissociar daquilo que passei”.

Seu lar, coberto de quadros, fotos, desenhos e dedicatórias, é um memorial: imagens do Muro das Lamentações, condecorações que ganhou ao longo do tempo e menorás, candelabros de grande simbolismo na tradição judaica. Nas estantes, livros e vídeos sobre o Holocausto são os mais numerosos, mas também há espaço para o Auto da Compadecida, a versão de Os miseráveis de Claude Lelouch e musicais de Frank Sinatra – “sempre bom de ouvir”.

Sete décadas após a libertação de Auschwitz, em 27 de fevereiro de 1945, Laks recebeu a equipe do Portal para esta entrevista, em que conta como usa a própria vida como propósito de um mundo melhor.

Portal PUC-Rio Digital: Como o senhor lida com a curiosidade e o interesse das pessoas sobre um momento tão delicado da sua vida? Paula Bastos Araripe
Aleksander Laks:
Eu fico muito satisfeito, porque as pessoas ainda estão muito interessadas no assunto. É um tema que não pode morrer. Eu faço palestras e aparições com o intuito de nunca mais acontecer de novo. Não é: “coitadinho de mim porque sofri tanto”; é para alertar que isso não pode se repetir. E me alegra saber que as pessoas ainda se interessam por isso, procuram me ouvir, saber sobre a minha história.

Portal: O senhor conseguiu superar tudo o que viveu?
Laks:
De certo modo. Eu, aparentemente, sou uma pessoa normal. Casei, tive filhos, netos... Sou um dos poucos que reconstituiu uma família, e isso me deixa muito feliz, porque muitos não conseguiram. Eu vivo sem ódio, sem raiva. É isso o que me faz viver.

Portal: Antes de dormir, no que o senhor pensa?
Laks:
Depende. Geralmente, eu não durmo uma noite inteira. Tenho pesadelos, grito em outras línguas (ele domina cinco idiomas). Não é, Rosângela? Ela fica preocupada. Não consigo dormir, sempre fico assustado. Só durmo quando estou muito, muito cansado, como na noite passada.

Portal: No livro O sobrevivente, há dois momentos em que o senhor destaca a importância de um alimento. O primeiro, antes de entrar no campo de concentração, quando sua família estava atrás de 1kg de pão; e o segundo, ao final, quando um desconhecido lhe deu um copo de leite...
Laks:
Eu estava à beira da morte, pesando 28kg, com 17 anos, na Marcha da Morte (cerca de 60 mil prisioneiros de Auschwitz foram obrigados a percorrer 63 quilômetros a pé, no inverno europeu, até o campo de Flozemberg, numa cidade vizinha).

Portal: Sim. Quando o senhor faz as refeições hoje, como se sente?
Laks:
Eu sempre lembro. Tudo o que eu como traz lembranças muito intensas. O que eu comi hoje é mais do que eu comi ao longo de um mês na época do Holocausto. Nunca me alimentei tanto como agora. Eu sempre recordo. Quando como batata, lembro-me da casca de batata que os nazistas nos davam; quando como peixe, eu me lembro de uma espinha que comi. Não consigo me dissociar daquilo que passei.

  Paula Bastos AraripePortal: Isso acontece com outras coisas também...
Laks:
Com tudo. Com roupa também, por causa do uniforme. Era um pijama que eu usava. Hoje em dia posso usar calça, meia quando está frio... No campo eu não podia. Na Marcha da Morte enfrentamos muito frio, e tudo o que tínhamos eram os pijamas e os tamancos que nos deram. Algumas pessoas nem tamancos tinham mais, porque machucavam muito. Muitos dos que fizeram a Marcha morreram no meio do caminho por frio e fome. E, se parássemos no meio da travessia, reclamássemos de dor ou simplesmente um de nós caísse por falta de força, éramos fuzilados. Lembro de tudo. Eu não falo sobre isso com frequência, só quando pedem.

Portal: Se o senhor escrevesse hoje O sobrevivente de novo, mudaria alguma coisa?
Laks:
Não, seria exatamente igual. Só acrescentaria algumas datas. Na época em que estava lá eu não sabia as datas, só fui saber quando fui libertado. Por exemplo, eu não sabia a data em que meu pai nasceu, a data em que morreu, a data em que estava no campo, a data da Marcha da Morte... Os alemães marcaram tudo. Quando finalmente estava livre, decidi ir todo ano ao campo de Flozemberg, em que mataram o meu pai. Vou agora em abril, porque coincide com a data em que libertaram o campo do domínio nazista. Sempre vou lá fazer uma reza. Eles têm tudo escrito: o número do meu pai, o meu número, tem tudo lá.

Portal: Para o senhor, quem era Deus naquela época? E quem é Deus hoje?
Laks:
Na época não era nada, Ele não existia pra mim. Eu me perguntei várias vezes: como pode um Deus permitir tantos milhões sacrificados a troco de nada? Crianças! Um milhão e meio só de crianças! São crianças! Que criança fez alguma coisa que mereça morrer?! Aliás, nos campos, muitos que eram, de fato, religiosos, deixaram a religião; e outros, que não acreditavam, se apegavam a Deus. Eu, pessoalmente, nunca pensei em Deus enquanto estava no campo. Eu só pensava em não apanhar, em achar uma coisa para comer, em trabalhar de mentira, assim eles pensariam que eu estava na labuta e não bateriam em mim. Só isso. Mas, quando fui libertado, eu não sabia que tinham sido exterminados 6 milhões de judeus. Eu achava que tinham sido dezenas, centenas. Quando soube que foram 6 milhões, eu disse: Paula Bastos Araripe  “Cadê Deus? Isso não existe! Deus não iria permitir. Não tem que permitir!”. Fiquei muito revoltado. Pensava que, se Deus mandou, então os nazistas tinham razão. Deus estava conivente, então eles matavam. Mas, com o tempo, eu comecei a raciocinar...  Deus não mandou matar. Ele disse: “Não matarás!”. Os nazistas dizimavam porque não O tinham em seus corações; se tivessem, não teriam feito o que fizeram. Eu não sou muito apegado à religião, mas tenho muito orgulho de ser judeu. Não sou melhor nem pior por isso, mas eu sou judeu. Sobrevivi. E hoje acredito em Deus sim.

Portal: Teve algum arrependimento?
Laks:
Logo que fui libertado, eu me sentia culpado por ter sobrevivido. De início, eu me perguntava “por que eu sobrevivi? Depois que tantos morreram, eu sobrevivi?”. Eu tinha vergonha de ter escapado. Hoje não. Se eu não tivesse sobrevivido, não estaria aqui para contar. Esse aqui é o meu compromisso com a vida.

 Paula Bastos AraripePortal: Sete décadas após a libertação de Auschwitz, o senhor se considera um milagre? O que pretende deixar de legado para os mais novos?
Laks:
Todos têm que saber o que houve lá, e evitar que ocorra de novo. Uns até diziam que Auschwitz era um lar de idosos. Um milhão e meio de pessoas morreram lá, nas câmaras de gás, inclusive a minha mãe, e agora vem gente dizendo que não existiu? Quem disse que não existiu, é só perguntar onde estão meus familiares. Sou o único sobrevivente em uma família de 60 pessoas. E onde estão? Secaram? Não secaram, não. Foram todos exterminados. Sou o único sobrevivente até da escola em que estudei (na foto, um registro que ele recuperou da turma). Então é algo que, de fato, eu não sei se é um milagre. Sobrevivi não sei como, mas sei para quê: para testemunhar e avisar para que nunca mais aconteça de novo. Por um mundo bom, fraterno e sem preconceito.

Portal: Como é sua relação com os alemães hoje em dia?
Laks:
Muito boa. Vou à Alemanha todo ano. Eu não perdoo os causadores da minha dor, no caso, os nazistas. Mas as segundas, terceiras gerações não têm relação alguma com isto. Talvez, se a Alemanha tivesse ganhado, eles seriam também a mesma coisa. Mas isso é uma hipótese. Não podemos julgar alguém por uma hipótese. Eu tenho que respeitar, porque eles não fizeram nada. E é justamente por isso que eu não posso culpar filhos e netos por coisas que os pais e avós fizeram.

Portal: A comunidade judaica em Cracóvia ressurgiu...
 Paula Bastos AraripeLaks:
É muito pouco. Na Cracóvia e em outras cidades têm judeus, mas ainda é pouquíssimo. As cidades estão vazias, praticamente não têm semitas.

Portal: Atualmente grupos neonazistas e o Estado Islâmico estão ganhando muitos seguidores. Sendo defensor dos direitos humanos, e por tudo o que o senhor passou, como avalia esse cenário?
Laks:
Fanatismo. Isso é só fanatismo, segregação. Eles são tudo o que uma suástica representa. É isto. Eles não se diferenciam em nada dos nazistas.

Portal: Além do seu, outros livros contam histórias dos campos de concentração, como O Diário de Anne Frank e O menino do pijama listrado. O senhor leu as obras ou assistiu aos filmes? O que sentiu?
Laks:
Bom, Anne Frank é um clássico. Ela estava lá, escondida. Eu também estava. Até que ela morreu, e foi o primeiro relato que surgiu, por isso teve tanta repercussão. Já o Menino do pijama listrado permite imaginar como era o cenário, mas é uma fantasia, porque, dentro do campo, você podia ir até certo ponto, depois vinha um caminho de terra com arame no chão; então, se você pisasse naquilo, entrava na pele e você se machucava. Depois disso, vinha uma esteira também com arame, só que essa já tinha eletricidade, você podia ser eletrocutado. Por fim, existia a cerca elétrica. Então, como chegar lá perto da cerca, como o garoto do filme chegou? E tem mais: depois que passava do ponto onde podia ir, havia soldados nas guaritas, e eles atiravam. E no filme tem um garoto sentado na cerca, entrando e saindo. Não existia isso, é uma fantasia completa. E não havia criança daquele tamanho no campo, elas eram todas mortas.

Portal: O senhor acha importante os muros de Auschwitz ainda estarem erguidos?
Laks:
Sim, eles não podem ser destruídos. A chaminé ainda está lá, Auschwitz ainda tem cinzas dos mortos dentro do campo. O mundo precisa lembrar o que aconteceu. Não como vingança, mas como um alerta.

 Paula Bastos AraripePortal: Atualmente, como define liberdade?
Laks:
Liberdade eu posso comparar a uma doença. Porque você só sente, só sabe quando perde. Quando você tem saúde, você não pensa em doença. Mas quando fica doente, você dá valor à saúde. A mesma coisa a liberdade. Quando temos liberdade, é tudo normal. Quando perdemos é que damos valor.

Portal: Mais novo, o senhor desejava ser médico, e não conseguiu. Hoje, seu filho é médico. O senhor pensa em realizar algo? Dar a volta ao mundo, por exemplo...
Laks:
Não, estou muito bem no Brasil! Eu viajo muito. Viajo dentro e para fora do país, faço palestras em quase todos os estados.

Portal: O senhor se considera um carioca?
Laks:
100%.

Portal: O que o senhor mais gosta no Rio?
Laks:
Não tem nada que não me agrade na beleza da cidade. O que eu não gosto muito é o tráfego. As pessoas ficam presas no trânsito por horas e horas, muitas vezes sem ar-condicionado. E algumas faltam com respeito nas ruas, e isso me incomoda. Sou defensor dos direitos humanos, e direitos humanos é respeito, mas as pessoas não se respeitam com frequência, e isso me dói muito.

Portal: Torce para algum time? Qual?
Laks:
Claro! Flamengo!

Portal: É flamenguista “doente”?
Laks:
Não, eu sou flamenguista. Doentes são os outros, que não torcem pelo Flamengo!

Paula Bastos Araripe  Portal: O senhor gosta de ler? Assiste a TV?
Laks:
Sim. Procuro sempre livros que falem sobre o Holocausto. Na TV, vejo telejornais. Não gosto de novelas...

Portal: O senhor tem conta no Facebook. Usa a internet com frequência?
Laks:
Sim, todos os dias. Nos últimos quatro dias eu estava sem computador, fiquei maluco.

Portal: O que mudou no Brasil desde que chegou?
Laks:
Quando cheguei era diferente. Eu andava na rua, olhava a pessoa e ela cumprimentava. Hoje, quando você olha alguém, pensam que você vai assaltar ou roubar. Naquela época não tinha isso. Eu me apaixonei pelo Brasil no primeiro minuto em que desci do avião. Só estou muito preocupado com a violência e com a corrupção.

Portal: Qual a palavra que o senhor mais gosta de usar?
Laks:
Não tenho uma palavra só. Um “bom dia”, “obrigado”, “desculpa”, “licença”. Eu gosto de carinho, gosto de abraçar. Isso pode mudar a vida de alguém.

Portal: Qual é o sentido da vida para o senhor?
Laks:
A vida é boa. Às vezes me sinto muito deprimido, é algo que não vai embora. Quando as pessoas estão ao meu redor não fico assim, só quando estou sozinho. Mas vivo para fazer palestras e alertar as pessoas para que isso nunca mais aconteça de novo. Sempre alertando contra violência, maldade, bullying, discriminação, racismo... Isso tudo é muito importante, valorizo muito isso. Que o meu passado nunca seja o futuro de ninguém.

 

Veja a galeria com os detalhes desta entrevista na seção de fotojornalismo.