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Rio de Janeiro, 24 de abril de 2017


Mundo

Rússia: busca de mais influência aguça tensões geopolíticas

Felipe Castello Branco e Juliana Reigosa - aplicativo - Do Portal

01/04/2015

 Davi Raposo

Trinta anos após Mikhail Gorbachev implantar a Perestroika (reestruturação), a Rússia passa por uma turbulência cujas razões e impactos extrapolam suas fronteiras. Com uma indústria pouco competitiva e um modelo econômico voltado para a exportação das riquezas minerais, principalmente gás natural e petróleo, a base material do poderio russo apresenta rachaduras estruturais. A queda de 60% no preço do barril de petróleo nos últimos meses causou estragos nas contas públicas e na cotação do rublo, a moeda local, que despencou 17,1% em janeiro. A inflação de 15% ao mês, a anexação da Crimeia, a guerra civil na Ucrânia, as sanções econômicas e o estilo autoritário de Vladimir Putin acirram ainda mais a tensão entre a Rússia, seus vizinhos e o Ocidente, observam os especialistas. Boa parte deles prevê a continuação dos atritos, à medida que o pais tenta expandir a zona de influência em países como Cazaquistão, Bielorrússia e Quirguistão e efetivar a União Econômica Eurasiática.

Para o professor do Departamento de História da PUC-Rio Maurício Parada, diante da dificuldade econômica decorrente da “crise geral do mercado” e das sanções econômicas impostas por Estados Unidos e União Europeia, a Rússia dedica-se a produzir uma aceitação interna que, de certo modo, pode ser conduzida por meio da política externa. Ele pondera:

– Assim, é possível criar alguma relação com o arco maior de retomada de valores nacionais que Vladimir Putin representa. Vemos um país com o discurso nacionalista muito presente e há um bom tempo imerso numa turbulência econômica.

Em dezembro, o Congresso americano aprovou resolução que autoriza o presidente Barack Obama a adotar sanções mais agressivas, a fornecer armas e outras ajudas ao governo da Ucrânia, além de suporte militar a países vizinhos à Rússia. Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), Bruno Hendler descarta, no entanto, a perspectiva de conflito direto entre as duas potências nucleares:

– Medidas coercitivas, como as sanções econômicas e diplomáticas, têm efeitos limitados. É difícil imaginar que o governo russo seja estrangulado a ponto de sofrer pressões internas que promovam uma mudança de regime, principalmente com os níveis de aprovação de Putin.

Para o coordenador do Centro de Estudos Russos da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Afonso de Carvalho, as restrições econômicas terão vida breve. “As sanções só fortalecem o setor rural da Rússia, assim como o setor de substituição de importações. Alguns países europeus já pedem socorro porque perderam o mercado russo. Melhor para o Brasil e para outros países latino-americanos”, avalia o professor do Instituto de Ciência Política da UnB.

– A Rússia nunca fez muita questão dos Brics. Apenas apoiava o bloco (formado também por Brasil, Índia, China e África do Sul) porque contribuía para descentralizar as decisões ocidentais, isto é, dos Estados Unidos. Com a nova situação, a Rússia passou a se interessar mais pelos países desse bloco. Dessa forma, o país governado por Vladimir Putin tem o ônus de protagonizar o rompimento de um sistema de relações internacionais que os Estados Unidos acreditavam dominar. Está declarado o fim do sistema unipolar, se é que ele existiu – ressalta Paulo Afonso de Carvalho.

O jornalista, escritor e professor de jornalismo internacional na PUC-Rio Claudio Bojunga avalia que as sanções econômicas são piores para os russos do que para os americanos. “Os russos imediatamente começaram a procurar alternativas e a negociar com a Índia e China”, observa Bojunga. Para ele, “mais do que as sanções impostas à Rússia, o grande golpe refere-se às cotações do petróleo”:

– A inflação deu um salto de 3,6% em relação a dezembro, provocando desgastes no país. A questão do petróleo é grave porque diminuiu o prestígio de valores importantes para as populações mais modestas, como estabilidade econômica e certo conforto. Dessa forma, o desemprego aumentou para 5,3%, o que mina a legitimidade de Putin. 

Caso o preço do barril de petróleo continue em 55 dólares, a Rússia perderá cerca de US$ 135 milhões (cerca de R$ 440 milhões) em relação ao ano passado, o equivalente a 10% do Produto Interno Bruto (PIB, a soma das riquezas produzidas), de acordo com a Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP). “O país enfrenta grandes desafios devido às sanções, à desvalorização do rublo e à queda do preço do petróleo”, constata relatório da OPEP. O setor representa 70% das exportações do país, segundo exportador mundial de petróleo.

Anexação da Crimeia e guerra civil na Rússia acirram tensão entre a Rússia e o Ocidente

Diante do dilema de se aproximar da União Europeia ou fazer parte do plano de Vladimir Putin de construir uma União Eurasiana, o presidente ucraniano Viktor Yanukovich acirrou a tensão entre russos, ucranianos e europeus. Yanukovich se recusou a assinar um acordo de livre comércio com a União Europeia, o que deflagrou descontentamento popular e manifestações de rua. Acabou destituído. Na avaliação de Claudio Bojunga, esse choque de posições foi o estopim para a atual divisão da Ucrânia:

– Existem dois projetos geopolíticos. Do lado europeu, mais geoeconômico, com acordos comerciais, parecido com o nosso Mercosul. E do lado russo, mais geopolítico, de tentar recompor a zona de influência da antiga União Soviética – sintetiza o especialista.

Ainda de acordo com Bojunga, a invasão da Crimeia foi a primeira consequência da divisão entre ocidente e oriente na Ucrânia:

– O acesso aos mares quentes, como o Mar Negro, e a Península da Crimeia, que tinha sido cedida à Ucrânia, são obsessões da Rússia. Na Crimeia, encontra-se o porto de Sebastopol, fundamental para o acesso ao Mediterrâneo.

Em maio do ano passado, Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão criaram a União Econômica Eurasiática, que pretende reforçar a integração de Moscou com as duas ex-repúblicas soviéticas. O professor de jornalismo internacional qualifica o acordo como uma “parceria oriental”:

– Não é uma parceria nos termos da União Europeia, mas sim a Rússia do Putin comandando essa história e impondo um modelo político totalmente diferente do modelo europeu. Esse projeto vem se amadurecendo faz anos, com o objetivo de recompor o entorno por uma zona de influência. 

 Reprodução O imbróglio político que culminou na anexação da Crimeia pela Rússia e no confronto em andamento no leste da Ucrânia atiça ainda mais a tensa relação entre a Rússia e o Ocidente. O doutorando em Economia Política Internacional Bruno Hendler divide o caso em três níveis: doméstico, regional e global. “No nível doméstico, a Ucrânia é um país com menos de três décadas de soberania plena. Seu regime político apresenta sérios problemas na separação dos poderes, sua economia patina há anos e a divisão étnica entre ucranianos e russos é latente”, avalia Hendler. Ele completa:

– No nível regional, a Ucrânia faz parte da esfera de influência russa. Por questões étnicas, históricas e geopolíticas, Moscou confere extrema importância para este vizinho e percebe sua aproximação com o Ocidente como uma ameaça. Já no nível global temos, de um lado, a Rússia de Putin retomando o protagonismo internacional após os anos de retração de Boris Yeltsin, e, de outro, o avanço do Ocidente sobre a esfera de influência russa na forma de duas instituições: a União Europeia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Na visão de Paulo Afonso de Carvalho, “a culpa da situação de pré-conflito na região da Ucrânia foi da OTAN e de seu principal líder, os Estados Unidos”:

– Os Estados Unidos promoveram o golpe de Estado na Ucrânia e armaram os grupos neofacistas para combater a população da Novarússia, região de população russa que geograficamente encontra-se na Ucrânia.

De acordo com o coordenador do Centro de Estudos Russos da UnB, a OTAN e as empresas multinacionais que promovem conflitos para expansão do capital “não sossegarão”:

– Os próximos passos serão a Bielorrússia e o Cazaquistão. As terras mais férteis na Ucrânia já estão sendo divididas entre a Monsanto e outras empresas de petróleo e gás natural.

Fornecimento de gás natural intensifica crise entre a Rússia e a União Europeia

O embate entre a Rússia e o Ocidente envolve inúmeros interesses comerciais, principalmente no setor energético. A União Europeia compra da Rússia 30% do gás natural consumido. Para chegar ao destino europeu, 80% do gás russo passam por gasodutos na Ucrânia. “A questão do gás se enquadra na interdependência complexa das Relações Internacionais, que ocorre quando dois ou mais atores são mutuamente dependentes em um ou mais setores da economia, gerando repercussões na relação de poder entre eles”, explica Hendler.

Já Maurício Parada diz que a tensão entre Rússia e União Europeia é um “problema diplomático”:

– A Rússia quer ter uma voz de autonomia e, por isso, não se alinha à União Europeia. Há um pragmatismo no quanto isso vai impactar a dinâmica econômica, mas é difícil imaginar, a curto prazo, um corte no abastecimento de gás natural russo para a União Europeia, que passa pela Ucrânia.

Hendler também acredita que, a curto prazo, Rússia e União Europeia não tenham interesse na interrupção de fornecimento de gás natural, pois esse comércio é “fundamental” para os dois lados. No entanto, articulações são feitas para reduzir as vulnerabilidades mútuas:

– A Rússia busca novos mercados na Ásia, principalmente a China, mas também Japão, Índia e Cingapura. Já a União Europeia busca a diversificação de sua matriz energética com investimentos em combustíveis renováveis, energia solar, eólica e biomassa – avalia Hendler.

Criticado no Ocidente, Putin tem mais de 80% de popularidade na Rússia

Enquanto é criticado no Ocidente por conta da centralização política, Vladimir Putin tem 86% de aprovação na Rússia, segundo o centro de opinião Levada. Paulo Afonso de Carvalho credita a popularidade do presidente ao resgate do orgulho popular:

– A popularidade de Putin se apoia na defesa dos interesses de grande parte da população. Ele resgatou o orgulho do povo, que, após o fim da União Soviética, havia entrado em depressão coletiva.

 Divulgação Hendler atribui essa popularidade ao apreço da cultura política russa por Estado e líderes fortes:

– É claro que o carisma de Putin também conta, mas a história da Rússia é marcada por regimes políticos centralizadores, seja na época dos czares ou da União Soviética. O governo de Boris Yeltsin, nos anos 1990, foi o oposto desta tradição: privatizações escusas, maior autonomia para as regiões e alinhamento com o Ocidente deixaram para a população a ideia de que o governo precisa se fazer presente na sociedade.

Desta forma, analisa Hendler, “Putin soube ocupar a lacuna deixada por Yeltsin e jogar com o ordenamento jurídico interno para reprimir a oposição e manter-se no poder, atendendo ao anseio popular por um Estado forte e paternalista”.

– Para uma nação como os Estados Unidos, cujo pioneirismo democrático surgiu em oposição ao absolutismo, a imagem de Putin como um déspota instável e inescrupuloso que faz e desfaz alianças ao estilo dos reis da Idade Moderna cai como uma luva. É claro que quaisquer tipos de repressão política e perseguição de minorias devem ser condenados, mas não se pode deixar de lado a tradição russa de centralização do poder e imaginar que, devido às sanções econômicas, o país se tornará uma democracia de inspiração ocidental – pondera o analista.