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Rio de Janeiro, 24 de abril de 2017


Mundo

Paris evoca defesa da liberdade para se reerguer dos ataques

Camila Zarur * - aplicativo - Do Portal

12/01/2015

 Camila Zarur

PARIS - O atentado contra o semanário de humor Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos e 11 feridos na manhã desta quarta-feira (7), ecoa numa onda de indignação que se estende do repúdio solidário de líderes mundiais às manifestações pelas ruas de Paris. A companhadas de cartazes e velas, milhares de vozes concentraram-se na Praça de la Republique, região central da capital francesa, para protestar contra o fanatismo religioso e evocar, num reencontro com a História, a liberdade de expressão. (Veja a galeria de fotos.)

O luto havia se instalado na cidade antes mesmo de o presidente François Hollande tê-lo decretado oficialmente. Logo o pesar transformava-se numa necessidade de reagir à violência extrema contra o direito de se expressar livremente. Às 18h (15h, no horário de Brasília), a praça próxima à Bastilha já reunia cerca de 35 mil manifestantes, jovens na maioria. Idosos e até crianças reforçavam os gritos de “nous sommes Charlie” e “on n’a pas peur” (“nós somos Charlie” e “não temos medo”, respectivamente). O chão foi tomado pelos dizeres “eu sou Charlie” em diversas línguas. O lugar se encheu de flores, velas e cartazes que condenavam a barbárie cometida por três terroristas em retaliação a charges consideradas ofensivas ao profeta Maomé. Entre os oito cartunistas e chargistas executados na redação da revista, estavam cânones como Georges Wolinsski; Jean Cabut, o Cabu; Stéphane Charbonnier, o Charb, diretor da publicação; e Bernard Verlhac, o Tignous.

Esses craques do humor foram lembrados no noticiário e nas esquinas. Manifestantes colaram, no Monumento à Republica, principal símbolo da praça, fotos de Cabu, Tignous, Charb e do Wolinski. Mais do que referências a gerações de chargistas mundo afora, representavam o valor da irreverência contra os vilipêndios à democracia, à liberdade, à vida. "Foi o nosso 11 de Setembro", resume o chagista Ique, autor e roteirista da TV Globo. "Mas o mundo editorial, os jornalistas, os cartunistas não podem se curvar ao tiro na liberdade de imprensa. Os cartunistas foram só o meio que os terroristas usaram para atacar a liberdade de imprensa como um todo", completa.

Um misto de choque, medo e indignação se abateu sobre a França, sobretudo Paris, assim que os três terroristas vestidos de preto fuzilaram 22 pessoas na sede do Charlie Hebdo, inclusive um visitante, por volta das 11h30 (8h30, no horário de Brasília), o maior atentado do país em meio século. À tarde, o alerta oficial para o risco de novos ataques, materializado no reforço de policiamento em pontos estratégicos da capital, refletia-se nas feições, ruas, rotinas. O massacre coincidiu com o primeiro dia da grande liquidação depois dos feriados de fim de ano, dia em que muitos vão às compras. Por conta disso, centros comerciais também reforçaram a vigilância.

O entorno da chacina, próximo ao metrô Richard-Lenoir, no centro da cidade, foi interditado ao público pela Policia Nacional e o comércio local, fechado. Enquanto moradores da área reclamavam que não conseguiam voltar para casa, inda no local, estudantes de Jornalismo da universidade Paris 8 foram até a região para protestar contra o ataque. "Não podemos deixar que atos assim, inaceitáveis, aconteçam mais", justifica a universitária Delphine Lahond. Uma pequena amostra do trauma multifacetado ao qual o atentado submeteu Paris.

À noite, as autoridades francesas divulgaram os nomes dos suspeitos da chacina, ainda foragidos, que assinaram também um policial durante a fuga: os irmãos franceses Said e Chérif Kouachi e Hamyd Mourad, cunhado deles. A apreensão da caçada aos terroristas e das reuniões de emergência nos altos escalões policiais e políticos é correspondida nas casas e calçadas de Paris. Depois de uma madrugada invadida por sirenes, a capital parisiense acordou com um tiroteio que matou um policial e feriu um funcinário da companhia de limpeza. Em princípio, a polícia descarta ligação com o atentado de quarta-feira.

Embora tentem voltar à rotina, a tensão segue estampada no vaivém dos parisienses. As ruas tomadas por carros policiais, as sirenes constantes, a tristeza pela perda daquelas figuras emblemáticas para o extremismo e as reações populares de defesa da liberdade são tintas frescas de aquarela cuja dimensão ainda é díficil precisar.

"O terrorismo transterritorial de corte religioso opera como um aplicativo", compara analista

O pesadelo da manhã de quarta-feira abriu feridas que a equipe do impresso Charles Hebdo julgava ter cicatrizado. Alvo de ataques terroristas há seis anos, os cartunistas que publicaram charges alusivas ao profeta Maomé foram vítimas de um fanatismo que, recorrente nos anos 1980 e 1990, volta a assombrar um país que tenta se reerguer diante da recessão econômica, de problemas associados à imigração ilegal e de uma incansável xenofobia. “Toda República foi atacada”, ressaltou o presidente François Hollande, em defesa da luta nacional pela liberdade de imprensa.

O ataque à publicação francesa evidencia uma das características principais do terrorismo transterritorial: o potencial para atingir múltiplos lugares, alvos variados, avalia o professor de Relações Internacionais da UFF Thiago Rodrigues, pesquisador do Grupo de Análise de Prevenção de Conflitos Internacionais (GAPCon), da Universidade Cândido Mendes. Ele observa que as respostas estatais a essa forma de ataque têm sido, desde 2001, a ampliação das modalidades de vigilância e de controle sobre a população e os fluxos de informação e pessoas, por meio do interesse europeu em construir um ambiente de segurança na própria Europa e no entorno estratégico – norte da África e Cáucaso:

– O terrorismo transterritorial de corte religioso opera como um programa ou aplicativo: vários grupos, às vezes com pouca ou nenhuma ligação entre si, agem a partir de uma plataforma de valores e táticas comuns. Não se trata de uma grande e única organização terrorista, mas de múltiplos grupos agindo em consonância com um programa de ação comum, orientado por valores aproximados de radicalidade religiosa e ojeriza ao “mundo ocidental” – esclarece o professor.

O repúdio ao ataque, logo transformado em manifestações em Paris e em outras parte do país e do mundo, inclusive o virtual, devem ser firme no combate contra o cerceamento à liberdade de expressão. Assim propõe o cartunista Ique:

 A sociedade como um todo deve se mobilizar para que isso não tenha um efeito tão devastador, esse foi o 11 de setembro dos cartunistas. O meu medo é que esse tiro contra a liberdade de expressão mude, por exemplo, os protocolos de embarque e desembarque em aeroportos e de conduta dentro de aviões.

Ataques terroristas tendem a adubar avanço da extrema direita, projetam especialistas

Diante do novo cenário europeu, o promotor de Justiça Militar Otávio Bravo, doutor em Direito Internacional pela Universidade Nacional da Irlanda e integrante do comitê da ONU para investigar crimes na guerra da Síria, acredita que ataques terroristas tendem a adubar a ascensão de partidos de extrema direita:

 O ataque fundamentalista forma um ciclo vicioso que dará força para a extrema direita europeia. A extrema direita já vem se fortalecendo com a bandeira da anti-imigração. A tendência, nas eleições europeias deste ano, é que a as bancadas de direita cresçam. Com a ascensão desse grupo, haverá uma consequência direta, o endurecimento na politica de imigração, e uma indireta: quando se fortalece a direita, a União Europeia é atingida, pois eles não têm o desejo de manter o bloco econômico do jeito que está.

Bravo pondera que a complexidade do cenário geopolítico exige reflexões e iniciativas mais apuradas do que o apelo genérico à guerra contra o terror:

 Não se sabe ainda se há uma relação direta entre os terroristas que atacaram a revista e o Estado Islâmico. O jornal já tinha sofrido um atentado antes, um incêndio criminoso em novembro de 2011. Podem ser fundamentalistas de qualquer outra célula terrorista. Evidente que a opinião pública vai ficar mais antipática e haverá menos menos restrições para ir à guerra contra o Estado Islâmico. Mas o envio de tropas terrestres para combater esse tipo de ostensiva é um atoleiro. Ficar apenas bombardeando gera resultados limitados e não promove a resolução do problema.

Para o professor de História da UFF Bernardo Koche, autor de Globalização, atores, ideias e instituições (Contra Capa Mauad X, 2011) duvida que o atentado deflagre mudanças radicais nas estratégias políticas:

 O que poderá acontecer é que mais países europeus, inclusive a França, poderão se somar aos esforços norte-americanos, agindo mais intimamente.  Isto ocorreria, ainda no governo Hollande, como uma espécie de satisfação ao crescimento das forças de extrema-direita  acredita Koche.

Analista prevê maior controle da população e investimento policial no "entorno estratégico europeu"

Em relação à Segurança Comum da União Europeia diante do ataque na capital francesa, Rodrigues considera que dois movimentos simultâneos possam ser potencializados: de um lado, a intensificação de medidas de controle das populações, fluxos de produtos, pessoas e comunicações na Europa; de outro, o investimento da Política de Defesa europeia em ações no entorno estratégico europeu.

– A primeira forma de controle ampliado incide sobre a própria população, com ênfase em grupos específicos (jovens pobres, comunidades imigrantes e muçulmanos). Já a Política de Defesa europeia pode investir ainda mais em ações no entorno estratégico europeu (Oriente Próximo, Cáucaso e Norte da África), apoiando regimes políticos autoritários ou não, mas comprometidos em construir barragens à imigração ilegal e aos grupos extremistas islâmicos – projeta.

Rodrigues acredita que, em um contexto de tensão crescente na França e na Europa em torno de temas como islamismo e imigração, o combate ao terrorismo potencializa táticas de controle e vigilância de populações de procedência africana e asiática:

– As populações de procedência africana e asiática sofrem grande pressão em termos de controle social na Europa. Esse controle não depende apenas da chamada “guerra ao terror”, pois tem proveniências em formas bastante arraigadas de racismo e xenofobia. No entanto, o combate – e a paranoia – do terrorismo fundamentalista tem potencializado as táticas de controle e vigilância dessas populações. As medidas de controle e repressão têm encontrado amplo apoio social, principalmente de setores das sociedades europeias mais impactados com a crise econômica. Os sentimentos xenófobos e racistas, desse modo, mais uma vez se conectam, ativam e sustentam medidas de segurança dos Estados, individualmente e coletivamente, no âmbito da União Europeia.

Já Bravo é categórico ao dimensionar os efeitos do ataque à publicação francesa em relação à geopolítica europeia:

– Trata-se de um duro golpe contra as liberdades democráticas de que o continente desfruta, o que abala as instituições francesas, ameaçadas por forças contrárias à plena liberdade, oriundas da extrema-direita, que cresce eleitoralmente. O avanço dessas forças poderá ser um dos resultados, no médio e longo prazos, do atentado terrorista. Tal situação poderá se replicar em vários países da Europa ocidental, que já assistem ao crescimento de movimentos políticos (e partidos) xenófobos, islamofobos e nacionalistas.

Ataques nem sempre são semelhantes, mas são convergentes, avalia integrante de comitê da ONU

Bravo lembra que ataques a publicações da imprensa, em retaliação a charges e outros tipos de conteúdos considerados ofensivos, sucedem-se, em diferentes graus e contextos, desde o fim do século passado: 

– Em novembro de 2011 houve um incêndio criminoso na sede da própria revista Charlie Hebdo e a revista dinamarquesa Jyllands-Posten também recebeu muitas ameaças, por exemplo. Em 1989, o escritor Salman Rushdie foi jurado de morte pelo ex-líder do Irã Aiatolá Khomeini. A relação deste ataque em Paris com outros atentados é indireta. Os motivos dos atentados nem sempre são semelhantes, mas  sempre convergentes. No fundo, o inimigo comum é o Ocidente – opina.

Koche acrescenta:

– Podemos lembrar também o ataque de um militante da extrema-direita da Noruega contra prédios públicos e militantes da juventude da social-democracia daquele país em 2011.  Até hoje, a figura do “lobo solitário” parece ser a mais adequada aos terroristas.  Eles devem possuir uma convicção política própria, mas agiram (provavelmente) de forma autônoma.  Desde 2001, a Europa tem sido atacada por atos terroristas, como o de Madrid, em 2004, e o de Londres, em 2005. Os ataques não foram muitos, mas é importante realçar o clima de insegurança e medo que eles perpetram, produzindo restrições de direitos e preocupações excessivas com a segurança.

*Colaboraram Juliana Reigosa, Luisa Oliveira e Yasmim Restum