Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 24 de junho de 2017


Mundo

O primeiro latino-americano, o primeiro jesuíta entre os papas

Danilo Alves, Renan Rodrigues e Rodrigo Serpellone - Do Portal

14/03/2013

 Reprodução

Surpreendente, a princípio, até para vaticanistas, o anúncio do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, como o novo líder da Igreja Católica revela-se coerente com as circunstâncias e os desafios de uma instituição que agrega 1,2 bilhão de fiéis mundo afora. À medida que analistas decantam a escolha consumada "já" na quinta votação do conclave, tornada pública nesta quarta-feira diante da multidão na Praça São Pedro, percebe-se que a decisão é carregada de simbolismo e lógica – desde o recado geopolítico embutido no ineditismo do primeiro representante da América do Sul, onde concentra-se a maior parte dos católicos (39%), até o nome, igualmente inédito, com o qual o ex-arcebispo de Buenos Aires entra para a história. O professor de Direito Canônico e ex-reitor da PUC-Rio padre Jesus Hortal lembra que Francisco representa a simplicidade e o caráter evangelizador alusivos não só a São Francisco de Assis mas também a São Francisco Xavier, um dos fundadores da Companhia de Jesus e um dos principais missionários da Igreja.

Tais remissões sustentam a interpretação de que a simplicidade – sinalizada logo na primeira aparição, ao curvar-se e conclamar os fiéis a rezar por ele –, a distância de uma Cúria sobre a qual pairam supeitas de irregularidades e a devoção missionária mostram-se traços, digamos, estratégicos para superar desafios como reforçar a evangelização na América e na Europa, onde o volume de católicos vem caindo, sobretudo na classe média. De perfil conservador, como indicam, por exemplo, as restrições à Teoria da Libertação, Jorge Mario Bergoglio assume a responsabilidade de conduzir os ventos da renovação. O reitor da PUC-Rio, padre Josafá Carlos de Siqueira, acredita que o novo pontífice será “muito firme em suas decisões” e que até possa ter uma trajetória semelhante à de João XXIII, papa de 1958 a 1963, que assumiu com fama de conservador e acabou convocando o Concílio Vaticano II:

– Ninguém imaginava que João XXIII faria tudo o que fez. Pode haver muitas surpresas em torno do novo papa. Tenho esperança de que ele vai perceber quais são os problemas. Afinal, o desafio muda muito as pessoas – teoriza.Maria Christina Corrêa 

Embora recaiam sobre o primeiro papa jesuíta, 479 anos depois de criada a Companhia de Jesus, missões supostamente mais difíceis do que ampliar a evangelização no continente americano, a primeira viagem internacional de Francisco – para a Jornada Mundial da Juventude, em julho, no Rio – reveste-se de renovada expectativa. Tanto por representar, segundo especialistas, a efetiva largada para, diferentemente dos dois papados anteriores, um maior diálogo com os episcopados mundiais, como pela perspectiva de maior peso geopolítico da América Latina nos rumos da Igreja. O arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, avalia que o encontro, animado por receber o novo papa, se cerca de “mais curiosidade”, conforme adiantou ao Portal há uma semana. Para padre Josafá, a Jornada Mundial da Juventude terá “um caráter latino-americano muito mais forte”.

O arcebispo do Rio pretende estender a agenda de Francisco I na capital fluminense, pois dois ou três compromissos haviam sido suspensos por conta da saúde debilitada do agora papa emérito Bento XVI. A despeito dos discursos oficiais que lembram a prerrogativa universal do pontífice, acima das nacionalidades, dom Orani admite que o primeiro sul-americano a suceder o Trono de Pedro pode atrair ainda mais gente para a Jornada, mas ressalva:

– Por limitações logísticas, talvez não seja possível receber mais visitantes.

Na extensa lista de desafios do papa, padre Josafá confia que encontrará espaço para “olhar com carinho” para as universidades católicas. A confiança vai além: o reitor acredita que a antiga convivência de Jorge Bergoglio com padre Hortal, quando eram estudantes, aguça a possibilidade de o pontífice vir à universidade. Josafá afirma estar feliz por ter um “confrade jesuíta” no posto mais alto da Igreja:

– É muito bom ver uma pessoa mais próxima como papa. Quem sabe um dia ele não vem à PUC? Vamos torcer e pedir a Deus muita força para ele. Os desafios são grandes.

Ainda de acordo com padre Josafá, a primeira impressão passada por Francisco I combinou serenidade e discernimento, “a base da Companhia de Jesus”. Para ele, tais atributos – somados ao rigor intelectual e ao pendor missionário, acrescenta padre Hortal – influíram na decisão da Igreja, às voltas com turbulências externas e internas.

Em que pesem o recado geopolítico inserido na opção por um cardeal sul-americano e, numa escala prosaica, as brincadeiras que ganharam as redes socais puxadas pela rivalidade nos gramados entre Brasil e Argentina, o reitor da PUC-Rio reforça o argumento de que a nacionalidade do novo papa passa ao largo dos desígnios católicos. Tampouco vê problema na idade (76) superior à que se esperava. Para ele, o mais importante é “o pensamento”.

A vida e trajetória do papa Francisco

Filho de uma família de classe média com cinco filhos, de pai ferroviário e mãe dona de casa e até então arcebispo de Buenos Aires, o jesuíta Jorge Mario Bergoglio, nascido em 17 de dezembro de 1936 na capital argentina, é considerado um homem tímido e de gostos simples. Antes de entrar na vida religiosa, formou-se em química e, quase uma década depois de ter perdido um pulmão por consequência de uma doença respiratória, ingressou em um seminário no bairro de Villa Devoto. Em 1958, entrou para a Companhia de Jesus, congregação religiosa dos jesuítas fundada no século XVI. Entre 1964 e 1966, foi professor de literatura e psicologia em Santa Fé. Estudou teologia entre 1967 e 1970, tendo sido ordenado sacerdote em dezembro de 1969.

Foi reitor da faculdade de filosofia e teologia de San Miguel, entre 1980 e 1986, e, após concluir seu doutorado na Alemanha, serviu como confessor e diretor espiritual em Córdoba. O título de bispo veio em 1992, e, em 1997, tornou-se arcebispo titular de Buenos Aires. Jorge Mario Bergoglio foi nomeado cardeal pelo então papa João Paulo II em 2001.