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Rio de Janeiro, 28 de abril de 2017


Mundo

Liderança e influência digital de Papa Francisco ampliam número de fiéis

Luisa Oliveira - Do Portal

07/04/2016

 Luisa Oliveira

Desde a sua eleição, em 2013, o Papa Francisco mudou para muitos o conceito de liderança e a imagem da Igreja Católica, principalmente para os mais jovens. Atualmente, Francisco possui contas no Facebook, Twitter e Instagram, todas com tradução para nove línguas diferentes (inglês, latim, polonês, francês, português, alemão, italiano, árabe e espanhol) e que, somadas, garantem cerca de 35,5 milhões de seguidores ao redor do globo. Com influência dentro e fora da igreja, o bispo argentino conseguiu uma façanha até então inédita na última década: pela primeira vez em dez anos, o número de fiéis aumentou acima do crescimento da população mundial. Segundo dados divulgados pelo Vaticano, o número de católicos saltou de 1,11 bilhão para 1,27 bilhão em 2014. Em dez anos, 157 milhões de pessoas foram batizadas.

Com seu jeito simples e travando diálogos sobre assuntos considerados tabus na Igreja (como o aborto e o casamento gay), Papa Francisco escolheu como principais aliadas as redes sociais, interagindo todos os dias com seguidores e admiradores ao redor do mundo. Frei Betto é conhecido no país pelas suas obras e defesa dos direitos humanos. O escritor e ex-assessor da Presidência da República entre 2003 e 2004 ressalta a preocupação do pontífice pelos mais pobres:

– Francisco é um papa que valoriza o lado humano de Jesus, aquele que faz uma opção radical pelos mais pobres e denuncia as causas da injustiça. É muito cômodo colocar Jesus apenas no céu para se livrar da responsabilidade que nós temos de abraçar os valores que ele pregou e que ele encarnou. O Papa Francisco traz aquele Jesus crítico, inovador.

A postura escolhida pelo papa em três anos de pontificado mostra um líder não só religioso como político. No mais recente acordo entre Cuba e Estados Unidos que restabeleceu as relações diplomáticas entre os países, o Francisco foi essencial nas negociações. Como mediador, uma das ações do pontífice foi enviar cartas para Barack Obama e Raúl Castro, convidando os líderes a resolverem questões humanitárias. As ações do argentino acabaram dando certo e tanto Obama como Castro agradeceram oficialmente a ajuda oferecida que concretizou, após 18 meses de negociações secretas, a reaproximação entre os dois países. Obama, inclusive, se tornou o primeiro presidente norte-americano a visitar o solo cubano após 88 anos.

O pós-doutor em Ciências Sociais pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris Jorge Claudio Ribeiro afirma que a autoridade alcançada pelo líder religioso fez toda a diferença no acordo político:

 – Ele ajudou na construção desse pacto e só podia fazer isso se tivesse autoridade. Alguns anos atrás não se imaginava um papa mediando uma questão tão delicada, principalmente com as denúncias de pedofilia que cercavam a Igreja. Não tinha a menor condição e nem autoridade. Era como se os líderes mundiais se perguntassem: o que você está fazendo aqui? Eu não sei se essa ação do Papa Francisco será favorável ao catolicismo, mas que é boa pra humanidade, é. E é isso que importa.

Foto: Tomaz Silva

Segundo o pedagogo com MBA em Gestão Acadêmica e Universitária Amaro França, o carisma do papa também é outro ponto forte: “Ele têm se comunicado de forma muito mais afetiva e acolhedora, que toca em projetos sociais que atingem a humanidade, e talvez isso leve a uma aceitação maior entre as pessoas”. As quebras de protocolo, a proximidade com os desamparados e os discursos sociais deram a Francisco um destaque maior nas questões humanitárias. Para França, a liderança do papa amplia-se para dentro e fora da igreja:

 – É uma liderança que tem o papel de abertura, um enfoque especifico, que é a luta pela dignidade humana. O olhar de Francisco talvez venha se destacando porque é uma postura que agrega a simplicidade e preocupação pelo social. Ele toca nas feridas da humanidade. As quebras de protocolo dão proximidade às pessoas e é daí que surge o reconhecimento de líder.

Ainda de acordo com o educador, há uma ausência de “verdadeiros líderes” no mundo, o que facilita o destaque ao pontífice:

– Acredito que o mundo esteja carente de verdadeiros líderes que sejam testemunhas de um novo modelo de concepção de vida. Francisco constrói essa figura de autoridade inclusive na política. As pessoas olham para ele, sendo católicas ou não e percebem essa autoridade. Ele é uma figura de esperança, mas não pode ser o único.

 “Laudato Si’” e a preocupação com o planeta

Publicada em junho do ano passado, a “encíclica verde” escrita pelo Papa Francisco teve caráter histórico: além de ser a primeira circular sobre o meio ambiente escrita por um pontífice, a Laudato Si (“Louvado Sejas”, baseado no Cântico das Criaturas de Francisco de Assis) também foi a primeira circular feita inteiramente pelo papa desde o início do pontificado. Ao longo das 190 páginas, Francisco destaca a urgência de um compromisso inadiável com o planeta. Para o professor de marketing e sócio da Escola de Educadores Elimar Melo, Francisco deixa na ecologia um novo modelo de debate:

– Ele deixa a discussão: que mundo nós vamos deixar para as próximas gerações? Ele tem algumas limitações como qualquer outra pessoa, mas é um avanço que desperta entusiasmo e encoraja a todos a se juntarem nessa luta.

Ribeiro destaca “um novo olhar” defendido pelo papa na Laudato Si: 

– Não é somente falar sobre plantas e borboletas, mas sim, que tudo está interligado. É um novo olhar, uma cosmovisão. Todo um ponto de vista pelo qual se deve olhar a religião e a vida humana. Além de líder religioso, ele é um líder ecológico e fala para todo mundo, católicos ou não, sobre a preocupação com a sustentabilidade.

Para França, “a carta tem um caráter de orientação e de posturas novas para os católicos e também para a humanidade” e continua:

– Essa abordagem é sempre necessária não só para que o assunto venha à tona, mas para que se tenha impactos sobre as políticas macro sistêmicas entre as nações, na sociedade e no comportamento individual das pessoas, da relação delas com o planeta.

A quebra de modelos e a discussão de alternativas atraíram olhares ao redor do mundo sobre o papa que, em dois anos de pontificado, levantou ideais humanitários na Igreja Católica. Além do acolhimento aos homossexuais e do pedido de perdão pelos escândalos de pedofilia que marcaram o Vaticano, a nova definição familiar também foi pauta de argentino em suas falas. Para o professor Elimar Melo, as mudanças que ocorrem na sociedade devem estar nos discursos da Igreja:

– O modelo familiar mudou. Hoje, os filhos têm irmãos do outro casamento do pai ou por parte da mãe e assim por diante. O fato é que o novo desenho da sociedade requer uma postura inovadora das instituições que a constroem, inclusive da Igreja. Até para refazer e dar novo significado aos novos modelos, a Igreja deve compreendê-los e abraçar esta nova sociedade. Francisco se relaciona com seus fiéis pela via da atração, mostrando o amor de Deus pelo ser humano, e não pela imposição e esse é o espírito de realizar uma ética dos direitos básicos.

 Foto: Tânia Rego O lado humano despertado por Francisco despertou diversas reações ao redor do mundo. Muitos se surpreenderam com a alteridade mostrada pelo pontífice que se impôs em questões polêmicas, como a crise dos refugiados que cerca a Europa. Para Amaro França, o papa se apresenta “como um líder de diálogo e postura política, como chefe de Estado entre as nações”:

– Ele é de grande importância para o momento em que estamos vivendo, tempos de conflitos, guerras e fechamento de fronteiras. O papa (nas fotos com Dom Orani Tempesta, cardeal arcebispo do Rio) surge como uma voz de esperança, de pôr a mão nas feridas da humanidade e provocar estadistas para que eles também se abram às realidades, pensando sob o ponto de vista humano. Ele é uma figura de esperança, mas não pode ser o único. Francisco já é reconhecido como líder de diálogo e postura política, como chefe de estado entre as nações e acho que este é o seu papel fundamental no mundo.

“Rezem por mim”

A frase inesperada dita por Francisco ainda em sua nomeação acompanha os passos do pontífice até os dias de hoje. Principalmente nas redes sociais, o papa pede constantemente para que os fiéis orem por ele, ressaltando a relação intimista que prega entre o líder e seus seguidores. Para Ribeiro, a postura do papa surpreende por seu caráter pedagógico:

– No início, o papa Francisco fez alguns gestos simbólicos: a escolha do nome, o pedido de oração pela vida dele aos fiéis, a mudança de casa... Com o tempo, foi acumulando moral para poder dar outros passos. Ao contrário de João Paulo II, que viajava freneticamente, Francisco está mais preocupado em coisas mais calculadas, está tocando em feridas antigas. Ele sabe que não tem muito tempo. Ao mesmo tempo, tendo certo senso de urgência, sabe que não pode tomar decisões precipitadas, para não rachar a Igreja.