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Rio de Janeiro, 16 de outubro de 2017


Mundo

Ida de Obama a Cuba e Argentina indica guinada dos EUA

Carolina Ernst - aplicativo - Do Portal

31/03/2016

 Agência Brasil

No domingo, dia 20, acompanhado pela mídia internacional, o presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, pousou em Havana. Após passeios pela cidade e um encontro com o presidente cubano, Raúl Castro, encerrou a visita ao país com um discurso no Gran Teatro. Fez um apelo por "liberdade para os cubanos" e justificou que estava ali para "derrubar qualquer indisposição remanescente" da Guerra Fria: "É tempo de deixarmos o passado para trás e pensarmos num futuro juntos. Um futuro de esperança. Sí, se puede (‘Sim, podemos’), uma alusão ao slogan aditado na campanha americana: Yes, we can.” finalizou.

A cartada diplomática embutia significados menos evidentes do que a quebra do jejum de 88 anos sem que um presidente dos Estados Unidos visitasse o país. Ao lado da visita à Argentina, em meio a uma América Latina mais aberta à Casa Branca, marca também um redirecionamento da política externa americana que deixa para trás questões representativas do século XX, como rivalidades da Segunda Guerra e da Guerra Fria, para se concentrar numa nova agenda mais pragmática.

O pragmatismo se retrata na virada do eixo prioritário para a Ásia, pois a arrancada da China, segundo economia mundial, e dos Tigres Asiáticos passaram a perturbar o sono embalado por décadas de hegemonia. Assim avaliam especialistas como o professor de Relações Internacionais da PUC-Rio, Paulo Wrobel. Ele acredita que o viés pragmático também se desdobre, devido à ascensão do grupo extremista Estado Islâmico, num endurecimento da política acerca do combate ao terrorismo a partir do próximo ano, quando a Casa Branca terá novo mandatário. Mas o endurecimento provavelmente não aniquilaria a ternura da desmilitarização conduzida, em diferentes graus, nos mandatos de Obama.

Para a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Cristina Pecequilo, os novos ventos da diplomacia americana refletem diretamente o rearranjo de forças na balança geopolítica e econômica mundial:

– A ascensão de países como a China, os Tigres Asiáticos e os Brics são ameaças à hegemonia estadunidense, mas em diferente escala. Essa ascensão é uma marca do século XXI. A hegemonia quer manter a monopolaridade diante da desconcentração de poder – completa.

A expansão chinesa revela-se o maior desafio para os Estados Unidos hoje, aponta o professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC, Valter Pomar.  Para ele, os americanos vivem o “terceiro grande momento da história de suas relações com o mundo”, caracterizado pelos desafios decorrentes da vitória contra o campo socialista na Guerra Fria.

– Essa vitória trouxe à tona os conflitos intercapitalistas, agregados ao papel que a China assumiu no fim do século XX e início do século XXI – explica.

Nessa “batalha pela multipolaridade”, como descreve Cristina, lidar com a capacidade militar, econômica e industrial chinesa torna-se uma peça-chave no tabuleiro da diplomacia americana. O professor de Relações Internacionais da UERJ, Marcelo Valença, observa uma “ascensão significativa no dinamismo econômico, território no qual os EUA se achavam insuperáveis”. Um cenário impulsionado pelo comunismo de mercado do país asiático, reforça o especialista:

– A China mostra um potencial gigantesco de adaptação ao capitalismo, com uma projeção maciça sobre o comércio exterior. Assim, sua atuação tende a se intensificar em todo o globo, como indica o prestígio que o yuan vem ganhando no mercado financeiro. Por um lado, é um parceiro comercial confiável. Por outro, tem potencial para alterar as regras a seu favor, reforça.

O avanço do investimento chinês na África, em virtude da corrida por recursos naturais, representa um item crucial da nova agenda externa americana. Uma agenda conduzida, noves fora, pelas redistribuições de forças da economia mundial, ressalta o professor Paulo Wrobel:

– Depois da Segunda Guerra, os Estados Unidos seguiram por muito tempo como a única grande potência mundial, até a recuperação da Europa e do Japão. A China se mostra uma ameaça à manutenção da hegemonia americana. Até agora, os Estados Unidos acomodaram esse crescimento, mas a situação tende a ficar cada vez mais complicada. Contudo, não quer dizer que vai haver uma guerra.

Wrobel acrescenta que o crescimento dos Tigres Asiáticos também perturba o sono americano. A guinada extrapola os aspectos econômicos, avalia Valença:  

– Há uma identidade asiática em ascensão, com influências na política, na cultura, na sociedade. A China é o elemento mais visível, mas Índia e Japão também estão nesse processo. Suas políticas externas evoluíram consideravelmente.

A China cultiva interesses territoriais concretos tanto na Ásia quanto em outros continentes. Em termos militares, há, consequentemente, uma renovação das lideranças e investimentos. O país ocupa o segundo lugar no ranking de países com as maiores despesas militares, indica o SIPRIMilitary Expenditure de 2014, está a China. Chegam a US$ 216 bilhões. Os Estados Unidos mantêm a liderança folgada: US$ 610 bilhões.

Questões seculares se reciclam

Embora a Ásia tenha assumido um protagonismo na agenda externa americana, Pomar acredita que “Cuba e o Oriente Médio, questões relativamente antigas, não vão sumir do mapa”. Apesar do fim da Guerra Fria e da retirada das tropas americanas no Afeganistão, o professor argumenta que tais áreas continuam na pauta dos EUA, por razões diferentes. “No Oriente Médio, o cenário é complicado”, sintetiza.

Ainda de acordo com o especialista, um dos principais interesses estratégicos dos Estados Unidos refere-se à transferência desta e de outras zonas de conflito a um segundo plano, “de maneira a liberar forças e atenção para o conflito fundamental: a China”. No entanto, a ascensão do Estado Islâmico nos últimos anos e uma nova geração de cubanos-americanos podem conservar o engajamento dos EUA nas respectivas áreas.

– Os recentes eventos na Europa indicam que o Oriente Médio não é apenas um tema da agenda política do século passado. Os desafios têm se renovado, mas a essência continua a mesma. Com uma nova onda de refugiados na Europa, em função da guerra na Síria e do Estado Islâmico, o Oriente Médio tem ficado cada vez mais próximo do que costumamos chamar de Ocidente. Não há, portanto, como separarmos o Oriente Médio da Europa e dos Estados Unidos – pondera Valença.

Segundo ele, o grupo fundamentalista se consolida como tema da política externa americana. Torna-se o novo alvo da narrativa em torno da “guerra contra o terror” que justificou a invasão ao Iraque depois dos atentados no dia 11 de setembro de 2001. Embora o contexto geopolítico político seja outro, a retórica e a pauta se renovam na esteira dos ataques terroristas recentes, de Paris a Bruxelas.

– Enquanto estavam do outro lado do mundo, eram preocupantes, mas não eram focais na agenda. Depois dos atentados em Paris e as reações dos seus aliados, como a Inglaterra, os Estados Unidos precisaram se mostrar mais duros, principalmente pelas ameaças de ataque – avalia. 

Para Wrobel, a área concentra a maior oscilação da diplomacia americana no governo Obama. Apesar da tentativa de desmilitarizar a política externa, o professor destaca que as relações com Israel e Arábia Saudita, por exemplo, “continuam fortes”.

Já a relevância cubana na agenda externa americana despontou em meio à Guerra Fria, lembra Wrobel. Havia o receio de toda a América Latina seguir seus passos da revolução de Cuba, o que “jamais aconteceu”. Ele contextualiza: “A questão de Cuba que persiste é histórica e cultural”. Para o analista, a retomada de relações entre os dois países deriva, entre outros fatores, da pressão dos dois milhões de cubanos-americanos que vivem nos Estados Unidos, principalmente no sul do país:

– Há uma nova geração de americanos de ascendência cubana que reivindicam a ponte entre as duas nações. Imagine a força política que esse grupo tem em estados como a Flórida e a pressão que o governo federal americano consequentemente sofre.

Cristina ressalva:

– A ilha voltou a fazer parte do radar americano, mas seu peso político diminuiu. Não podemos mais falar em disputas ideológicas ou geopolíticas bipolarizadas que marcavam os debates até a década passada.

Na opinião de Valença, a retomada das relações diplomáticas entre EUA e Cuba reflete o dinamismo da geopolítica internacional:

– Esses países e áreas mostram a dinâmica das relações internacionais a partir de diferentes lentes, como a econômica, social e cultural.

Embora a polarização emblemática da Guerra Fria tenha se dissipado com a derrocada soviética e a globalização, Wrobel observa uma preocupação ainda com a Rússia. Para Valença, os movimentos do presidente Vladimir Putin no xadrez geopolítico mundial conservam a pauta aquecida, em que pesem as diferentes discussões e prioridades.

Apesar da inclinação mais pragmática, que se impõe sobre tradicionais questões destacadas na segunda metade do século XX, a política externa dos Estados Unidos não apresenta um padrão consolidado, acredita Wrobel:

– A política internacional dos EUA ainda não está consolidada. Portanto, sofre inflexões por conta de quem estiver na presidência. A maneira correta de avaliá-la é considerar abordagens democratas e republicanas diferentes.

Na mesma linha de pensamento, Valença exemplifica:

– O democrata Obama mostrou uma agenda bastante diferente daquela tocada pelo seu antecessor republicano Bush, avalia Marcelo Valença. Vejamos, por exemplo, sua campanha, ainda que discreta, por mudanças no controle de armas dentro do país.

Caracterizada pelo pragmatismo, sinalizado pela guinada do foco para a Ásia, a política externa americana também se mostra “mais aberta e tolerante”, qualifica Valença. Ele arremata: “Disposta a estreitar laços com países aliados e novos parceiros”, o que é indicado, por exemplo, pela retirada das tropas do Iraque, pela aproximação com Cuba e pelo viés menos beligerante, ainda que duro, em relação à “guerra ao terror” e à segurança nacional.

Analistas projetam endurecimento da política externa

Já Pomar aponta diferenças da diplomacia americana nos dois mandatos de Obama. No primeiro, a despeito de a campanha ter pregado uma política econômica diferente da conduzida por Bush, acabou mantendo uma política externa similar a do antecessor, lembra o analista.

– Mas, no fim do primeiro mandato, observarmos um redirecionamento. A mudança fundamental diz respeito a como lidar com a China e com seus aliados.

Em comum, os dois governos de Obama abriram o país para um diálogo atrofiado nos governos Bush, compara Pomar. Tal abertura, diz ele, pode ter grandes influências na escolha do próximo presidente, assim como os sucessivos ataques terroristas impostos pela ascensão do Estado Islâmico:

– Com o Estado Islâmico combinado às ações militares de países da Europa na Síria, a segurança internacional e doméstica americana volta a ser tema que tende a se refletir nas eleições. Porque se trata não só de política externa, mas de economia, emprego do dinheiro público e envolvimento de cidadãos americanos em esforços militares. Sem contar o crescimento de atentados em diferentes cidades americanas por lobos solitários. Isso tem levado a um crescente conservadorismo em relação à política internacional desmilitarizada como foi a de Obama.

Com a proximidade das eleições, o debate sobre a política externa ganha a campanha na qual os candidatos mais fortes revelam-se a democrata Hillary Clinton e o republicano Donald Trump. Analistas projetam mudanças mais representativas só se os republicanos ganharem a corrida à Casa Branca.

– Se os republicanos ganharem, provavelmente mudarão a política externa, da qual são extremamente críticos. Mas acho que os democratas, provavelmente representados por Hillary, também optariam por uma administração mais dura em relação a eventos internacionais – conclui Wrobel.