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Rio de Janeiro, 20 de setembro de 2017


Mundo

Estado Islâmico desafia Ocidente em meio a crise no Oriente Médio

Gabriel Camargo - aplicativo - Do Portal

26/09/2014

 Davi Raposo

A retirada das tropas norte-americanas do Iraque em 2011 criava a expectativa na população mundial de que os inúmeros conflitos no Oriente Médio estavam chegando ao fim. Porém, o vácuo deixado pelos Estados Unidos e a guerra civil na Síria ofereceram terreno ao grupo jihadista Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS na sigla em inglês). Com violência e um exército composto por muitos estrangeiros, o ISIS conquistou territórios importantes na região, almeja criar um califado (novo sistema de governo) e oferece perigo não só aos ocidentais, como também aos próprios muçulmanos que não concordam com atitudes radicais do grupo.

Já conhecido pela violência de seus integrantes, o Estado Islâmico despertou ainda mais temor no Ocidente ao divulgar dois vídeos em que rebeldes decapitam jornalistas norte-americanos. Agora, o grupo utiliza outro refém, o jornalista e fotógrafo inglês John Cantlie, para mostrar "o outro lado da história" em uma série de programas disponibilizados no YouTube. No segundo vídeo da série Land Me Your Ears (Escute-me), Cantlie afirma que o "Ocidente dormiu no ponto e foi pego de surpresa pelo rápido avanço do Estado Islâmico".

Porém, para o diretor do Arab Reform Initiative e professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, Álvaro Vasconcelos, a forma como o ISIS cresceu não foi uma surpresa:

– O ISIS cresceu, durante três anos, na Síria, nas condições da repressão brutal do regime de Bashar al Assad contra as forças pró-democráticas. Cresceu também porque o exército sírio não os atacava e concentrava toda a sua força bélica e dos seus aliados no ataque às cidades controladas pelas forças do Exército Livre da Síria e da Frente Nusrah. Portanto, a forma como o ISIS cresceu não foi inesperada, e não surgiu quando fez avanços espetaculares no Iraque. Foi nessa altura que os Estados Unidos consideraram que o ISIS era um ameaça, porque punha em risco seus interesses na região.

 Reprodução YouTube Para o professor doutor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) Kai Enno Lehmann, o crescimento do ISIS também não foi uma surpresa e a guerra civil na Síria foi um dos principais motivos para o fortalecimento do grupo nos últimos anos.

– Não acho uma grande surpresa pelo fato de ter surgido uma “resistência” sunita contra os xiitas no Iraque, levando em consideração a história desse país e os erros cometidos depois da invasão de 2003. O fato é que a guerra contra o Iraque e os deslizes seguintes contribuíram significativamente para o surgimento do Estado Islâmico. Outro fato é que o governo do Iraque não estendeu o "Force Status Agreement" com os Estados Unidos, obrigando as tropas norte-americanas a deixarem o país no fim de 2011.

E foi justamente nos conflitos na Síria que o ISIS rompeu ligações com a rede terrorista Al Qaeda. O principal motivo do afastamento entre os grupos foi a forma radical como o Estado Islâmico mata civis, estupra mulheres e reprime minorias religiosas. O grupo, apesar de bem armado, porém, não é muito numeroso e, por isso, para Lehmann, o objetivo do grupo de criar um estado – na definição ocidental – é improvável.

– Acho difícil esse grupo chegar a Bagdá simplesmente porque os Estados Unidos e outros países não vão permitir que isso aconteça. Tendo dito isso, esse grupo não precisa chegar às capitais de um país ou outro para causar caos e enfraquecer um governo como o do Iraque. Se usarmos a nossa definição de Estado, acho ainda mais difícil, mas isso não quer dizer que esse grupo não possa controlar, de uma forma ou outra, territórios significativos.

Vasconcelos também não aposta em uma grande expansão do Estado Islâmico, e aponta a fragilidade de Iraque e Síria como fundamentais para a sobrevivência do grupo:

– É pouco provável que o ISIS forme um novo Estado, e sua própria sobrevivência depende do Iraque e a Síria continuarem a ser estados muito frágeis. O grupo não tem capacidade para ocupar Bagdá, por exemplo, e a sua força no Iraque depende muito dos seus aliados sunitas que muito provavelmente acabarão os abandonando, se os americanos não cometerem muitos erros.

Com a execução dos jornalistas norte-americanos, promessa de ataques aos Estados Unidos e a França e até mesmo uma suposta ameaça ao Papa Francisco, Lehmann vê o Ocidente com um pé atrás ao intervir no Iraque.

– A história do Ocidente no Oriente Médio é marcada por "fracassos". Veja o Iraque hoje ou o papel da França ou do Reino Unido durante a época entre guerras. Não entendemos o Oriente Médio e nem estamos nos esforçando mudar esse fato. Em vez disso, repetimos o mesmo discurso de “bom” contra “mau” e reproduzimos os mesmos erros – avaliou. Davi Raposo

Vasconcelos não concorda com uma participação direta do Ocidente e acredita que resolvendo o problema da guerra civil na Síria é possível combater o Estado Islâmico:

– A melhor forma de combater o ISIS é encontrar uma solução, antes de tudo, para a tragédia humanitária na Síria. Um acordo entre o Irã e a Arábia Saudita apadrinhado pelos Estados Unidos e a Rússia é o cenário mais provável para encontrar uma solução para a questão Síria, iniciando um processo político que isolaria o ISIS. O Ocidente não deve intervir na região, mas sim apoiar as forças internas que podem conter o avanço do ISIS, e incentivar soluções políticas capazes de isolar o grupo.

Lehmann também não acredita que a forma de combater o Estado Islâmico utilizada agora seja a ideal para chegar a resolver a situação na região:

– Existem maneiras de combater esses grupos, mas como está sendo feito não vai dar certo. Temos um péssimo hábito de reduzir nossos problemas a algumas variáveis chaves e, depois, eliminá-las: eram "terroristas" ou "Saddam Hussein", hoje é o Estado Islâmico. Isso não resolve a questão que a emergência de um grupo como esse significa, quais são os fatores que sustentam o atual cenário e quais seriam as consequências não intencionais de uma intervenção.

E completa:

– Ninguém pergunta o que nós deveríamos fazer em relação à Arábia Saudita – de onde vem a maior parte do financiamento de grupos como ISIS. Nem estamos falando sobre a criação de um estado palestino, ou o futuro do Curdistão. Temos que fazer isso, e com urgência.

Lehmann ressalta que a invasão de 2003 foi um dos fatores decisivos em destruir essa estabilidade e, desde então, os eventos simplesmente fugiram de controle: "Hoje, tanto quanto em 2003, os Estados Unidos, assim como vários outros países, se acham muito mais poderosos e influentes no Oriente Médio do que realmente são".