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Rio de Janeiro, 20 de setembro de 2017


Mundo

Combate ao terror exige coalizão contra EI e políticas integradoras

Carolina Ernst* - aplicativo - Do Portal

24/11/2015

O coro da Marselhesa em Wembley, cantada uníssona pelos milhares de ingleses e franceses que acompanhavam o amistoso entre as respectivas seleções, talvez seja a imagem mais emblemática do brado à integração evocada em resposta à barbárie imposta por terroristas, sexta-feira passada, em Paris. Vigílias e manifestações solidárias na capital francesa, e mundo afora, pregam a união e a volta às rotinas reféns do medo de novos atentados, como o abortado pelo serviço de inteligência francês na manhã desta quarta-feira. Ouça o relato de duas brasileiras que moram em Paris.

Giulia Gazaneo, 22, estudante de administração da PUC-Rio, está fazendo intercâmbio na cidade.

Cecília Manzoni, 21, estudante de jornalismo da UFRJ, estuda literatura francesa em Sorbonne.


Analistas alertam, contudo, que a contenção de uma ameaça indiscriminada, infiltrada, menos visível e mais radical exige forças integradoras não só de natureza retórica e bélica.

Em que pese a importância prática e simbólica das ofensivas aéreas conjuntas de França, Rússia e, possivelmente, Inglaterra sobre células do Estado Islâmico na Síria, o combate a essa "guerra diferente", como qualificou o presidente François Hollande, demanda um conjunto de esforços coordenados em outras áreas: geopolítica, econômica, social, tecnológica. Assim impõe o esgarçamento de um espectro de terror de raízes profundas e intrincadas (leia artigo do escritor e jornalista Claudio Bojunga, professor de Jornalismo Internacional da PUC-Rio) e cujas implicações revelam-se menos evidentes do que os 129 mortos e 350 feridos produzidos pela carnificina de sexta-feira. Revelam-se também mais extensas do que o recrudescimento de discursos xenófobos encampados pela emergente extrema-direita europeia. "Em vez de uma guerra global contra o terror, o mais correto seria uma coalizão mundial para enfrentar o Estado Islâmico, sobretudo no território dominado pelo grupo, na Síria e no Iraque", afirma o professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da PUC-Rio, Luís Manoel Fernandes, em entrevista ao Portal. (Leia a íntegra no trecho final desta reportagem.)

Ainda de acordo com Fernandes, o avanço de ações xenófobas e racistas fermentadas pela incidência de ataques terroristas reforça a lógica fundamentalista de grupos como o Estado Islâmico. Em outras palavras, representam uma vitória do fanatismo. Para esfriar esse caldeirão, o professor do IRI e ex-secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia recomenda uma "política de convergência":

– A identidade do Ocidente foi construída em contraposição a uma suposta ameaça vinda do Oriente, materializada na figura do Império Otomano. Isso só agrava a situação, e deve ser encontrada uma política de unidade e convergência de todos os que se opõem às práticas fundamentalistas de grupos terroristas – propõe Fernandes, que presidiu a Finep de 2007 a 2012.

Foto:Thayana Pelluso A busca de uma "paz integradora" requer uma complexidade de articulações, algumas difíceis ou impossíveis no curto prazo, avaliam analistas reunidos no seminário Paz e segurança: resolução de conflitos, esta semana, na PUC-Rio. Eles destacam a importância de decisões diplomáticas multilaterais e da "instituição de uma segurança coletiva". Para a chefe da Divisão de Paz e Segurança Internacional do Ministério das Relações Exteriores, a ministra Maria Luisa Escorel de Moraes, considera ineficientes os ataques militares como estratégia principal de combate ao terrorismo. "Isso não significa defender uma negociação com os terroristas", ressalva. Ela argumenta:

Foto:Thayana Pelluso – Terroristas não querem negociar. A presidente (Dilma) não sugere uma negociação com os terroristas, mas uma postura diplomática global unida para encontrar mecanismos para resolver esse problema. Acreditamos que seja possível com muita insistência e perseverança. Há direitos humanos em jogo.

A ministra acredita que a premência de cortar os tentáculos incendiários do EI mude a dinâmica das relações internacionais e abra caminho para novas alianças, inclusive entre Estados Unidos e Rússia, cujas divergências em questões como as associadas ao jogo de forças no Oriente Médio mantêm aquecidas tensões internacionais. A perspectiva de uma força-tarefa global contra a organização fundamentalista talvez seja insuficiente para desatar esses nós diplomáticos e econômicos, ponderam analistas internacionais. O mundo contemporâneo, na opinião do professor Antônio Jorge Ramalho, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, apresenta uma complexidade que exige do multilateralismo, em baixa desde o fim da União Soviética até 2003, uma maior e significativa representação.

Para o presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED), Alexandre Fuccille, a retaliação de França e Rússia ao EI na Síria insinua-se pouco eficaz. Não só por concentrar-se em ofensivas aéreas – não por terra, como recomendam estrategistas –, mas por desconsiderar a pulverização característica do Estado Islâmico e por desviar o foco das raízes socioeconômicas e culturais por baixo do fanatismo religioso. "Não existe propriamente uma guerra ao terror, pois guerras só podem ser declaradas contra Estados", afirma Fuccille. "A guerra em si, apesar de ser uma resolução de conflitos, é a pior maneira de conflito" pondera Hector Saint Pierre, professor de História e de Relações Internacionais da Unesp.

O professor de Relações Internacionais da PUC-Rio Márcio Scalércio também considera a ofensiva aérea nada efetiva. Ele acredita que a Europa deve investir em políticas de inclusão para dificultar o aliciamento de jovens "deslocados" por organizações como o Estado Islâmico. Numa avaliação semelhante, Luís Manoel Fernandes vê na integração entre as sociedades europeias um dos passos essenciais à resolução do conflito:

– Uma direção política importante seria a integração entre as sociedades europeias, promovendo a redução da desigualdade, a ampliação dos direitos para todos e evitando a existência de excluídos. Essas questões resolveriam problemas que funcionam como explicações simplistas para a opressão e o confronto entre civilizações distintas. Para que o problema seja superado, são necessárias a valorização do humanismo e a promoção de políticas integradoras.

Igualmente favorável à adoção de políticas socais inclusivas como uma das táticas para arrefecer as tensões, os discursos xenófobos e a adesão a práticas terroristas, o professor de Relações Internacionais da USP Pedro Dallari confia no avanço de soluções diplomáticas multilaterais. Parte delas, acreditam ele e outros especialistas, depende da capacidade de orquestração da ONU, em especial do Conselho de Segurança (no qual a diplomacia brasileira persegue há décadas uma cadeira cativa). 

Fuccille acrescenta que o Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS), criado em 2008, também pode somar aos esforços pela paz. Significa ainda, diz o presidente da ABED, uma chance para "o Brasil se sobressair na lógica global e continental".

O pendor a articulações multilaterais, impulsionado pela necessidade de esforços integrados no combate ao terrorismo, pode construir uma oportunidade à diplomacia brasileira e, consequentemente, à pretensão em torno do assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. "Temos tradição de trabalho multilateral, diálogo", lembra a ministra Maria Luisa Escorel de Moraes. Ela reforça a importância de "as questões relacionadas à segurança e à paz" serem tratadas pelo Conselho: "É muito importante conservarmos o principal órgão mundial em termos de segurança coletiva internacional". 

Para o professor do IRI Luís Manoel Fernandes, o Brasil Creio deve apoiar a formação da coalizão contra o terrorismo, mas sem participação incisiva, pois “não está diretamente envolvido no conflito”. Como tais envolvidos estarão representados nos Jogos Olímpicos do próximo ano, o ex-secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia considera prudente, ou mesmo obrigatório, o reforço do esquema de segurança para as Olimpíadas. “Há negociações em curso para uma cooperação internacional em torno das prevenções necessárias”, observa Fernandes, em entrevista ao Portal. O especialista também explica a confluência de forças que culminaram na sombra de horror espalhada pelo Estado Islâmico e ressalta a necessidade de uma coalizão mundial e de políticas integradoras entre as populações europeias para estancar a sangria terrorista.

Portal: Que movimentos e articulações devem ser feitos para combater o terror?
Luís Manoel Fernandes: O fortalecimento do Estado Islâmico e da organização terrorista que domina o território do Iraque e da Síria foi uma consequência da chamada guerra ao terror pelos Estados Unidos depois dos atentados do 11 de setembro, no início da década passada. Não havia, ate a invasão dos Estados Unidos do Iraque, em 2003, uma cooperação de grupos terroristas da al-Qaeda. A invasão do Iraque em nome da guerra global ao terror desmantelou um Estado que, embora autoritário, não tolerava a atividade dos fundamentalistas no seu território. A invasão estimulou uma insurgência contra a ocupação americana. Neste âmbito, fortaleceram-se grupos fundamentalistas. Primeiro a Al-Qaeda, depois um grupo de dissidentes que formariam mais tarde essa organização chamada de Estado Islâmico. Com o início do conflito na Síria, essa ação transbordou e polarizou a relação dos grupos que se sublevaram contra o regime também autoritário de Bashar al Assad. Concretamente, o território do Iraque e da Síria virou um campo gigantesco de treinamento de grupos terroristas. Esses grupos, ao estarem envolvidos na guerra civil em ambos os países, treinaram e deram experiência de combate a um conjunto de combatentes, muito dos quais eram de países ocidentais, como estamos vendo agora no episódio da França. Muitos dos envolvidos no atentado são justamente cidadãos franceses, belgas, cidadãos europeus de origem árabe, muçulmana, que se voluntariaram para participar da guerra civil ao lado do Estado Islâmico, que agora retornam com treinamento de combate obtido para cometer esses atos horríveis. 

Neste contexto, em primeiro lugar talvez o mais correto não seja formular uma guerra global de terror, porque terror é uma forma de luta abjeta, mas é uma forma de luta: não pode ser derrotada plenamente. O mais correto seria focar na organização terrorista por trás dos atentados, ou seja, o Estado Islâmico. Isso implica confrontá-lo territorialmente, quer dizer, eliminar o controle que tem sobre o território do Iraque e da Síria, transformado, como disse, em campo de treinamento para terroristas que ameaçam expandir aquele conflito para todo o planeta. Isso implicaria, ao meu ver, um realinhamento e uma coalizão já está sendo feita pela França, com a aproximação da Rússia. Tem que haver uma coalizão daqueles que estão enfrentando as forças do Estado Islâmico. Demanda também uma reaproximação com os governos do Iraque e da Síria, uma coalizão envolvendo a própria Rússia e o Irã. A ilusão de que seria possível fortalecer uma posição moderada ao governo sírio se revelou um tiro no pé, porque boa parte do armamento que havia sido encaminhado para essas forças moderadas acabaram fortalecendo ainda mais a capacidade militar do Estado Islâmico. Logo, em vez de uma guerra global contra o terror, o mais correto seria uma coalizão mundial para enfrentar o Estado Islâmico, sobretudo no território dominado pelo grupo, na Síria e no Iraque.

Portal: O senhor considera a negociação diplomática um caminho insuficiente?
Fernandes: A negociação diplomática teria de ser estabelecida entre os governos do Iraque, Síria e Irã, tendo em vista a formação de uma coalização para enfrentar o Estado Islâmico.

Portal: Como lidar com as pressões da emergente extrema-direita europeia, cujos discursos xenófobos se alimentam de atentados como de Paris, sem causar uma sensação de pânico na sociedade?
Fernandes: Esse é um ponto importante, porque a lógica fundamentalista que orienta o Estado Islâmico é uma lógica de confronto de civilizações, tentando contrapor o mundo islâmico às demais civilizações e aos fenômenos religiosos que seriam antagônicos. Qualquer reação a esses episódios que leve ao recrudescimento de ações racistas e preconceituosas só alimenta a própria lógica fundamentalista do grupo terrorista. É preciso separar os terroristas do restante da civilização muçulmana, cujos dirigentes religiosos condenam os ataques, os quais consideram fruto de uma interpretação equivocada do próprio Islã. Nas ações de enfrentamento aos grupos fundamentalistas, não ceder a pressões de outros grupos contrários também fundamentalistas faz parte do processo. São ações não só xenofóbicas, mas também racistas, com raízes profundas na própria sociedade ocidental. A identidade do Ocidente foi construída em contraposição a uma suposta ameaça vinda do Oriente, materializada na figura do Império Otomano. Isso só agrava a situação, e deve ser encontrada uma política de unidade e convergência de todos os que se opõem às práticas fundamentalistas de grupos terroristas.

Portal: De que forma os governos europeus podem redirecionar investimentos e alianças para a equilibrar a balança de pressões e tensões tão complexas?
Fernandes: O fato de haver tantos combatentes cidadãos de países ocidentais dispostos a lutar junto ao Estado Islâmico mostra o grau de alienação e segregação que eles vivem nas próprias sociedades de origem. Uma possível direção política para a resolução do conflito seria uma integração entre as sociedades europeias, promovendo a redução da desigualdade, a ampliação dos direitos para todos e evitando a existência de excluídos. Essas questões resolveriam problemas que funcionam como explicações simplistas para a opressão e o confronto entre civilizações distintas. Deveria haver a valorização do humanismo e promoção de maior integração para que o problema seja superado.

Portal: Quais as diferenças entre o terror pulverizado na internet praticado pelo Estado Islâmico e o exercido pela Al-Qaeda?
Fernandes: Em primeiro lugar, a principal diferença é que o Estado Islâmico buscou constituir um estado territorial, chamado de Califado, no Iraque e na Síria. A Al-Qaeda é um movimento que atua com atentados muito emblemáticos. O Estado Islâmico, por procurar exercer um controle territorial, é uma ameaça muito maior. O território controlado por eles funciona como uma área de treinamento. Para combater o grupo, é necessário agir sobre esse território.

Portal: Então o Estado Islâmico apresenta, digamos, uma vantagem em relação a organizações como Al-Qaeda e Boko Haram?
Fernandes: Ele tem sido mais hábil – para o mal – no uso de tecnologias sociais. Os outros também usavam, mas usavam mais para fazer comunicados. O EI usa para fazer recrutamento. É uma forma mais eficiente de uso. Uma marca do atentado de Paris é a ampliação da área de atuação do grupo, visto que eles antes se limitavam às áreas nas quais pretendiam construir o seu califado. Depois de atacarem Beirute e o avião russo, eles foram à França. E isso demonstra um fortalecimento.

Portal: O senhor diria que EI inaugura efetivamente a era do terrorismo globalizado?
Fernandes: Eles praticam ações mais globalizadas de terror. No entanto, a Al-Qaeda também tinha uma relevância internacional. A diferença é que os terroristas de agora são mais indiscriminados, não atacando alvos simbólicos do governo ou símbolos de poder. Eles atingiram agora áreas de lazer, vitimando, inclusive, muitos muçulmanos. Não foi como o 11 de Setembro, dirigido a um ponto muito conhecido dos Estados Unidos. Então, está se estruturando um risco global em torno do Estado Islâmico.

Portal: Como o Brasil se insere nesse combate, levando em conta o Conselho de Segurança Sul-Americano e a iminência do holofote olímpico?
Fernandes: O Brasil, em si, não é um alvo natural, porque não foi potência colonialista, não teve territórios no Oriente Médio. Muito pelo contrário, ele acolheu imigrantes vindos da região. No entanto, tem de se ter cuidado, porque há alvos próximos ao Brasil, como a Argentina, que já foi alvo de atentados terroristas sérios. O território sul-americano não está imune. Quanto às Olimpíadas, a preocupação é com os alvos estarão aqui. Já tivemos na Olimpíada de Munique, um caso de violência contra a delegação de Israel. Como haverá representantes de países inimigos do EI por aqui, uma precaução maior deve ser aplicada. Há negociações em torno de uma cooperação internacional em curso para tomar as mediada preventivas necessárias. A Copa do Mundo foi uma experiência difícil, mas no fim deu tudo certo.

Portal: O Brasil pode entrar na chamada "guerra ao terror" assim como entrou na Segunda Guerra Mundial, com uma participação mínima?
Fernandes: Creio que o Brasil deve apoiar a formação da coalização, mas não deve ter participação direta em ações contra os terroristas, porque não está diretamente envolvido no conflito.