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Rio de Janeiro, 29 de julho de 2017


Mundo

Cientista político britânico narra manifestações – da Turquia

Anthony Barnett*

21/06/2013

 Anthony Barnett

Em relato cedido ao Portal com exclusividade, o cientista político britânico Anthony Barnett, fundador do site openDemocracy, narra as manifestações – não do Rio, mas da Turquia:

11 de junho: O pior dos conflitos tinha terminado quando finalmente consegui falar com meus amigos turcos na terça-feira, 4 de junho. Eles relataram que tanto Gezi como Taksim, grandes praças de Istambul, estavam nas mãos de manifestantes. Fui testemunhar logo que pude. Cheguei na quinta-feira, 6 de junho, e fiquei até segunda. Foi um momento pacífico entre a retirada da polícia e seu contra-ataque nesta manhã. Estas notas são um registro do que foi destruído.

Mas sua influência vai perdurar [para a batalha em curso, leia abaixo]. É, sem dúvida, uma virada para a Turquia – e, portanto, para Oriente Médio e Europa, cujas direções serão formadas por um único país, importante e influente. Os jovens de Istambul se juntaram aos das ocupações da Praça Tahrir, com Madri, Atenas e Nova York, e uma geração se uniu aos protestos destemidos e altamente políticos, ainda que rejeitassem os tradicionais políticos, que surgiram a partir de Santiago para Delhi.

As barricadas

Taksim é muito grande – junto com o parque Gezi, equivale a mais de duas vezes o tamanho da praça Tahir, no Cairo. Lotado, pode conter mais de meio milhão de pessoas. Foi a primeira coisa que me impressionou: os enormes espaços, os grandes números, a mobilização de grupos, e as próprias barricadas. Se o impacto imediato vem do entusiasmo, o prazer e a liberdade de estar dentro de um “espaço de libertação” livre de toda a polícia, também é imediatamente claro que o parque Gezi fica dentro de uma área maior que foi conquistada. Na sexta-feira, 31, como as imagens de resistência ao gás e espancamentos brilharam em toda a internet, milhares espalhados pela praça para apoiar os manifestantes e a polícia se retirou.

Anthony Barnett  Aqui estão algumas fotos das barricadas. Você pode ver imediatamente que elas são mais simbólicas do que militares. Elas permitem que as pessoas passem, mas não veículos. Não são vigiadas ou controladas. Existe uma barricada de turismo, com visitantes tirando foto ao lado dela. Elas não são a linha de frente entre duas forças se esmagando mutuamente; existem porque a polícia se retirou. Dentro, e mesmo ao lado das barricadas, lojas caras de café e bolo fazem um negócio próspero.

Quando a polícia chegou às 5 dessa manhã, eles o fizeram a pé em um número muito grande, andaram pelas barricadas e em seguida abriram caminho para seus veículos antimotim. Os esquerdistas acordaram em suas casas e voltaram para a praça. Um amigo turco comentou que, talvez pela primeira vez na história das revoltas, as pessoas invadiram suas próprias barricadas pelo lado de fora.

Gezi Park

Muitas das fotos do confronto na Taksim foram feitas das janelas do Hotel Marmara, que tem suas torres do lado sul. Olhando do hotel para a esquerda, está o famoso monumento Atatürk, que foi coberto por cartazes dos diversos grupos. Atrás disso, uma enorme extensão de obras nas estradas. Um pouco para a direita são passos longos para chegar ao parque Gezi. No topo dos degraus alguns veículos destruídos da polícia se tornaram um monumento de arte contemporânea, alguns em mensagem de apoio e demandas muitas vezes espirituosas.

O parque em si estava coberto pelas barracas dos protestantes, a maioria jovem de classe média em igual número de homens e mulheres, e um ambiente surpreendentemente amigável. Barracas distribuíam comida para os amigos, com a chegada de pessoas claramente mais pobres, se não desabrigados. Muita música, conversa e jogos de carta, com pessoas limpando e distribuindo presentes de apoio.

Os protestantes e os grupos políticos

Na praça, os grupos políticos tinham seus encontros e suas barracas. Eles também gritavam e exigiam “Tayyip, Istifa!” (Renuncie, Tayyip! – o primeiro-ministro Erdogan, o que me lembrou as pessoas cantando “Maggie, Maggie, Maggie, fora, fora, fora”, contra Margaret Thatcher). Duas culturas políticas coexistiam: na praça, os militantes tradicionais, enquanto os ocupantes do parque personalizavam a cultura política que não foi mobilizada pelos slogans tradicionais, mas parece ter batido todos os recordes mundiais no uso do Twitter e do Facebook.

 Anthony Barnett Um levantamento entre 3 mil dos ativistas apontou que 40% tinham entre 19 e 25 anos, e 24% entre 26-30. Mais da metade nunca protestou antes, a maioria por não se identificar com nenhum partido político. Pouco mais de 80% se declaravam libertários – 81,2%. A maioria esmagadora estava lá para acabar com a violência da polícia e exigir respeito pela liberdade; um terço queria um novo partido político.

Aqui estão dois panoramas que ilustram a diferença de energia da “comuna” do parque Gezi e da mobilização na praça Taksim.

As demandas

A organização da ajuda médica, dos vigias voluntários, da limpeza, foi impressionante, de forma que a organização nunca deixa de inspirar. Quando todo mundo trabalha junto nas regras básicas de apoio mútuo e não violência, medo e hierarquia não são necessárias. Não é que não precise de líder, é que não consegue encontrar um. Diferente de Plaza del Sol e Ocupe Wall Street, não havia um grande compromisso com processos ou assembleias gerais. Mas uma plataforma representativa de solidariedade surgiu rapidamente, e aderiu a estas cinco demandas.

O público

  Anthony BarnettEu cheguei na quinta-feira, mesma tarde em que o primeiro-ministro voltou de sua visita oficial ao norte da África e declarou que a ocupação tinha que parar imediatamente. Na sexta e no sábado, no entanto, as pessoas saíram da praça como imagens e mensagens transmitindo o prazer de uma aglomeração pública em curso. Obviamente ninguém apoiava o AKP (Adalet ve Kalkınma Partisi, em português: Partido da Justiça e Desenvolvimento), mas mostraram uma solidariedade social e não uma mobilização da oposição CHP (Cumhuriyet Halk Partisi, em português: Partido Republicano do Povo). Famílias vieram, os pais compraram a famosa máscara de Guy Fawkes de V de Vingança (ironicamente, uma imagem de vingança anônima contra o poder capitalista se tornou rapidamente uma mercadoria produzida em massa pelos vendedores de rua de Istambul).

* Cientista político, fundador da comunidade openDemocracy. Leia a íntegra do artigo, publicado originalmente no site openDemocracy.