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Rio de Janeiro, 26 de abril de 2017


Mundo

Analistas: vigilância silenciosa corrompe liberdade na rede

Maria Clara Parente - aplicativo - Do Portal

03/07/2015

 Maria Clara Parente

A primeira mesa-redonda do Winter School na PUC-Rio, terça-feira passada, reiterou a necessidade de garantir liberdade na Internet. Mediado pelo professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) João Nogueira, o encontro After Snowden: Security, Surveillance and rights discutiu as implicações mundiais decorrentes da revelação do esquema de espionagem da Agência Nacional de Segurança do EUA (NSA), em 2013, pelo próprio funcionário da NSA Edward Snowden.

O professor da King’s College de Londres Didier Bigo alerta sobre o modo como, não raramente, faz-se a coleta de dados na rede: “A maior parte dos arquivos é guardada sem saber exatamente para que irão servir no futuro.” Para o especialista,  a vigilância ganha, muitas vezes, um caráter "intrusivo e silencioso, como no Facebook". Os próprios usuários, observa Bigo, "se colocam nessa fiscalização compartilhando todos os momentos de suas vidas". Ele argumenta:

– As pessoas têm tendência a esquecer que as agências de segurança não precisam fazer parte da sua rede de contatos para coletar dados que você não contaria nem para o melhor amigo.

Ainda de acordo com Bigo, apesar de sabermos mais sobre a vigilância realizada pelos Big Eyes – Estados Unidos, Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia –, países como Paquistão, Iraque e Líbia também investem em agências governamentais e corporativas de monitoramento "intrusivo"da população.

 Maria Clara Parente Já o professor de teoria política da Universidade de Victoria R.B.J. Walker ressalta a necessidade de se admitir um conhecimento ainda incipiente sobre segurança na internet, para buscar avanços neste sentido. Ele relembrou a importância de Snowden e das informações reveladas por meio do jornal The Guardian. Logo no início da série de reportagens, descobriu-se, por exemplo, que companhias de celular americanas, como a Verizon, e plataformas como Facebook, Yahoo e Google mandavam informações dos clientes para NSA. Walker também destacou a importância primordial de resguardar a liberdade como traço genético da internet:

– Não adianta pensar que você não tem o que esconder. Não podemos deixar o que foi projetado para ser livre se tornar um lugar tão inseguro. A privacidade é um direito das pessoas e os Estados devem protegê-las.

Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, a professora Eslpeth Guild, da Universidade Queen Mary, de Londres, afirma que “a solução não está na criptografia, mas em criar normas  para sobre a segurança na internet”. A especialista em Direito europeu alerta:

– A vigilância deve ser limitada, e os brasileiros são alvos mais fáceis do que os americanos, pois não há nenhum tipo de proibição quanto a isso no Brasil. As pessoas podem ser rastreadas pelos celulares, pelas publicações online. Há casos de pessoas mortas por drones (aeronaves não pilotadas, controladas remotamente), que sabiam exatamente onde estavam.

Eslpeth também observa, contudo, uma resistência da comunidade internacional em reconhecer os riscos associados à falta de segurança na rede representa e em desenvolver soluções supranacionais que, segundo ela, seriam coordenadas pela ONU. Ela também aponta uma carência de políticas para controlar os crimes cibernéticos (leia reportagem sobre o crescimento de ataques do gênero), e recorda que, na Conferência de Budapeste, organizada em 2001 para discutir punições contra essas irregularidades, "os governos não tinham ideia de que os maiores cibercriminosos seriam eles mesmos".