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Rio de Janeiro, 23 de julho de 2017


Mundo

Analista: política pública precisa conter "nacionalismo retrógado"

Luisa Oliveira - aplicativo - Do Portal

20/01/2015

 Camila Zarur

Dividida entre a tradição libertária – evocada pelas ruas para repudiar os ataques à revista Charlie Hebdo e à mercearia judaica – e o avanço da extrema-direita, a França precisa de políticas educacionais voltadas à integração dos imigrantes. Serviriam, segundo o professor de Relações Internacionais da PUC-Rio Márcio Scalércio, de vacinas contra a febre de intolerância encubada nos discursos nacionalistas que sopram mais forte rumo às eleições gerais do próximo ano. Os 17 mortos nos atentados terroristas recentes servem de munição para a retórica xenófoba disparada, sobretudo, contra os imigrantes islâmicos. "Eles não podem simplesmente fazer as malas e ir embora. Eles precisam ser intregrados, precisam de incentivos para ganhar a vida, por meio de políticas públicas", afirma o autor de Oriente Médio (Editora Campus Elzevier, 2002), em entrevista ao Portal. Na contramão do que prega a líder da Frente Nacional Marine Le Pen, como a volta da pena de morte e o arrocho das fronteiras, Scalércio acredita que o país precisa converter os ecos dos princípios republicanos reafirmados na marcha histórica do domingo passado (11) em iniciativas para resguardar "o espírito" da União Europeia. “Le Pen é a representante do atraso. Esses anseios nacionalistas são retrógrados”, alerta o especialista.  

Portal: Com a chacina no Charlie Hebdo, um grande cerco ressurgiu em torno da segurança internacional frente ao terrorismo. Quais os rumos da geopolítica europeia depois deste ataque?

Scalércio: Em primeiro lugar, a cooperação europeia em torno da segurança frente ao extremismo e ao terrorismo já existe desde o século passado, reforçada com a consolidação da comunidade europeia, sobretudo depois do 11 de Setembro e dos atentados em Londres e Madri. O que está acontecendo em alguns países é um policiamento mais forte, para dar uma sensação de segurança às pessoas. Em segundo lugar, há  um debate de consequências complicadas dependendo do resultado. Existe um problema na preservação da identidade das pessoas e no monitoramento de suspeitos ou simpatizantes das práticas terroristas, como os irmãos Kouachi e de Amedy Coulibaly, que invadiu o mercado judaico em Paris. Há, ainda, uma situação complicada: o islã está na Europa em decorrência de imigrantes. Eles não podem simplesmente “fazer as malas” e ir embora. Eles precisam ser integrados. Isso depende da política educacional, de campanhas, no sentido de integrar essas pessoas. Elas precisam de incentivo para ganhar a vida.

Portal: O que representa, em âmbitos históricos e internacionais, a marcha 4,5 milhões de pessoas, incluindo líderes mundiais, no domingo passado, em Paris?

Scalércio: Os franceses gostam de marchar. A República francesa deu uma demonstração de unidade na tragédia ao reafirmar seus valores republicanos de liberdade, igualdade e fraternidade. De defesa à liberdade de expressão, de repúdio à violência. A mensagem que a marcha queria passar era essa: reafirmar os valores republicanos num país que consagrou esse modelo.

Portal: Como fica o xadrez político internacional diante da sombra de extremismo e da perspectiva de crescimento da extrema-direita, cujos discursos xenófobos se alimentam do medo decorrente dos ataques terroristas recentes?

Scalércio: Ainda confuso, porque as linhas de investigação policial mais densas ainda não foram divulgadas: a quem esses extremistas, de fato, pertenciam? Generalizando, representam a extrema-direita islâmica, que é violenta, sanguinária, assim como a extrema-direita europeia.

Portal: Como resguardar a liberdade de expressão e de imprensa de ameaças do gênero?

Scalércio: Não há como se resguardar. A única maneira seria renunciar ao trabalho. As sociedades abertas são fortes porque são abertas, e vulneráveis pelo mesmo motivo. As pessoas têm que continuar o seu trabalho. Qualquer exposição pública é arriscada, mas isso não quer dizer que chargista seja morto toda semana. Na minha opinião, não há muito que fazer.

Portal: Para o senhor, a xenofobia pode voltar com mais força agora depois do atentado do dia 7?

Scalércio: Não sei se volta com mais força, porque na Europa o discurso xenofóbico já é muito forte, ao mesmo tempo em que o combate à xenofobia também é. Esse tipo de discussão está no debate público há muito tempo, principalmente quando a Europa voltou à prosperidade econômica logo depois da 2ª Guerra mundial. Precisava-se de mão de obra estrangeira, e ninguém reclamava. Hoje em dia reclamam. O atentado talvez radicalize o discurso público.   Mauro Pimentel

Portal: A intolerância religiosa era acentuada no fim da Idade Média. Vivemos a perspectiva de tornarmos a uma intolerância deste nível?

Scalércio: O primeiro ato da estabilização da modernidade e da democracia é o sentimento de tolerância. A tolerância não tem nada a ver com a ciência, com a exatidão. É o sentimento, a paixão. E a primeira tolerância é a religiosa, difícil de ser alcançada em sociedades monoteístas. Alcançar a tolerância religiosa leva à tolerância das outras coisas. Por outro lado, a intolerância nunca desapareceu. Ainda há componentes de intolerância em decorrência da política.

Portal: Figura marcante no cenário político francês atual, a deputada Marine Le Pen personifica o discurso de extrema-direita no país. A líder da Frente Nacional defende, por exemplo, a suspensão imediata do Acordo de Schenge, que abria as fronteiras no interior da Europa. Discursos assim não contrariam tradições republicanas e libertárias? Tendem a ganhar mais espaço na França e na Europa?

Scalércio: Sim, é um discurso sensacionalista que contraria o espírito da União Europeia. A UE é um espaço político que impede isso. Ela ajuda a separar da Europa uma imagem sangrenta que o continente teve no decorrer dos tempos: as guerras civis, napoleônicas... A Europa não pode voltar a isso. Esses anseios nacionalistas são retrógrados. Ela (Le Pen) é, para mim, a representante do atraso.