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Rio de Janeiro, 23 de julho de 2017


Mundo

"Inglaterra deve muito à influência de outras culturas. Seria um tédio se fosse somente branca"

Luísa Oliveira - aplicativo - Do Portal

21/05/2015

 Paula Bastos Araripe

Conhecida no mundo todo por preservar tradições monárquicas em pleno século XXI, Londres também é um pólo de subculturas que agregam pessoas de diferentes origens, gerações e ideias. Foi com o interesse em descobrir mais sobre as influências e diversidades da cultura de seu país que a professora inglesa Ruth Adams, do Departamento de Indústrias Criativas de King’s College London, desenvolveu a pesquisa Subculturas, hoje: uma perspectiva britânica, apresentada nesta quarta-feira, 20, a alunos e professores da PUC-Rio e de outras instituições, a convite do Programa de Pós-Graduação do Departamento de Comunicação.

Ruth – que na véspera havia apresentado, também na PUC, sua pesquisa sobre indústrias criativas (leia mais) – classificou cerca de 40 subculturas inseridas em Londres, entre as quais destaca as jamaicanas, que exerceram maior influência no cenário underground e tiveram maior ramificação no decorrer dos anos. A pesquisadora lembrou que ainda em 1948 chegou a Londres um grande fluxo migratório de jamaicanos, que buscavam na capital inglesa melhores condições de vida. Entre os personagens que aportaram em solo londrino estava Lord Kitchener, “O rei do calypso”, que compusera a música London is the place for me. Começava então a influência de culturas externas na capital britânica que, no decorrer dos tempos, seriam aprimoradas e incorporadas à cultura local.

Essas subculturas, para Ruth, são de fundamental importância para a cultura inglesa, como declarou ao Portal:

– Sou muito interessada na cultura inglesa, e o que despertou meu interesse foi o modo como elas se inseriram no cotidiano. A cultura na Inglaterra tem sido mais interessante após a influência dessas subculturas; seria um tédio se ela fosse somente branca.

É o caso dos Rude Boys, maior influência da capital jamaicana, Kingston, na Londres da década de 1960. Eram jovens que queriam fazer dinheiro ao mesmo tempo em que gastavam suas economias para manter a boa aparência, parecendo celebridades. Os Mods, seus seguidores, tempos depois se dividiriam em duas outras correntes: Punk e Rastafarian Reggae, difundindo ideais do black power.

– Na época, eram modelos legais de se seguir. Mas, com o tempo, os punks, ou skinheads, foram se tornando insustentáveis. Já os rastafáris não eram compreendidos pelos brancos. Eles não eram considerados de “cultura britânica”, já que ela tem marcas coloniais, e os rastafáris evocavam a negritude, como Bob Marley, maior ícone do movimento, que acabou exercendo um grande papel, inclusive, na cultura pop – comparou Ruth.

Do calypso ao carnaval em Notting Hill

Paula Bastos Araripe Mas a manifestação mais contundente é o Carnaval de Notting Hill, surgido ainda na esteira do calypso. Considerada a maior festa de rua da Europa, com 55 anos de existência, a parada tem sua história marcada por repressões e protestos. Inicialmente, o evento reunia jamaicanos dispostos a driblar a repressão policial londrina às manifestações da cultura negra. Arranjaram então uma forma de se manifestar pacificamente pelas ruas do bairro de Notting Hill, criando o seu próprio carnaval.

Hoje a festa agrega ritmos espalhados ao redor do mundo, inclusive o samba carioca, interpretado pela London School of Samba, idealizada por 12 músicos ingleses e brasileiros, que tinham o objetivo de levar a música brasileira à capital inglesa e tocou pela primeira vez na parada londrina em 1984, introduzindo o carnaval brasileiro para a parada. As cores das agremiações são o verde e o branco, influência da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel.

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Além dos jamaicanos, ritmos indianos como o Bahngra, com vários adeptos da juventude asiática, e o Grime, ritmo inglês, eletrônico, mas com influências do Ragga, música eletrônica jamaicana, e do Jungle, originado do rock nos anos 1990, também constituem o cenário cultural inglês:

– Eram formas asiáticas e britânicas de se expressar no mesmo espaço. O Bahngra, por exemplo, é uma dança multicultural com um tempero asiático. Eles trouxeram novas formas de ser inglês. Mesmo sendo uma forma negra de se expressar, não exclui outras identidades.

Espaço conquistado na mídia

Em geral pouco divulgadas, as subculturas britânicas, de acordo com Ruth, ainda são rotuladas pelas influências negras e pela divisão de classes, embora não passem totalmente despercebidas do grande público, e eventualmente emerjam em megaeventos. O rapper britânico Dizzee Rascal, descendente de nigerianos, participou da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Londres, em 2012, por exemplo (assista aqui). A pesquisadora observa que a influência da mídia seria um fator que contribui para esse estigma:

Paula Bastos Araripe  – Há muita contradição na mídia sobre os jovens e sua cultura. Depende muito de como esses movimentos serão apresentados ao público. No entanto, nem todas as mídias são omissas, como por exemplo, a BBC, que tem programas dedicados exclusivamente a essas subculturas.

Ao mesmo tempo, chamou sua atenção a predominância dos homens:

– É impressionante a presença masculina nesse meio. As mulheres participam, mas em menor número e, na maioria das vezes, só aparecem ao lado dos artistas em seus videoclipes, com boa aparência, e é só isso. A posição delas, infelizmente, é secundária.

ASSISTA AQUI:

A apresentação de Ruth Adams sobre subculturas

A apresentação de Ruth Adams sobre indústrias culturais

Após uma semana no Rio, a pesquisadora inglesa, que ficou hospedada em Santa Teresa, se interessou pela arte de rua da cidade (leia entrevista exclusiva ao Portal) e se mostrou satisfeita por finalmente conhecer o Brasil: “Minha estada no país têm sido muito divertida. O Brasil tem um lugar especial na nossa cultura e em nossos corações”, declarou Ruth, sorridente, descontraindo a plateia.