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Rio de Janeiro, 27 de junho de 2017


Mundo

"De longe, compreendi a magnitude dos fatos"

Camille Desmaison-Fernandez - Da sala de aula

09/12/2015

A jovem francesa Camille Desmaison-Fernandez,18 anos, estudante da Sciences Po Paris, faz intercâmbio na PUC-Rio desde de agosto. No dia 13 de novembro, ela acompanhou à distância os atentados sangrentos nas ruas parisienses. Sua casa nunca lhe pareceu tão longe. Neste curta entrevista, produzida para a disciplina Introdução do Jornalista, lecionada pela jornalista e professora Angela do Rego Monteiro, Camille explica por que o ataque, ou melhor, as reações cívicas à barbárie aumentaram o amor à pátria: 

Conte algo que não sei...

Os ataques do 13 de novembro me fizeram sentir mais francesa do que nunca. O patriotismo, na França, é frequentemente associado ao nacionalismo. A bandeira francesa, é freqüentemente associada à extrema-direita. Amar seu país deveria. portanto, ser fácil. E desde sexta-feira, tão longe da minha França, eu amo ainda mais o meu país.

Como você soube dos ataques?

Estava jantando em um pequeno restaurante no Vidigal, onde moro. Uma amiga francesa me mandou uma mensagem pelo Facebook. Corri para casa. Felizmente, lá estavam meus companheiros de quarto, todos franceses. Passamos uma hora falando, conversando. Choramos, tentando obter notícias de nossos pais e amigos. Meu melhor amigo me ligou. Ele estava desesperado, chorava muito. Seu pai estava no Stade de France, próximo ao pimeiro local atacado pelos terroristas. Não tinha notícia do pai. Chegou a pensar que ele estaria morto.

Como você viveu esses ataques, em comparação com a chacina no periódico satírico Charlie Hebdo?

Enfrentar esses acontecimentos como uma expatriada, como três milhões de franceses, foi totalmente diferente. Você se sente impotente, se sente também culpado. Como se eu quisesse me culpar por estar longe da Franca. Minha cidade de adoção é Paris. Mas neste ano é o Rio. Sentir-se longe é a primeira coisa que me veio à mente. Uma amiga francesa, que mora sozinha no Rio, pediu para se juntar a mim. Queria estar com franceses. Eu precisei me sentir me apoiada, acompanhada.

O que você fez para gerir o trauma?

Foram várias fases. Primeiro, você fica colado à tela, lendo todos os relatos, e se entusiasma com a mobilização virtual. Depois, vê encontros espontâneos em Paris, revê as ruas em que você bebeu, passeou, riu, ora enlutadas, com os dois restaurantes crivados de balas. É duro. Então, fui ao encontro organizado pelo Consulado da França no Rio. É reconfortante ouvir francês e estar entre eles, ou com brasileiros francófilos usando boinas. Precisávamos realmente disso. Depois de conversarmos, obviamente comemos queijo, bebemos vinho e fumamos cigarros. Longe dos olhos, perto do coração. Na verdade, fizemos, longe da Franca, num domingo, o que teríamos feito numa noite de sexta-feira em Paris.

Como estes eventos mudaram você?

Sou francesa. Sou azul, branca, vermelha. Sou Paris. Longe da minha casa, compreendo a magnitude dos acontecimentos. É como vê-los do lado de fora, através de um olhar impotente. Sei que não teria feito mais nada lá, mas é a frustração que leva você às vísceras, e faz você querer ser mais unido do que nunca. O diretor da minha faculdade, na França, enviou uma carta a todos os estudantes no estrangeiro, nos dizendo: "Eu sei que para todos aqueles e todas aquelas que estão longe da França, incerteza e impotência, relacionadas com a distância, e a preocupação para os próximos meses são difíceis de suportar." E agora, ouço gritar: vive la France. Espero que estes eventos nos deixe um povo mais tolerante e progressista, que são os símbolos da nossa nação.