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Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2017


Meio Ambiente

Sachs: "Estamos perto de limites intoleráveis ao planeta"

Júlia Cople - Do Portal

21/03/2014

 Gabriela Garrido

O desenvolvimento sustentável é ameaçado por uma governança "nem comprometida nem apropriadamente organizada para resolver os problemas ambientais e a desigualdade social". Assim, nos aproximamos de "limites intoleráveis" para o planeta. Revestido da acuidade intelectual que o torna um dos pensadores mais respeitados do mundo, o alerta do diretor do Earth Institute e professor da Universidade de Columbia Jeffrey Sachs pôs a ética no centro do debate sobre sustentabilidade, tema da Aula Magna que lotou o auditório do RDC nesta segunda-feira.

Embora reconheça um "avanço conceitual" na abordagem sobre os desafios sustentáveis, ora mais "intersetorial", o economista afirma que a transição do modelo produtivo revela-se, "fundamentalmente, uma questão ética". Na avaliação de Sachs, "não falta nada" em termos materiais e tecnológicos para alcançar as soluções desejadas, mas o sistema ainda padece "com a falta de metas claras, com o foco exacerbado no crescimento econômico e com as altas taxas de aumento da população mundial". Ele observa que os documentos legados pela conferência sobre aquecimento global Rio-92, mesmo “bem negociados e importantes”, não tiveram qualquer diretriz implementada. Para virar o jogo, manda um recado pragmático: precisamos engajar a academia e o mundo dos negócios, rumo à construção de políticas menos imediatistas e transacionais.

Com 29 anos dedicados à criação de estratégias para dirimir as agruras da pobreza na África e à consultoria para o desenvolvimento econômico e sustentável de organizações como o Fundo Monetário Internacional e as Nações Unidas, Sachs diz que a geração atual experimenta o nascimento de uma sociedade verdadeiramente global, com "interconectividade jamais vista". Diante da plateia tomada por estudantes, o pensador permitiu-se salientar as "consequências dúbias" desse progresso tecnológico. Se por um lado tais avanços permitem, por exemplo, a capacitação de sistemas educacionais e de transporte, por outro, pondera, contribuem para a desigualdade social, ao substituírem o trabalho braçal pela máquina. Em aproximadamente uma hora, Sachs falou também sobre outros pontos associados à economia mundial e ao desenvolvimento sustentável. Abaixo, as principais observações do diretor Earth Institute.

Desenvolvimento sustentável esbarra não na falta de recursos, mas de ética

"O grande desafio do nosso tempo, talvez o maior desafio da nossa história, é fazer a transição para o desenvolvimento sustentável. Isso não é novidade para esta universidade nem para o Rio de Janeiro, porque todos os olhos estão voltados para a cidade com o que aconteceu nos últimos 22 anos. O Rio recebeu a mais importante reunião de todos os tempos: Desenvolvimento Sustentável e Aquecimento Global, em 1992. Estamos lutando para colocar isso em prática. Todo ano eu ensino os três maiores efeitos desse aquecimento: na mudança climática, na biodiversidade e no combate à desertificação. Foram feitos maravilhosos documentos, extraordinariamente importantes, bem negociados. Documentos sérios para um planeta que precisa de solução sérias. Mas dois anos atrás, na Rio+20, o mundo se deparou com a verdade de que nenhum desses acordos foi implementado. Perdemos tempo, perdemos espaço. Estamos cada vez mais perto dos limites intoleráveis e ameaçadores para o planeta. O desafio é de ideias, organizações, gerenciamento, tecnologia e, eu enfatizo, fundamentalmente de ética e moral. Pode-se dizer que essa é uma crise de valores, porque, eu volto a enfatizar, não nos falta nada em termos de material ou tecnologia para achar soluções. Ainda estamos lutando para consolidar valores que assegurem essas soluções. É, fundamentalmente, um problema de ética global."

Governança não está organizada para buscar as soluções necessárias

"Nosso sistema político não está totalmente comprometido em resolver os nossos problemas. Os Estados Unidos não têm um departamento de desenvolvimento sustentável, e muitos poucos países têm. Temos departamentos particulares, que os brasileiros chamariam de ministérios, para, basicamente, administrar peças de legislação. Eles não pensam nem integram, apenas implementam. Para termos sucesso, precisamos engajar a academia e o mundo dos negócios. Os negócios têm papel crítico no gerenciamento de qualidade e na posse de tecnologias, que são a chave para um processo sustentável. Os lobbies ameaçam a sustentabilidade. Esse setor deve agir da maneira correta na mesa de negociações. Os Estados Unidos também não têm isso, porque nos tornamos políticas econômicas. Nosso sistema eleitoral têm sete bilhões de dólares gastos em campanha, uma corrupção legalizada. Nosso sistema política está se quebrando, não em técnica ou capacidade, mas em corrupção, porque tudo gira ao redor do dinheiro. Exemplo disso é que julgamos um candidato pela quantidade de recursos que consegue arrecadar. A governança não está organizada apropriadamente para buscar as soluções de que precisamos."

"Encaramos o desafio de uma escala da população crescente”

"Esse cenário traz a necessidade também de gerenciar nossa vida de forma apropriada à escala de nossas atividades. Encaramos também o desafio da escala. Não apenas estamos conectados, mas o impacto humano hoje não tem precedentes, é inimaginável. É insustentável para o ambiente, e nós continuamos crescendo de forma dramática. Thomas Malthus introduziu, na Ciência Social moderna, em 1798, a ideia do desafio de uma população sustentável, quando havia 900 milhões de pessoas no mundo. Ele disse que, quanto mais aprendemos a multiplicar a comida, mais pessoas o mundo terá. Errou muito, mas, nesse ponto básico, ele acertou. Agora, 216 anos depois, a população cresceu oito vezes. Somos 7,2 bilhões no mundo. A variável média de fertilidade da população das Nações Unidas projeta oito bilhões para 2024 e nove bilhões para 2040. É claro que são projeções incertas, mas, se a taxa de fertilidade continuar alta como agora, é quase inimaginável. A população mundial alcançará algo em torno de 15 bilhões no fim do século. Isso não vai acontecer, porque não pode acontecer. Depende de escolhas e da dinâmica do futuro. Mas a escala de uma população grande está definindo a realidade do nosso tempo."

“Já somos insustentáveis, e a economia continua a crescer de forma dramática”

"A economia mundial continua a crescer e eu, como economista, já fiz várias coisas para ajudar nesse sentido. Somos treinados para isso, o que significa melhores condições de vida, oportunidades, educação. Desenvolvimento não é um objetivo incidental, é valioso. É o progresso humano. Mas, nesse contexto, o impacto humano atinge extraordinária extensão. O estresse ao planeta que impomos hoje não tem precedentes. Estamos tão próximos dos limites do planeta e tão longe da sustentabilidade que não reconhecemos o destino assim traçado por nós para nossa geração e ainda mais para as futuras. Sei que o crescimento da economia significa desenvolvimento para países pobres e a saída da miséria para muitas pessoas, e acredito que toda sociedade deveria ter oportunidade de fazê-lo. A disparidade entre os países não é tolerável. Mas ainda não pensamos o que é tolerável. A economia mundial continua a crescer, em média, 4% ao ano, o que significa o duplicação da economia em 18 anos. Se hoje a média por pessoa é de 12 mil dólares, 90 trilhões de dólares comandam a economia. Em 2032, segundo as projeções demográficas e econômicas, podem ser 180 trilhões de dólares de magnitude. Todavia, a situação já é insustentável. Como gerenciar isso?"

Problemas globais exigem soluções globais, com metas claras

"Não há como resolver esses problemas na esfera local ou nacional, apenas algumas questões. Os limites do clima são problemas intrinsecamente globais, assim como o da extinção de espécies. Requerem soluções globais. Precisamos de um novo tipo de governança e política, orientada para definir claramente os problemas e achar soluções. Hoje a política é de curto prazo e transacional. Uma resolução da Rio+20 revela-se fundamental: a agenda de desenvolvimento de 2015 deve ser baseada na sustentabilidade e pequenas metas devem ser pensadas. Metas claras, para que tenhamos chance de atingi-las."

Mudança na definição de desenvolvimento sustentável aponta para a intersetorialidade

"Gosto da definição de desenvolvimento sustentável como foi definida na Rio+20. O conceito inicial, pensado em 1987, dizia que a geração corrente satisfaria suas necessidades de um modo que as futuras gerações também satisfizessem as suas. Uma concepção intergeracional difícil de lidar e operacionalizar. Dois anos atrás, no Rio, mudou-se para a integração entre desenvolvimento econômico, inclusão social e sustentabilidade do meio ambiente, um conceito mais intersetorial. Temos urgência em colocar isso em prática, somos chamados a achar esse caminho. É um desafio de engenharia, intelecto, conceito, política e, como eu disse, moral. Não estamos onde deveríamos estar. Da maneira com que isso tudo funciona, não estamos sequer na direção que deveríamos tomar."

“Hoje as circunstâncias são outras: a instabilidade está em todo lugar”

"Na história do desenvolvimento econômico, o padrão tem sido diferente do que precisamos hoje. Algumas partes do mundo largaram na frente, e outras tiveram a chance de segui-las. A emulação dos países que estão na frente do sistema mundial é um ótimo acordo de desenvolvimento econômico. É efetivo. É uma real oportunidade seguir os passos das nações líderes. A China tem sido um grande exemplo disso. A partir de 1978, com a posse de Deng Xiaoping, tem crescido 10% ao ano, o que representa a duplicação de sua economia a cada sete anos. Os chineses não inventaram um novo modelo: têm a mesma engenharia, os mesmos automóveis, os mesmos sistemas tecnológicos. Mas hoje as circunstâncias são diferentes. A instabilidade está em todo lugar. Pessoas são deslocadas, o que causa migração interna, mais pobreza, violência entre setores, ebulição social. Achar o caminho é crucial."

Nasce uma sociedade verdadeiramente global

"O que entendemos como a essência do mundo é sua interconectividade em uma intensidade jamais vista. A história da humanidade é de interconectividade, porque estamos conectados pela migração no planeta nos últimos 50 mil anos. É notável que (o teórico do liberalismo) Adam Smith tenha dito, em 1776, que as rotas criadas por Cristóvão Colombo e Vasco da Gama foram os eventos mais importantes da História. Ele disse que a interconectividade foi o evento mais importante da história moderna. Mas hoje vivemos um novo tipo de interconectividade. Somos a geração que está experimentando o nascimento de uma sociedade verdadeiramente global. É um processo tão intenso que nenhuma parte do mundo, mesmo a mais remota, não está conectada agora com comunicação quase instantânea. Não há lugar, não há vilarejo em que eu trabalhe na África, por exemplo, que esteja desconectado. Dez anos atrás, lá não havia telefone. Na verdade, a população nunca havia usado um telefone. Mas hoje a gigante de telecomunicações Ericksson me disse que, em cinco anos, haverá 80% de acesso mundial à rede broadband de celulares, não apenas conectividade de celular. Esse é o nosso mundo. Isso define os aspectos mais distintos do nosso tempo. A necessidade de viver em conjunto e estar face a face de maneira tão intensa com pessoas com as quais jamais tivemos contato."

Vivemos a sexta onda de extinção de espécies, a única biológica

"Somos 7,2 bilhões. Aprendemos a multiplicar a comida com mais produtividade, mas também aprendemos a marginalizar a natureza em qualquer lugar. Onde vemos natureza, vemos fazendas, escapes naturais. Quanto mais a população cresce, literalmente estamos empurrando o resto da natureza para fora dela, como espécies rumo à extinção. Estamos agora na sexta grande onda de extinção de espécies da História. As primeiras cinco foram fenômenos naturais, como colisões de asteroides e atividade de vulcões. A sexta é fenômeno biológico, em que uma espécie, o homem, está se espalhando por todos os nichos do planeta sem a habilidade de dizer “chega” e se controlar para seu próprio bem."

Avanço tecnológico muda perfil dos empregos

"Somos beneficiários de um maravilhoso período de avanço tecnológico. Energia elétrica, tecnologia nuclear, revolução da comunicação. Isso é um divisor de águas para a economia mundial, para o conhecimento e a ciência. Construímos a capacidade de renovar as atividades econômicas, o sistema de transportes, o processo de educação, que são avanços imensos. Mas os empregos do passado estão desaparecendo, porque agora, com a tecnologia, quase todo processo intelectual repetitivo pode ser computadorizado e existe a inteligência artificial, em que robôs, por exemplo, podem consultar um paciente de muito longe e dar o diagnóstico."

"Tecnologia trouxe também estresse à igualdade social”

"É quase impossível estar na classe média sem um diploma superior. Pense no que isso causa na nossa sociedade. Nos Estados Unidos, viemos sofrendo com a desigualdade nos últimos 30 anos. O Brasil diminui um pouco os seus índices de disparidade, mas já começou lá no topo da lista dos mais desiguais. Esses dois países estão se encontrando no meio da tabela, mas com taxas bastante altas. Parte disso é apenas jogo aos quais somos submetidos pelo sistema financeiro, mas outra parte decorre da mudança da tecnologia. Os empregos de processo repetitivo foram desvalorizados no mercado de trabalho, o que também aprofundou os estresses à igualdade."