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Rio de Janeiro, 27 de julho de 2017


Meio Ambiente

Remodelado, Maracanã aguarda selo ambiental

Danilo Rodrigues Alves - Do Portal

20/08/2013

 Genilson Araujo

A Certificação Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), selo ambiental para edificações, tornou-se nos últimos anos a menina dos olhos das construtoras mundo afora. Não seria diferente com a brasileira Andrade Gutierrez, integrante do consórcio responsável pela exploração do novo Maracanã. Reinaugurado em junho, depois de dois anos de uma reforma na casa de R$ 1,2 bilhão, o estádio ainda aguarda, no entanto, a tal chancela. Deve ser concedida até o fim do ano, mas na categoria intermediária (Silver). Para conquistar a máxima (Platinum), a cobertura teria de estender as placas solares a toda a superfície, o que, pelo menos em médio prazo, é descartado. "Mas é possível obter o selo Gold, logo abaixo do Platinum", projeta o engenheiro ambiental Felipe Rocha Drummond, responsável pelos projetos de sustentabilidade da empreiteira. A arrancada sustentável do Maraca veste duas camisas, em especial: o sistema de reaproveitamento de resíduos, já em curso, e uma parceria com a Light para reduzir o consumo de energia. "Este projeto ainda está em desenvolvimento, mas a ideia é melhorar a eficiência do estádio e aproximá-lo, nesse aspecto, dos melhores estádios do mundo", ressaltou Drummond na palestra Maracanã sustentável, semana passada, durante a XVI Mostra PUC.

A retranca sofrida, na reforma do Maracanã, pelas placas fotovoltaicas (leia-se geração de energia solar) representou uma bola dividida. A instalação de uma grande quantidade desses painéis, como se observa em algumas "arenas sustentáveis", exigiria a permanência da marquise original, que acabou condenada por estudos técnicos. "Optamos por uma cobertura que, embora não possa receber toda a quantidade de painéis desejada por ser muito leve, tem benefícios para o meio ambiente", explicou o engenheiro. "Para compensar, em certa medida, o número menor de placas solares, estamos buscando, com a Light, alternativas para melhorar a eficiência energética", acrescentou, sem, contudo, detalhar as táticas para alcançar essa vitória (leia também Energia solar é aposta de grandes e pequenas empresas, publicada em maio de 2012).

Se por um lado o aproveitamento energético representa ainda um adversário para escalar o pódio ambiental, por outro, a nova cobertura do Maracanã revela-se um reforço importante. Formada por uma membrana de fibra de vidro e teflon de alta tecnologia (PTFE) e com vida útil estimada em 50 anos, a estutura joga no time das tecnologias entrosadas com a sustentabilidade:

– A cobertura é auto-limpante, essa nova tecnologia impede que a sujeira grude no material, bastando apenas uma chuva para que todos os resíduos, juntamente com a água, sejam levados ao sistema de captação do estádio, que reaproveitará essa mesma água da chuva para a irrigação do campo, descarga nos sanitários e outras funções em que podemos fazer o reuso. Isso irá reduzir o consumo de água em cerca de 40 % – estima Drummond.

O reaproveitamento de resíduos torna-se o camisa 10 para o palco da final da Copa receber, até dezembro, a categoria intermediária da prestigiosa certificação Leed. Um reconhecimento que exige, segundo o coordenador da Andrade Gutuierrez, "diversas etapas e várias inspeções em que se acumulam pontos". Da soma desses pontos depende o nível do selo recebido.

– Há quatro níveis de certificação: Certificado, de 40 a 49 pontos; Silver, de 50 a 59 pontos; Gold, de 60 a 79 pontos; e o Platinum, quando a edificação recebe 80 pontos ou mais. Estamos trabalhando para receber o nível Silver – esclarece Drummond.

Ainda de acordo com o engenheiro ambiental, a reforma do estádio foi "estratategicamente pensada" para conquistar pontos em áreas "que geralmente recebem pouca atenção":

 

– Um exemplo disso tem a ver com a imensa quantidade de lama gerada por uma obra desse porte. Por estarmos em uma área próxima a um rio, o Maracanã, toda a lama seria escoada diretamente para lá. Pensando nisso, desenvolvemos uma série de decantadores que captam a lama e fazem a separação entre sedimentos e água. Assim, mandamos todo o sedimento, em caminhões, para uma olaria, onde foram feitos tijolos utilizados na própria obra. A água resultante desse processo também foi reutilizada para fazer o concreto.

Divulgação  Já o esquema tático das placas solares teve de ser revisto. Suderj informa: saíram a preservação da marquise e a instalação desses painéis em toda a superfície, previstas no projeto inicial da reforma; entraram a nova cobertura, mais "sustentável", e a consequente limitação da quantidade de placas solares. A mudança, decorrente de parâmetros técnicos, impediu que o Maracanã se aproximasse dos sistema energéticos adotados em construções como o estádio olímpico de Sidney, revestido por painéis solares.

No Maracanã, a implantação de modelo semelhante geraria energia limpa capaz de suprir toda a demanda do estádio e até do entorno. O excedente gerado seria vendido a companhias do setor, para ser repassado ao consumidor a um custo mais baixo. Drummond explica por que esse plano se transferiu para o banco de reservas:  

– A antiga marquise não suportaria peso de uma extensão da cobertura, para comportar os painéis. Quando avaliamos o estado da marquise, constatamos uma deterioração do aço que armava o concreto. Não tinha como mantermos a antiga cobertura dentro de níveis de segurança aceitáveis. Resolvemos projetar uma nova cobertura, com o que chamamos de anéis de compressão. Assim, conseguimos a tensão necessária para comportar o peso das placas solares, que ficaram restritas a essa área.

Tais placas ficam só na extremidade externa da cobertura, onde estão os anéis de compressão. Como estão fixados em pilares reforçados, eles aguentam bem essa sobrecarga, mas a redução da quantidade de painéis solares rebaixou a eficiência energética prevista inicialmente:

– As placas geram uma economia energética em torno de 14%, bem abaixo do que se conseguiria com a instalação desses equipamentos por toda a cobertura. Ainda assim, a energia gerada pelo painéis solares é suficiente para aquecermos a água de vestiários e camarotes do estádio – garante o engenheiro – Sabemos que não é muito, mas estamos estudando, com a Light, novas alternativas que reduzam o consumo de energia do estádio.