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Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2017


Meio Ambiente

Mortandade atinge também a fauna do fundo da Lagoa

Danilo Rodrigues Alves - Do Portal

18/03/2013

 Nicolau Galvão

A mortandade de peixes que tornou a atingir a Rodrigo de Freitas na semana passada tem consequências menos evidentes do que o mau cheiro e o prejuízo à rotina e mesmo ao sustento dos frequentadores. Não raramente observado depois de chuva forte, o fenômeno, causado por baixo nível de oxigênio da água, resultou em 65 toneladas de peixes mortos recolhida pela Comlurb até sexta-feira (15). O biólogo Rômulo Barroso, do Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente da PUC-Rio (Nima), alerta que o problema afeta outras formas de vida:

– Poucos sabem que, além dos peixes, há uma vasta fauna no fundo da lagoa que também foi seriamente afetada pelo evento, desde crustáceos até espécies de pequenos vermes que vivem no fundo – aponta o especialista.

Segundo ele, a principal causa da mortandade foi um "aporte enorme" de matéria orgânica na lagoa:

– A matéria se decompõe, consumindo muito rápido o nível de oxigênio na água. Esse processo normalmente lento e gradual, chamado de eutrofização, foi acelerado pela forte chuva que tivemos no início da semana – esclarece.

Ainda de acordo com o especialista,  um dos caminhos para que fenômenos do gênero sejam solucionados ou, ao menos, tornem-se menos raros, passa por uma nova ligação, em estudo pela prefeitura, entre a lagoa e o mar: 

– Tubos na areia fariam a  ligação da lagoa com a praia de Ipanema. Assim, facilitaria-se a renovação da água e diminuiria-se a ocorrência de eventos como esse. Porém muito esgoto ainda é despejado na lagoa diariamente. Esse é um problema que tem de ser resolvido – ressalva o biólogo.

Quantidade pescada cai à metade

 Pescadores, remadores, e praticantes de atividades físicas às margens do cartão-postal estão entre os que mais sofrem. O problema aflige também moradores, devido ao forte cheiro que infesta os arredores. Como a aposentada Emília Costa, de 74 anos, há 50 no bairro. Ela diz ficar "muito irritada" quando as caminhadas diárias têm de ser acompanhadas pelo odor desagradável:

– É um absurdo. Todo ano a mesma coisa: morre essa quantidade absurda de peixe, e a gente tem que passar o dia inteiro com ânsia de vômito. A prefeitura vem, limpa, mas não resolve o problema. Prefere colocar a culpa na natureza – inconforma-se a senhorinha.

Por conta dos treinos cotidianos e das frequentes competições, como as seletivas para o Sul-Americano da modalidade, disputadas neste domingo, os remadores acostumaram-se a lidar com a mortantade dos principais habitantes das águas sobre as quais deslizam seus barcos. Na quinta-feira passada, alguns deles treinavam forte em meio à quantidade nada desprezível de peixes boiando.

 – A gente não tem o que fazer, precisamos treinar todos os dias, não importam as condições – diz, resignado, o remador do Botafogo Isaac Ribeiro – Aqui todo ano é a mesma coisa. Já tivemos mortandades piores, mas essa também parece bem grande – avalia o atleta capixaba, que mora no alojamento do clube e faz do esporte sua profissão.

Os pescadores da Lagoa mostram preocupação ainda maior. Não só em relação ao prejuízo imposto pela recente mortandade (foram encontradas boiando espécies como Manjubinha, Acará, Linguado e até Robalo, um peixe maior), mas ao fantasma da poluição, que teima em assombrar os negócios. Aloísio da Silva, pescador na Rodrigo de Freitas há 40 anos, calcula: 

– Quando acontece isso, a gente sofre muito. Costumamos pegar de 3 a 4 toneladas de peixe por dia, mas, nesses dias, a gente não consegue nem uma tonelada. Assim fica difíci...

O também pescador Rogério Menezes reforça o diagnógico do biólogo que condiciona a solução a uma ligação mais adequada entre a lagoa e o mar. Ele acredita que o problema tenha sido causado pela falta de abertura das comportas do Rio dos Macacos e no Jardim de Alah:

– A prefeitura não abriu as comportas que renovam a água. Aí, é claro, vai acontecer isso, igualzinho da útima vez – lamenta Rogério.

Em vistoria à limpeza emergencial na Lagoa, quinta-feira passada, o presidente da Comlurb, Vinícius Roriz, minimizou o problema:

– Parece que a quantidade de peixes [mortos] é enorme, mas não chega a ser tanto. A lagoa suporta bem essa perda. Estamos com mais de 180 homens trabalhando na limpeza, e até domingo (ontem) a lagoa deve estar limpa e com os níveis de oxigênio reestabelecidos.