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Rio de Janeiro, 29 de junho de 2017


Meio Ambiente

Jovens trabalham para reduzir pobreza da América Latina

Caio Lima - Do Portal

28/06/2012

 Divulgação

Uma iniciativa de jovens universitários que já beneficiou 85 mil famílias em 19 países da América Latina chegará ao Rio de Janeiro e ao Nordeste ainda este ano. A ONG Um Teto Para Meu País tem um objetivo audacioso: erradicar a extrema pobreza nos países latino-americanos botando a mão na massa, construindo casas seguras para quem mora em áreas de risco.

No Brasil, já foram beneficiadas 1.010 famílias, na Grande São Paulo, desde 2006. A organização ganhou o prêmio Faz Diferença 2011, oferecido pelo jornal O Globo, na categoria Razão Social. Este ano, a meta é erguer cerca de 25 mil casas, mil delas no Brasil.

O Teto iniciou os trabalhos em 1997, no Chile. Tudo começou com uma ação social de estudantes da PUC de Santiago, liderados pelo sacerdote jesuíta Felipe Berríos, para construir uma capela abandonada no Sul do país. Com a reconstrução, percebeu-se uma mudança de visão nos jovens e nas próprias famílias da região.

– A partir dessa iniciativa, voluntários e beneficiados chegaram à conclusão de que a capela era muito mais estruturada do que a maioria das casas daquela comunidade. Começaram, então, a construir moradias de emergência ali, o que culminou na criação do Teto – conta o diretor comercial da ONG no Brasil, Luciano Coelho, graduado em hotelaria e com pós-graduação em marketing.

Desde seu início, um dos pilares do Teto é trabalhar com jovens, entre 18 e 29 anos. De acordo com Luciano, a preferência se deve ao espírito jovem e à vontade que eles têm de fazer a diferença.

 Divulgação  – Além disso, trabalhamos com jovens que estudam nas principais universidades e vão acabar assumindo os principais cargos nas grandes empresas e nos governos. Queremos que a mudança de visão se propague ao longo da carreira profissional e, consequentemente, chegue à sociedade como um todo – destaca.

Por enquanto, a área de atuação do Teto no Brasil é apenas na Grande São Paulo, onde está instalado o escritório e são praticadas as ações. Para o segundo semestre de 2012 está programada a expansão para o Estado do Rio e o Nordeste. No início de agosto Luciano começará a pesquisar as comunidades mais necessitadas e procurar empresas que queiram ajudar a financiar os projetos. A estimativa é que, até o fim do ano, as novas ações já estejam em andamento.

Depois da construção das casas de emergência, que têm 18 metros quadrados e são feitas de madeira pré-fabricada, o Teto continua o trabalho com o objetivo de tornar as comunidades sustentáveis. Na segunda parte do projeto são feitos os chamados “planos de habilitação social”, quando a ONG deixa de ver as famílias individualmente e começa a olhar para o conjunto.

– Implantamos uma sede comunitária ali e estabelecemos um relacionamento com os moradores dispostos a trabalhar pelo desenvolvimento local. Existem planos de habilitação social em educação, em microcrédito, de capacitação em ofício – explica Luciano.

Numa terceira etapa, a ONG oferece suporte ao desenvolvimento das comunidades com ações de promoção de identidade, autogestão, organização e participação social, apoiando também o relacionamento com as redes formais de educação, saúde, moradia, instituições de crédito e o poder público. Assim, tornam-se sustentáveis.

Em 15 anos de atividades, cerca de 500 mil pessoas já participaram de algum projeto da ONG na América Latina, 11 mil delas no Brasil.

Um desses é o estudante de gestão ambiental da USP Jonas Lessa, de 20 anos. Voluntário desde abril do ano passado, Jonas acredita que iniciativas de empresas, voluntários e das próprias famílias beneficiadas levam à mudanças na sociedade.  Divulgação

– O ponto que envolve a todos é a oportunidade. No momento da construção, todos os envolvidos reveem seus conceitos e passam a enxergar o mundo com outros olhos, e é aí que se abrem as portas – ressalta.

Jonas diz que hoje se vê como uma pessoa que tem responsabilidade pelo que acontece ao seu redor.

– Meus pequenos atos são sempre pensados com as consequências, desde um ‘bom dia’ ao cobrador do ônibus, até a compra de um tênis. A realidade que eu vi me incomoda, queima, e eu não sou capaz de ignorá-la – afirma o estudante.

Ele conta que, no primeiro contato, muitas famílias ficam receosas ao entregar tudo o que têm, no sentido material, nas mãos de desconhecidos.

– Mas os dias passam e a desconfiança passa a ser esperança e o sentimento se torna mútuo – completa.

Na opinião da voluntária Lara Reis, de 21 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo, o trabalho da ONG faz com que as famílias sejam protagonistas do seu próprio desenvolvimento, ao mesmo tempo em que desperta nas comunidades o desejo de mudança e de trabalho em conjunto.

 Divulgação  – As famílias são a base do Teto. Há um grande processo de escolha e designação da família antes de construirmos para ela. Todo o processo envolve a dedicação e compromisso delas com a ONG: elas realizam algumas tarefas, como a impermeabilização dos pilotis, a fundação da casa, e a desmontagem da casa em que vivem para a construção da nova. Abri os olhos para uma realidade que não conhecia e que me despertou um sentimento de mudança, de que temos muito trabalho a ser feito do Brasil, para uma sociedade mais justa – destaca Lara, que está na iniciativa desde julho do ano passado e é coordenadora de mapeamento.

Para escolher as famílias que serão beneficiadas, a ONG faz uma avaliação das comunidades e da condição das famílias que moram ali.

– Damos prioridade às comunidades que se encontram em pior situação. Avaliamos família por família, para saber quais as mais necessitadas e onde elas estão localizadas. Esse processo é muito importante, pois numa mesma região pode haver famílias que vivem em casa de papelão e outras que moram numa casa de blocos. Não faz sentido construirmos para a família que vive em blocos, porque estaríamos piorando a situação da comunidade – ressalta Luciano.

A diarista Carmen Lúcia Ferreira Lima, de 34 anos, se diz uma privilegiada pela oportunidade que teve. Moradora da comunidade Vila Clara, em Cotia (SP), ela destaca a diferença entre sua antiga casa e a nova, que abriga sete pessoas.

– Morava em uma moradia feita de maderite estragado e mofado, e sua base era diretamente no solo. Então, quando vinha uma enxurrada, alagava a casa toda. Agora, ela é mais alta, mais bonita e a segurança é mil vezes maior – explica Carmen.  Divulgação

É feita uma base para todas as casas do projeto, além de ser plana.

Ela ressalta que outros moradores da comunidade também estão sendo contemplados e que as ruas estão começando a ganhar nome, graças ao apoio da ONG para uma melhor relação com o poder público.

Oportunidade profissional

Os voluntários Lessa e Lara destacam também a chance de aliar a experiência adquirida com a ONG aos cursos que estudam. Lessa afirma que tanto na segunda quanto na terceira fase do projeto, há espaço pra gestão ambiental.

– Na habilitação social cabem projetos de educação ambiental, por exemplo, enquanto na implementação da comunidade sustentável a presença de um gestor ambiental representa uma visão holística da situação. Sem falar que no contato que ocorre durante a construção já é possível tratar do tema na base da conversa, mesmo que informalmente.

Já Lara afirma que consegue analisar as questões das comunidades e sua relação com as cidades através do urbanismo e tratar das questões técnicas das casas.

– E também no caso do atual trabalho que estou realizando dentro do Teto, de mapear as comunidades para registro e organização das moradias que já construímos e das novas possibilidades.