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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2017


Meio Ambiente

Clube de Roma debate futuro do planeta há quatro décadas

Caio Lima - Do Portal

16/03/2012

 Caio Lima

Em 1968, políticos, físicos, industriais e cientistas juntaram-se numa pequena vila italiana para tratar do desenvolvimento sustentável do planeta. Era o Clube de Roma, primeiro grupo a discutir sustentabilidade, meio ambiente e limites de desenvolvimento, 44 anos antes da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, marcada para este 2012. O encontro começou a ser articulado em abril de 1968, quando o empresário italiano Aurelio Peccei (1908-1984), presidente honorário da Fiat e ex-presidente da Olivetti, convidou o cientista escocês Alexander King (1909-2007) para um jantar em Paris.

– A convergência de pensamento entre os dois era tão grande que o jantar só terminou às 3 da manhã. Ali surgiu a ideia de fazer uma reunião com cerca de 20 líderes e personalidades da época para tratar das condições humanas para o futuro. Buscaram apoio financeiro e o encontro ocorreu numa pequena vila de Roma, daí o nome – conta o vice-presidente do Clube de Roma Internacional, o físico e matemático brasileiro Heitor Gurgulino de Souza, também presidente do Capítulo Brasileiro da organização.

 Reprodução A primeira reunião, no entanto, não foi bem-sucedida, tamanha a divergência de linguagem entre os participantes. Peccei e King não desistiram. Fazendo uma reflexão sobre o encontro e revendo o que dera errado, elaboraram um projeto que fundou as bases do Clube de Roma. Quatro anos mais tarde, em conjunto com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), os cientistas americanos Dennis Meadows e Donella Meadows (1941-2001) e o acadêmico norueguês Jorgen Randers, membros do clube, entrariam para a História ao utilizar sistemas de informática para simular a interação do homem com o meio ambiente, levando em consideração o número de habitantes e o esgotamento de recursos naturais. A conclusão do estudo: se a população mundial continuasse a consumir como na época, por consequência da industrialização, os recursos se esgotariam em menos de 100 anos.

E, no mesmo ano em que a Organização das Nações Unidas realizava em Estocolmo, na Suécia, sua primeira conferência sobre o tema, em 1972, reunindo personalidades da ciência, da academia, da indústria, chefes de Estado e outros líderes, o grupo ganharia reconhecimento mundial com a publicação do relatório Os limites do crescimento (The limits to growth), que desde então já vendeu mais de 12 milhões de exemplares, em cerca de 30 idiomas.

Com a repercussão global, também vieram as críticas. De acordo com o diretor-geral do Capítulo Brasileiro do Clube de Roma, o analista de sistemas Alexandre Linhares, o relatório sofreu ataques vindos de nomes de peso:

– O impacto político foi enorme. Um dos que criticaram veementemente foi George Bush pai (na época, embaixador da ONU). Ele, assim como outros líderes, acreditava que tínhamos petróleo para milhares de anos. Essa vertente dizia que o Clube de Roma queria criar limites para o crescimento econômico.

Segundo Gurgulino, embora preocupada em discutir questões de longo prazo para a humanidade, a organização nunca teve a pretensão de saná-las. Mineiro, residente em Brasília com apartamento em Copacabana, no Rio, com vista tanto para o mar como para a favela Pavão-Pavãozinho, onde concedeu esta entrevista, ele alega os problemas são muito complexos, envolvendo aspectos econômicos, sociais, ambientais, produção, emprego e até corrupção:

Caio Lima – Ao longo destes 44 anos, o Clube de Roma sempre buscou enxergar os problemas, discuti-los e difundi-los entre a população. Fazemos um exercício de futurologia baseado no que se conhece, até determinado momento, de alguma pesquisa, projetando as possíveis evoluções em cada segmento estudado. Trabalhamos para conscientizar o cidadão de que é preciso cuidar melhor do ambiente em que vive. É este, também, o papel de encontros como a Rio+20 – afirma Gurgulino, que, entre outras posições de destaque internacional, foi subsecretário geral das Nações Unidas, participando de diversas conferências da ONU, até ser convidado a integrar o Clube, em 1997. 

Professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas, da Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio, Linhares endossa a visão de Gurgulino, mas afirma que é preciso trazer as questões para o ambiente político:

– Não queremos ser uma forma de governo. Queremos trazer uma atenção aos problemas e mudar o debate político para o longo prazo, ou seja, tirar o oba-oba eleitoral.

O Clube de Roma, para ampliar o horizonte de interessados em debater temas de interesse global, estabeleceu a criação de capítulos nacionais, atualmente 33. No entanto, nem todos os membros dessas unidades fazem parte do órgão em âmbito internacional.

– Mais cérebros, mais ideias. O objetivo é que, além da reunião anual, que conta com cerca de 100 membros, tenham outras em paralelo acontecendo por todo o mundo – destaca Gurgulino. – Essas vertentes do órgão internacional discutem problemas mais próximos da sua realidade. No Brasil, por exemplo, podem-se aplicar discussões sobre temas regionais. Se houvesse boa adesão, poderíamos ter subcapítulos em cada uma das cinco regiões. Cada capítulo pode promover eventos próprios, seminários, de acordo com temas ligados ao país, mas sem esquecer o resto do mundo. Ligia Lopes

Gurgulino lembra que uma das contribuições do Capítulo Brasileiro foi a tradução do livro Limites do crescimento: atualização de 30 anos (Ed. QualityMark, 335 páginas) e distribuição nas universidades brasileiras e para cada parlamentar da Câmara e do Senado Federal.

– A obra, elaborada pelos mesmos autores da original, é uma análise crítica dos avanços e resultados das projeções feitas no início dos anos 1970. Essa atualização mostra como muitas das questões destacadas estavam corretas – afirma o vice-presidente do Clube de Roma.

Interessado por temas relacionados à ecologia e ao meio ambiente, o professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio Bernardo Mariani encontrou um exemplar da primeira edição do livro por acaso, num sebo perto de casa, no Catete, e se surpreendeu com a obra, que não conhecia. Mariani acredita que o livro Limites do crescimento original “abriu a porta do conhecimento para uma ótica da humanidade”.

– Analisando, hoje, 40 anos depois, o impacto é de se poder enxergar o quão antiga é a preocupação com o meio ambiente, embora pouco tenha mudado. Os grandes líderes ainda pensam em crescimento, produção, consumo, economia. Ao invés disso, é necessário nos prepararmos para as mudanças climáticas, que já estão ocorrendo, e mudar o paradigma financeiro-industrial – opina o professor.

Participação e citações brasileiras

Grandes personalidades do Brasil já foram membros ativos do Clube de Roma. Dentre eles, destacam-se o economista Rubens Vaz da Costa, o cientista político Hélio Jaguaribe, o advogado e educador Candido Mendes e o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, todos atuais membros honorários.

Outra personalidade que teve contato com os relatórios do Clube de Roma foi o economista Celso Furtado (1920-2004), que morava na Europa. A jornalista e tradutora Rosa Freire Furtado, viúva de Celso, relata que, embora não tenha participado de nenhuma reunião do grupo, Furtado estudou Limites do Crescimento a fundo.

– Na época, exilado, ele era professor de economia na Sorbonne, em Paris, com dificuldades até para renovar passaporte. Não creio que o governo brasileiro visse com bons olhos um exilado participando de reuniões mais ou menos oficiais como foram as do Clube de Roma, mas é possível encontrar ecos desse estudo no livro O mito do desenvolvimento econômico (Ed. Paz e Terra, 1974) – afirma Rosa.