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Rio de Janeiro, 27 de julho de 2017


Meio Ambiente

As aventuras de dois jovens ativistas de São Paulo na Rio+20

Caio Lima - Do Portal

26/06/2012

 Caio Lima

Disposição, expectativa de contribuir para um mundo melhor e confiança de que tudo daria certo e valeria à pena. Esses foram os motivos que levaram os paulistas Fernando Dreossi, 23 anos, e Jonas Lessa, de 20, ambos estudantes de gestão ambiental da Escola de Artes, Ciências e Humanidade da Universidade de São Paulo (USP), a participar da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, realizada na última semana.

A jornada de seis dias, acompanhada pelo Portal, teve visitas diárias à Cúpula dos Povos, no Aterro do Flamengo, passeatas, manifestações artísticas e culturais, uma credencial de última hora para o Riocentro, noites na Lapa e até um tiroteio no Centro.

A aventura da dupla começou na segunda-feira, 18, quando chegaram à Estação Barra Funda às 10h, horário anunciado para a saída de um ônibus fretado para levar alunos da USP ao Rio, com apoio de um projeto social. Não havia ônibus, nem ninguém esperando, e o organizador não atendia o telefone. Depois de alguma espera, confirmaram a saída para as 13h. Outros começaram a chegar, e estava formado o grupo de 11 estudantes. Um deles, Leandro Barbosa, carioca e também aluno de gestão ambiental da USP, ofereceu abrigo em sua casa, em Laranjeiras. A viagem de cerca de sete horas passou com muita conversa jogada fora e risadas.

Chegaram ao Rio por volta das 20h. Saltaram na Praia de Botafogo, tomaram um ônibus para Laranjeiras e passaram em um supermercado para comprar a primeira refeição da viagem: macarrão ao molho de tomate com linguiça toscana e temperos vencidos da despensa de Leandro, o anfitrião.

Na terça-feira, acordaram e seguiram a pé rumo à Cúpula dos Povos, no Aterro do Flamengo. Saíram da Rua Almirante Benjamin Sodré, viraram à esquerda em baixo do viaduto Engenheiro Noronha, na Avenida Pinheiro Machado, depois à direita para pegar a Rua das Laranjeiras, na qual seguiram reto passando pela Estação Largo do Machado, onde viraram a esquerda na Rua do Catete e depois na primeira direita, na Rua Dois de Dezembro, que dá acesso à orla. Este seria o caminho repetido diariamente nos dias seguintes.

 Maria Christina CorrêaO primeiro dia foi passado no Aterro, onde Jonas e Fernando acompanharam, surpresos, a integração entre pessoas tão diferentes, inclusive muitos índios. Também chamou a atenção a plenária Causas estruturais e falsas soluções, sobre Justiça social e ambiental:

– Achei muito importante e abrangente, suficiente para suprir as demandas da maioria dos que estavam ali. Mas praticamente utópico. Exige coisas que só sairão do papel com uma grande revolução – opinou Jonas.

Pela primeira vez no Rio, Fernando também arranjou tempo para acompanhar a manifestação de indígenas da região de Belo Monte.

– Depois de posar para uma foto, eles se reuniram em círculo, de joelhos, e outras pessoas foram chegando para somar, se ajoelhando e pondo a mão no ombro da pessoa à frente. Os índios puxaram uma espécie de oração e todos acompanharam de olhos fechados. No final, foi pedido que cada um abraçasse pelo menos 10 pessoas desconhecidas. Nessa hora senti o amor da galera, e isso muda alguma coisa dentro de cada um – relembrou o estudante.

Após o primeiro dia de ativismo, a dupla voltou para casa, jantou e saiu rumo à Lapa para curtir a noite carioca. Presenciaram a projeção nos Arcos e seguiram para a choperia Brazooka, na Avenida Mem de Sá, onde ouviram um grupo de samba composto por integrantes da bateria da Mangueira, com entrada livre.

Na quarta-feira, dia 20, saíram de casa mais tarde e seguiram até a Cúpula dos Povos, que estava mais vazia por causa do mau tempo e das manifestações realizadas pela cidade. Assim, seguiram a pé até a Avenida Rio Branco para acompanhar a passeata Mobilização Global organizada pela cúpula, que reuniu cerca de 80 mil pessoas, pelas contas da PM. Ao fim do movimento, viram um princípio de tumulto entre manifestantes e policiais, que dispersaram um grupo, sem consequências mais graves. Voltaram do Centro a pé para Laranjeiras, e de lá para a Lapa à noite.

Já na quinta-feira, o roteiro era ir para o Aterro e depois visitar a exposição Humanidade2012, no Forte de Copacabana. Na Cúpula dos Povos, visitaram a Feira do Empreendedor – Oportunidades de Negócios Verdes, organizada pelo Sebrae, e acompanharam a assembleia Nossas soluções.

– Mais uma vez, percebi que as soluções dadas são utópicas e esbarram muito na burocracia que o sistema impõe, e por ser passível de corrupção. Mas a impressão que se impôs foi a de estarmos unidos, nós, a sociedade civil como um todo, e isso foi muito válido – ressaltou Jonas.

Por volta de 16h30 partiram de ônibus rumo a Copacabana, na linha 433 (Vila Isabel-Leblon). Antes de chegar ao Forte, pararam na Avenida Nossa Senhora de Copacabana para almoçar no restaurante Lopes. Quando chegaram ao destino final, a desagradável surpresa: a fila enorme que percorria a calçada da Rua Francisco Otaviano, quase até o portão do Parque Garota de Ipanema, no Arpoador. Desistiram.

– Não existe rolê perdido. Já que estamos aqui, vamos conhecer o Arpoador e voltamos amanhã mais cedo – decidiu Fernando, com o espírito de quem busca aproveitar ao máximo uma viagem.

Último dia e dois roteiros

Divulgação Humanidade2012/Guarin de Lorena Chegava a hora de os dois jovens viverem um dia diferente. Na manhã de sexta-feira, 20, enquanto Fernando esperava na fila por mais de quatro horas para entrar na exposição do Forte de Copacabana, Jonas acompanhava de perto uma plenária no Riocentro, onde conseguiu entrar graças à irmã mais velha, que arranjara um crachá de um representante da agência da ONU Un-Habitat. Entrou de bermuda, tênis e uma camisa com a foto de Chico Mendes.

– Senti um ambiente cercado de burocracias. Muito terno e roupa elegante, muita situação forçada e pouca preocupação com a vida. A economia verde ficou para trás, a preocupação com a crise financeira era maior. Vi os discursos de representantes de três países dentre os mais excluídos pelo capitalismo: Nicarágua, Timor Leste e Congo. Todos foram carregados de vontade de mudar o mundo, mas vi uma oportunidade de denúncia da situação destas populações, alguns pedidos de socorro, muita bajulação, mas, principalmente, um sentimento de impotência daqueles três homens elegantes que falavam ali para centenas de pessoas igualmente elegantes, mas que ouviam os discursos como se fosse propaganda eleitoral – relatou Jonas.

Enquanto isso, Fernando acompanhava ansiosamente as batidas de palmas a cada grupo de pessoas que conseguia entrar no Forte de Copacabana. Quando chegou sua vez, não se arrependeu de ter esperado tanto para contemplar a exposição de Bia Lessa.

– Usar a arte para abordar os problemas ambientais do planeta é fantástico e chama mais atenção para a causa. A sala Homem e suas conexões (foto) me chamou mais a atenção pelas frases nas paredes, aparentemente sem conexão, mas que, parando para pensar, fazem todo sentido. Deu vontade de tirar fotos para registro e lê-las depois com mais calma – afirmou o estudante ao fim da exposição, no terraço no alto da estrutura com vista para toda a orla de Copacabana, Leme e Arpoador.

Jonas e Fernando marcaram de se encontrar na Lapa, para a última noite no Rio. No caminho, na Rua Senador Dantas, Jonas testemunhou um tiroteio:

– Vi três homens armados gritando 'pega, pega'. Quando deram o primeiro tiro, corri e entrei no Mr. Chang, onde todos já estavam agachados no chão para se proteger. Foram uns oito tiros – relatou.

Na manhã de sábado, rumaram para a Praia Vermelha, de onde sairia o ônibus de volta para São Paulo. Depois de certa tensão – gente de mais para ônibus de menos –, só restou pôr as malas no bagageiro e retornar para casa com histórias que, daqui a 20 anos, ainda estarão na memória.