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Rio de Janeiro, 26 de março de 2017


Esporte

Título mundial no basquete feminino faz 2 décadas

Caio Viana* - aplicativo - Da sala de aula

14/07/2014

 Divulgação CBB

Em 2014, o primeiro e único título mundial da seleção feminina de basquete, conquistado na Austrália, completa 20 anos. Na fria madrugada do dia 12 de junho de 1994, a espetacular geração liderada por Paula e Hortência deu um presente aos apaixonados pelo basquete, que ficaram acordados para ver as atuações impecáveis das comandadas do técnico Miguel Ângelo, na vitória sobre a China por 96 a 87, que deu à equipe o título da 12ª edição Campeonato Mundial de Basquete.

No mesmo ano em que o time de Bebeto e Romário quebrou o jejum de 24 anos sem vencer uma Copa do Mundo de Futebol, o esporte brasileiro foi coroado com o inédito primeiro lugar no basquete feminino, que colocou a geração de Paula, ou melhor, Magic Paula – em referência ao lendário Magic Johnson, considerado o melhor armador de todos os tempos –, e Hortência, apontada como a rainha do basquete brasileiro por sua precisão e pelo poder de decisão nas horas decisivas, no seleto grupo de campeões da modalidade. Foi a primeira vez na história que o ouro saiu das mãos de americanas e russas, as maiores potências da história do basquetebol feminino mundial. O predomínio é comprovado pelo número de títulos conquistados: os dois países somam têm 13 títulos mundiais. A seleção norte-americana tem o maior número de conquistas, oito no total, enquanto a Rússia, que herdou os títulos da União Soviética, tem seis.

Nas 16 edições do Campeonato Mundial de Basquetebol Feminino adulto, somente 14 dos 40 países participantes ocuparam um lugar no pódio. O Brasil, que participou de 15 das 16 edições do torneio, ficando de fora apenas da russa, em 1959, entrou tão desacreditado no mundial, que a Band só começou a transmitir a fase decisiva do campeonato. Até hoje os mais fanáticos pelo basquete brasileiro, como o jornalista e blogueiro especializado em basquete Fábio Bala, se lembram do narrador Luciano do Vale gritando “Leila, Leila, espetacular Leila” na grande final:

– Foi a maior atuação coletiva a que já assisti de uma seleção brasileira feminina. Hortência e Paula estavam no auge, Janeth em grande evolução e as pivôs brasileiras Alessandra e Leila tiveram desempenho espetacular na defesa.

O polêmico corte de Marta

Divulgação CBB  No embarque da equipe para a Austrália, com exceção do jornalista Juarez Araújo, que acompanhou a Seleção até o final, nenhum meio de comunicação compareceu ao aeroporto para noticiar a viagem do time para o Mundial, que é a segunda na escala de importância na modalidade perdendo apenas para as Olimpíadas. O fato mais explorado pela imprensa antes da competição foi a decisão da comissão técnica de não convocar a pivô Marta Sobral. Apontada como uma das principais jogadoras do elenco, ela também era considerada uma das melhores pivôs do mundo por sua versatilidade dentro de quadra e por cumprir sua função defensiva de maneira primorosa.

– A Marta era uma das jogadoras principais do elenco, mas não estava se encaixando com o perfil da comissão técnica e também não estava passando por um bom momento técnico – lembra o técnico Miguel Ângelo da Luz, campeão mundial com a Seleção Feminina, em 1994.

No final, a própria Marta considerou a decisão acertada. A atleta não se acomodou e conseguiu voltar à Seleção nos torneios seguintes, tanto que foi titular do time que ganhou a medalha de prata nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, quando o Brasil revelou novas e altas pivôs como Leila Sobral, irmã de Marta, que com 18 anos entrou no grupo e foi peça fundamental para as vitórias contra os EUA, na semifinal, e contra a China, na final; e Alessandra, pivô de 1,98 m que fez história na Seleção.

– O Brasil precisava fazer algo diferente de competições passadas, e optamos em mesclar o grupo com jogadoras altas e jovens como Alessandra, Cintia Tuiu e Leila. Precisávamos de força dentro do garrafão – afirma Miguel.

Os amistosos insatisfatórios

A fase de treinamento, que durou em torno de 50 dias, para o mundial da Austrália se resumiu a treinamentos e jogos amistosos contra as inexpressivas argentinas, que não acrescentaram muita coisa no período de preparação, as eslovenas, que assim como as argentinas foram facilmente batidas, não correspondendo às expectativas da comissão técnica, e às tradicionais rivais cubanas, que como em todas as ocasiões foram bastante competitivas, mas exigiram mais da parte psicológica do Brasil, por causa da forma provocativa de jogar de Cuba, do que propriamente da parte tática e técnica. Miguel explica que os poucos jogos amistosos na preparação no Brasil foram uma estratégia: “Tivemos poucos amistosos internacionais e treinávamos com equipes sub 17 e sub 19 masculina. Esses jogos podem ter sido o diferencial”.

Em solo australiano, as meninas disputaram um torneio amistoso preparatório para o campeonato Mundial, perderam para a Austrália e para os EUA por placares dilatados em partidas em que a equipe se apresentou muito mal e, praticamente, não conseguiu jogar, pois não houve tempo hábil para que as jogadoras se adaptassem ao fuso e aos critérios da arbitragem australiana, muito diferente dos adotados no basquete brasileiro e mundial. No terceiro e último amistoso, contra a seleção juvenil da Austrália, foi diferente: mesmo o Brasil vencendo no sufoco, a equipe mostrou que já tinha superado o período de aclimatação e, num jogo muito agressivo, sentiu na pele o favorecimento da arbitragem da casa para a jovem equipe australiana, e por isso quase que o jogo não acaba. “O grupo se valeu desse último episódio para se unir, aquilo sacudiu com os brios de todos nós”, declara o professor Sérgio Menezes, assistente técnico de Miguel Ângelo da Luz na campanha de 1994.

O cenário antes da competição

 Divulgação CBBNo dia 2 de junho, teve início o 12º Campeonato Mundial. O Brasil levava para a quadra a genialidade de Hortência e Paula, o talento de Janeth, que se tornou o principal nome da seleção nos anos seguintes, a experiência das veteranas Ruth e Dalila, e apresentava  outros importantes nomes para o título mundial e para a composição do grupo selecionável nos anos seguintes como as alas Adriana, Helen, Roseli e Simone, além das jovens pivôs reboteiras, recém-saídas da seleção juvenil, Alessandra, Cintia Tuiú e Leila.

O Brasil não estava entre as seleções favoritas para alcançar a segunda fase do torneio, na bolsa de aposta para o título o país aparecia na décima primeira posição no total de 16 equipes. A medalha de bronze conquistada pela geração de Laís e Heleninha, no Campeonato Mundial de 1971, no Brasil, resultado de nível mundial mais expressivo do basquete feminino até então, responsável por inserir o Brasil no cenário internacional, parecia estar muito mais distante do que somente 23 anos.

Nos anos de 1980, o crescimento da rivalidade entre as duas maiores estrelas do basquete no Brasil, Paula e Hortência, e entre seus clubes, X e Y, colaborou no desenvolvimento do basquetebol brasileiro e na conquista dos grandes títulos da década de 1990. Por outro lado, setores da imprensa tentaram implantar no basquete o mesmo sentimento de disputa existente no automobilismo, entre Nélson Piquet e Ayrton Senna. O que causou sérios problemas para a evolução da seleção como equipe, já que quando o time de uma vencia era porque o da outra tinha perdido e vice-versa. Em 1999, Paula, em entrevista à revista IstoÉ admitiu que o fato de as duas levarem a competição dos clubes para a seleção foi uma das causas da demora do Brasil em conquistar títulos.  

O Brasil se manteve entre as três melhores Seleções da América, mas nos Campeonatos Mundiais os resultados tiveram uma considerável queda em relação ao Mundial de 1971, ressurgindo em 1991 com a medalha de ouro no Pan-Americano de Havana deixando para trás as fortes seleções de EA  e Cuba, com direito a receber a medalha do presidente cubano, Fidel Castro, que fez questão de, no pódio, parabenizar as atletas pela atuação na final. Mas com o penúltimo lugar nas Olimpíadas de Barcelona, realizada no ano seguinte, a equipe voltou ao status de antes do Pan.

 Divulgação CBB O sétimo lugar nas Olimpíadas, as primeiras disputadas pela equipe feminina, provocou a saída da técnica Maria Helena, que comandou a seleção durante quase toda a década de 1980. Com isso foi chamado o jovem técnico da seleção juvenil, Miguel Ângelo da Luz, que nunca havia dirigido uma equipe adulta feminina. Contou também o fato de nunca ter trabalhado em nenhuma equipe do interior paulista, que era e é até hoje o centro do basquete feminino brasileiro, ou seja, região onde estão localizados os melhores e mais tradicionais clubes femininos do país. Miguel Ângelo sofreu forte resistência dentro do elenco. Coube ao chefe da delegação, Waldyr Pagan, fazer o meio-campo até que Miguel provasse que podia comandar a equipe. 

 A Campanha no Mundial

A jornada da Seleção no Mundial começou contra Taiwan. No dia 2 de junho de 1994, o Brasil passou pela seleção asiática por 112 a 83. Destaque para Janeth, que marcou 23 pontos no duelo. A segunda partida, contra a Eslováquia, aconteceu no dia seguinte. O Brasil acabou derrotado por 99 a 88. Porém, na partida seguinte, a Seleção se recuperou, eliminando a Polônia por 87 a 77, Hortência foi cestinha do confronto foi, com 27 pontos. A comissão técnica considerou este jogo como o
 mais sofrido do torneio, porque após ganhar de Taipei e perder para a Eslováquia, o Brasil tinha na obrigação de ganhar da Polônia, “Acreditava no grupo e não seria uma então derrota que iria abalar a equipe. Fomos ganhando corpo jogo a jogo”, conta Miguel.

Divulgação CBB  O Brasil estrou na segunda fase jogando contra as eternas rivais cubanas, e venceu por exatos 20 pontos, 111 a 91. Janeth foi mais uma vez a maior pontuadora, dessa vez com incríveis 38 pontos. Na partida seguinte, no dia 8 de junho, a Seleção foi derrotada pela China. Apesar do revés por 97 a 90, o time contou com as boas atuações de Paula, Janeth e Hortência, que assim como no jogo contra a Polônia foi novamente cestinha com 36 pontos. Na última partida da segunda fase, jogo que valia vaga para as semifinais, a vitória sobre a Espanha, 92 a 87, só foi consolidada no último minuto graças às cestas de Hortência no momento decisivo da partida. Ela foi também mais uma vez a cestinha do Brasil no jogo, marcando 25 pontos.

Na semifinal, o temido duelo com as americanas, que tinham no elenco estrelas como Lisa Leslie, Dawn Stanley e Teresa Edwards, a seleção americana estava invicta no Mundial e passando com facilidade pelos adversários até então. A comissão técnica estudou por dois dias os pontos positivos e negativos dos EUA, analisando as estatísticas, baseadas nas características individuais e coletivas das adversárias, e marcando jogadas. “Não tínhamos recursos de vídeo. Era tudo no papel. Variamos o setor defensivo e valorizamos muito a posse de bola”, lembra o técnico Miguel Ângelo da Luz. Caso a equipe estivesse em desvantagem já no primeiro tempo a estratégia inicial seria mudada, pois o plano de jogo contra as americanas previa uma série de alternativas táticas.

O jogo foi tenso e muito disputado, o Brasil no meio do jogo chegou a ficar com mais de 10 pontos de desvantagem, mas com as excepcionais atuações de Hortência, 32 pontos, Paula 29 e Janeth, 22, e o belo jogo defensivo de Alessandra. Cíntia e Leila, o Brasil cortou a diferença e arrancou uma vitória heroica por uma diferença de três pontos, 110 a 107. O desacreditado penúltimo colocado das Olimpíadas de Barcelona de dois anos antes estava na final do campeonato Mundial da Austrália.

Na decisão o Brasil empolgado por ter superado os EUA, seu mais temido rival, na semifinal, não tomou conhecimento da China, adversária da grande final e que havia derrotado a Seleção brasileira na segunda fase do torneio. Nem a altura, 2,04m, nem o excelente basquetebol da  pivô Zheng Haixia, que marcou 27 pontos na decisão, foram suficientes para deter a seleção brasileira que com a excelente iniciativa da defesa que não deu espaço para Haixia, principal jogadora da seleção chinesa na competição, jogar. A equipe dirigida por Miguel Ângelo da Luz esteve sempre à frente no placar, venceu o primeiro tempo por 51 a 42, e impediu que as chinesas esboçassem qualquer  tipo de reação, fechando o jogo em 96 a 87. O trio Paula, Hortência e Janeth brilhou novamente, Hortência terminou o jogo como 27 pontos, assim como a gigante Zheng da China. Hortência também foi maior pontuadora do campeonato marcando 221 pontos na competição. Janeth ficou em terceiro, com 186 pontos, e Paula em quinto, com 158 pontos. A ala ainda foi incluída na seleção das melhores do Mundial, que contou também com Janeth. O título e os prêmios consagraram aquela geração, que dois anos depois conquistaria a medalha de prata nas Olimpíadas de Atlanta.

* Reportagem produzida para o Laboratório de Jornalismo.