Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 23 de agosto de 2017


Esporte

Manifestações chegam aos gramados pedindo bom senso

Gabriel Camargo e Igor Novello - Do Portal

26/11/2013

 Reprodução YouTube

As críticas do presidente da Federação Paranaense de Futebol, Hélio Cury, aos jogadores que buscam mudanças no calendário do futebol brasileiro em 2015 deixaram clara a divisão: de um lado, os dirigentes – principalmente os presidentes de federações, influenciados pela guerra política na CBF –; e, do outro, jogadores e profissionais da área que querem a revisão dos calendários dos campeonatos. No meio do conflito de interesses, o torcedor sofre com ingressos caros, partidas de nível técnico questionável e estádios cada vez mais vazios.

As quatro principais reivindicações do Bom Senso FC, o movimento dos jogadores brasileiros, são: um calendário melhor para o futebol nacional, com menos jogos para os times grandes e mais para as equipes pequenas; maior período de férias; tempo adequado de pré-temporada; e o chamado Fair-play Financeiro, para regularizar a questão financeira dos clubes e puni-los quando não cumprirem os acordos. Idealizado pelo zagueiro do Corinthians Paulo André, o movimento tem como um dos principais articuladores o meio-campo Alex, do Coritiba e o apoio do volante Gilberto Silva (foto abaixo), 37 anos, campeão da Copa do Mundo com a Seleção Brasileira em 2002. Com passagens pelo Arsenal (Inglaterra), Grêmio e agora no Atlético Mineiro, Gilberto defende que a intenção do movimento é oferecer um futebol melhor para todos, desde os jogadores até a televisão:

– Se tivermos um calendário mais adequado, menos lesões os jogadores terão e os jogos ganharão em qualidade. Então, os clubes, os jogadores, a CBF e a televisão tem que sentar e buscar soluções inteligentes para que tudo seja melhorado, e todos vão se beneficiar com isso. Os clubes vão pagar os seus atletas, mas todos eles estarão em campo, com o mínimo de baixas possível. O torcedor vai ganhar com o melhor espetáculo, pois os melhores estarão em campo. E, por último, o faturamento vai aumentar, porque, se o campeonato é altamente competitivo, a tendência é que mais pessoas vão ao estádio e mais patrocinadores se sintam atraídos a investir.

Há 10 dias, no arbitral do Campeonato Paranaense, Hélio Cury afirmou publicamente que o Bom Senso FC, o movimento dos jogadores brasileiros, é “para quem está em fim de carreira” e que, “se diminuir o número de jogos, tem que diminuir o salário também”. Gilberto Silva rebate as críticas:

– Fiquei admirado por tal declaração, e indignado também. Não queremos comprar briga com federação alguma. Estamos buscando soluções inteligentes para que o futebol seja atraente para todos. Será que ele (Cury) pensou em alguma fórmula para beneficiar os clubes considerados menores que não jogam muito durante o ano? E os presidentes de outras federações? Não é do nosso interesse acabar com os campeonatos estaduais. Isso é para tirarem o foco do Bom Senso. Queremos que esses clubes, que jogam apenas em um terço do ano, joguem mais, e os clubes vão ganhar com isso. Divulgação/Flicker Oficial Atlético Mineiro

E completa que as mudanças são para o futuro – quando, provavelmente, já estará aposentado:

– Eu, com certeza, não colherei os frutos desse movimento. Mas, se conseguirmos ter resultados, vai ser uma vitória muito grande para o esporte, para o futebol brasileiro. Seria muito bom ver daqui a uns anos campeonatos mais competitivos.

O zagueiro do Botafogo Bolívar, um dos poucos jogadores no Rio que participam mais diretamente do Bom Senso, acrescenta:

– Tudo o que está acontecendo é por um bom rendimento dentro de campo. Chega uma hora no Campeonato Brasileiro em que o desgaste físico é tão grande que o rendimento das partidas acaba caindo. O tempo de intervalo entre um jogo de quarta para domingo é muito curto. O que queremos mesmo são os jogos mais espaçados, um intervalo maior entre as partidas.

Além dos atletas, outros profissionais que trabalham com futebol também apoiam mudanças no calendário, como os preparadores físicos, que estão diretamente ligados à causa da preparação. Alessandro Schoenmaker, que já trabalhou no Nottingham Forest (Inglaterra) e hoje é preparador físico do Twente, da Holanda, lembra a importância de uma boa preparação e cita as diferenças entre o que acontece no Brasil e na Europa:

– A pré-temporada é um período crucial para preparação e desempenho de um time. Ela é a base de sustentação física, técnica e tática, assim como psicológica. No Brasil, este período tem sido muito curto comparado à Europa, onde o treinamento em média é de seis semanas. Após um período de férias, é importante que seja desenvolvido um trabalho periodizado de condicionamento físico. Neste período também são realizados todos os testes e exames cardíacos, metabólicos e funcionais.

 Arte: Maria Christina M. Corrêa A adequação do calendário brasileiro ao europeu – que vai de julho a julho, e também não é unanimidade no Velho Continente – já foi considerada uma alternativa. Porém, de acordo com Luis Felipe Ximenes, ex-superintendente de futebol do Coritiba e do Fluminense, que defende o Bom Senso e acredita que um calendário mais racional ajudaria a todos os profissionais, não acha que a simples “adequação de início e fim de temporada” resolveria o problema.

– O clamor por mudanças no calendário já existe há muito tempo e vem de diversos setores do futebol. O futebol brasileiro está passando por um profundo período de mudanças, muitas delas excelentes. Veremos isso num prazo médio de cinco a 10 anos. O amadorismo ainda está presente, porém não é o único vilão – comenta o ex-dirigente do Coritiba.

Já Washington, ex-atacante de Atlético Paranaense, Fluminense e São Paulo e atualmente secretário de Esportes de Caxias do Sul (RS), é a favor da adequação do calendário brasileiro ao europeu, assim como ocorre em outros países da América do Sul, como Argentina, Chile e Uruguai:

– Adequar o calendário brasileiro ao europeu seria a melhor opção, pois unificaria tudo. O problema é que já estamos acostumados ao nosso calendário há décadas. O processo de mudança não pode ser rápido, é preciso fazer tudo com calma, passo a passo.

O Coração Valente – apelido que ganhou por ter seguido a carreira mesmo com problemas cardíacos – lembra que os treinos são fundamentais tanto para o aperfeiçoamento de características individuais, como entrosamento com os companheiros. E ressalta que a quantidade exagerada de partidas acaba prejudicando os atletas, principalmente os mais experientes, como ocorreu com Alex (de 35 anos), Seedorf (37) e Zé Roberto (39).

– Um dos motivos para essa queda no rendimento é o esgotamento físico. O calendário é realmente muito desgastante. Os jogadores, principalmente os mais experientes, sofrem com a sequência de jogos. Precisa ter treino para que possamos melhorar nossas características coletivas e individuais. Jogador de futebol não é uma máquina. Todos precisam treinar para melhorar ou se manter em boa forma – afirma o maior artilheiro do Campeonato Brasileiro em uma única temporada, em 2004, quando atuava pelo Atlético Paranaense e marcou 34 gols no torneio.

Em campo, faixas e minuto de silêncio

A disputa entre os jogadores e a Confederação Brasileira de Futebol está cada vez mais clara: após tentativas frustradas de conversas com dirigentes da CBF, as manifestações em campo – que no começo eram abraços entre os jogadores rivais no círculo central do gramado – aumentaram. Na 34a rodada do Brasileirão, todos os times entraram juntos em campo e carregando faixas como "Por um futebol melhor” e uma mais direta, utilizada nos jogos transmitidos pela TV aberta, com os dizeres "Amigos da CBF: e o Bom Senso?".

Gilberto afirma que esses últimos protestos, como os braços cruzados nos primeiros trinta segundos de algumas partidas (foto), só aconteceram pela falta de respostas da CBF:

– Não vi ninguém com medo de se manifestar, muito pelo contrário. Hoje, está acontecendo algo no Brasil que eu nunca vi até então. Acho que todos estão querendo o bem do esporte. Os jogadores, que eram considerados uma classe desunida, estão mostrando comportamentos diferentes. E acho que muitas pessoas se assustaram com a nossa união e o nosso grau de envolvimento e de instrução.  Reprodução YouTube

Um dos motivos para esse calendário inchado são os campeonatos estaduais, que, na maioria das vezes, duram quase quatro meses. Um exemplo de que um tempo maior de pré-temporada pode fazer diferença é o Atlético Paranaense. Em vez de disputar o Campeonato Paranaense – a equipe sub-23 entrou em campo –, foi para a Europa realizar amistosos e uma pré-temporada mais completa, com cerca de quatro meses de duração.

– Os problemas já começam no início do ano. Só temos duas semanas para preparar o time para o ano inteiro. E isso é completamente inviável, não dá para fazer tudo em apenas 15 dias. A atitude do Atlético seria a ideal. Eles arriscaram muito, mas estão colhendo os frutos. Estão muito fortes em duas competições – comenta o preparador físico do Botafogo Marlos Cogo.

Hoje o Furacão ocupa a quarta colocação no Campeonato Brasileiro, é finalista da Copa do Brasil e mostra que a preparação mais longa funcionou, principalmente nos minutos finais das partidas, quando as equipes já estão mais cansadas: é o segundo time que mais marcou gols, 13 deles nos últimos 15 minutos de jogo, que também é o período em que o clube mais balançou as redes nesta edição do torneio. Bolívar, 33 anos, por exemplo, fez 56 partidas no ano, enquanto o zagueiro Luiz Alberto, 36 anos, do clube paranaense, jogou 36.

– Hoje você vê o Atlético jogando e sempre comentam que estão correndo muito, que é um time com uma condição física boa, mas é pelo fato de não terem disputado estadual. É claro que é um método legal, porque estão bem no Brasileiro e na Copa do Brasil – completa Bolívar.

O preparador físico do Boavista Felipe Carreiro complementa:

– Vejo a escolha do Atlético como positiva e produtiva, digo positiva, pois, teve um tempo maior de preparo, tempo este que os demais clubes acabaram não tendo e produtiva porque basta ver a boa colocação da equipe no Brasileiro. Em relação ao tempo da pré-temporada, quanto maior for o tempo disponível para a preparação da equipe, melhor será o rendimento durante o ano.

 Danilo Azevedo Para efeito de comparação, o adversário do Atlético Paranaense na decisão do torneio nacional, o Flamengo, fará até o fim deste ano 68 partidas, contando o Carioca, Brasileirão e Copa do Brasil, enquanto o Furacão chegará a 51 jogos. Além disso, enquanto o clube da Gávea teve pouco mais de um mês entre o fim da temporada 2012 e início desta, os paranaenses tiveram praticamente cinco meses entre o último jogo oficial no passado e o primeiro em 2013.

– Acho que, se der certo, se títulos e objetivos forem conquistados, isso pode acabar influenciando outras equipes a tentarem essa maneira de pré-temporada. Isso se a diretoria aceitar. É difícil abdicar de um campeonato regional, que é tradicional. E, mesmo reduzindo o campeonato estadual, acho que não seria o suficiente, porque só diminuiria oito jogos de um total de 70 – avalia o preparador Marlos.

Além de um calendário melhor, as finanças

Outra das quatro principais reivindicações do Bom Senso, o chamado Fair-play financeiro, propõe evitar que os clubes gastem mais do que arrecadam. Caso o acordo não seja cumprido e as contas ficarem no vermelho devido a negociações irresponsáveis, o clube sofrerá punição perdendo pontos em competições. Com dívidas gigantescas – só os quatro grandes clubes do Rio de Janeiro somam pouco mais de R$ 2,2 bilhões em dívidas, de acordo com pesquisa divulgada pela consultora BDO em 2012 –, as equipes brasileiras sofrem com gestões amadoras que marcaram o seu passado.

De acordo com Felipe Ximenes, as atuais administrações dos clubes não podem se dar ao luxo de não enfrentar os problemas. Para ele, novas alternativas devem ser procuradas:

– O passivo de um clube e sua gestão são, sem dúvida, dois dos grandes vilões das gestões modernas, mas o problema deve ser encarado de frente e não empurrado para debaixo do  tapete. Com criatividade, seriedade, profissionalismo e paixão, é possível sanear um clube.

Já o Washington acredita que as gestões atuais ainda tomam decisões de maneira passional, muitas vezes deixando o profissionalismo em segundo plano:

– Acho que é preciso levar o futebol mais a sério. Muitas vezes põem a paixão em primeiro lugar. É fundamental saber que o futebol tem de ser tratado por profissionais, e não por torcedores.

 Divulgação O que pode exemplificar a falta de administrações mais sérias é a surpreendente má exploração do consumo de torcedores brasileiros com o seu time de coração. Segundo o estudo da Pluri Consultoria, os 24 clubes de maior torcida no país, no ano de 2012, receberam R$ 1,1 bilhão vindo da venda de produtos e serviços para seus torcedores, valor que representa menos de 0,07% do R$ 1,6 trilhão da renda anual das torcidas.

– É fundamental que os executivos de marketing tenham experiência em marketing e não apenas em esporte. Esse mercado precisa atrair bons executivos de mercado, profissionais que tenham realizado. Outra medida vital para o marketing é uma distribuição mais equilibrada dos direitos de transmissão. As ligas americanas, como NBA e NFL, por exemplo, privilegiam o equilíbrio nas competições – afirma Idel Halfen, vice-presidente de marketing do Fluminense.

Com um calendário apertado, as lucrativas viagens de pré-temporada acabam sendo prejudicadas e os clubes perdem boas oportunidades de gerar receitas. Como ocorreu com o São Paulo, que este ano viajou para Alemanha, Japão e Portugal, e depois teve que jogar três vezes em uma semana para compensar as rodadas adiadas no Brasileirão, o que causou uma queda no rendimento do clube paulista.

– De nada adiantarão pré-temporadas que rendam fortunas se não contribuírem para o bom desempenho esportivo. Sendo assim, fica difícil planejar pré-temporadas em praças distantes, mesmo que lucrativas, pois o tempo de locomoção e os efeitos de fuso horário atrapalharão a preparação técnica – completa Idel.

Leia também a entrevista do ex-jogador Afonsinho, que mostra seu apoio ao Bom Senso.

Ouça a reportagem de Leandro Saudino sobre o poder da TV sobre o esporte brasileiro.