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Rio de Janeiro, 26 de março de 2017


Esporte

Documentário sobre Fla-Flu transforma Odeon em Maracanã

Luis Edmundo Sauma - aplicativo - Do Portal

03/10/2013

Luis Edmundo Sauma

Cine Odeon BR se transformou no Maracanã durante os 85 minutos de exibição do documentário Fla-Flu – 40 minutos antes do nada, do diretor Renato Terra (2013, Brasil). A cada lance, as mais de 500 pessoas presentes na pré-estreia do filme reviveram momentos marcantes da historia do Clássico das Multidões. Do gol de Assis na final do Carioca de 1983, ao título do Flamengo em 1991 debaixo de chuva, a plateia, que contou com reforços como Lázaro Ramos, Nelson Rodrigues Filho e o protagonista Assis, reproduziu o clima apoteótico do Maior do Mundo nos bons tempos.

A convite do Portal PUC-Rio, os jornalistas Roberto Sander (tricolor) e Marcos Neves (rubro-negro) acompanharam essa viagem ao passado, realizada na última segunda-feira, dia 30, e com sessão hoje às 20h no Ponto Cine, em Guadalupe, antes da estreia nos cinemas, marcada para a segunda quinzena deste mês. Autores de livros sobre seus times – 20 Jogos Eternos do Fluminense (Maquinária Editora, 2013, Brasil) e 20 Jogos Eternos do Flamengo (Maquinária Editora, 2013, Brasil), os escritores debateram cada detalhe do filme, trazendo à tona recordações da época.

– Nesse jogo estava chovendo muito. Depois do segundo gol, fui embora – lembrou Sander, referindo-se à final do Campeonato Carioca de 1991, da qual o Flamengo saiu vitorioso pelo placar de 4-2.

A história profissional dos dois com o futebol é antiga. Sander trabalhou por duas décadas na TV Globo e no SporTV. Em 2008, criou a Maquinária Editora, especializada em literatura esportiva. Por ela, o tricolor escreveu Taça de Prata de 1970 (2010), no qual narra a conquista do Brasileiro daquele ano, além de 20 Jogos Eternos do Fluminense. Neves foi subeditor de Esportes do Jornal do Brasil. Sua carreira nos livros inclui obras sobre o ex-jogador do Fluminense Renato Gaúcho (Anjo ou Demônio – A polêmica trajetória de Renato Gaúcho, Gryphus, 2002), o ex-cartola tricolor Francisco Horta (O Maquinista – Francisco Horta e sua inesquecível Máquina Tricolor, Maanaim, 2009) e do ex-jogador do Botafogo Heleno de Freitas (Nunca houve um homem como HelenoEdiouro, 2006). Para o rubro-negro, é uma responsabilidade grande falar sobre o clube do coração.

– É um desafio escrever sobre o que se gosta. Há uma tendência à imparcialidade, a gente acaba falando muito bem de algo que não tem tanta importância histórica, mas pessoalmente significa muito. Eu sempre quis escrever sobre o Flamengo, mas acaba sendo uma responsabilidade muito grande, exatamente por esse lado passional – explicou Neves, que, apesar de garantir a imparcialidade, admite: – Eu brinquei um pouco, sim, mas tentei levar muita informação. Busquei fazer uma viagem ao passado junto com o torcedor, para ele se lembrar da semana do jogo, das experiências particulares de cada partida.

A tônica da sessão foi justamente a intensidade do clássico. Sentados lado a lado, Sander e Neves reviveram cada cena, lance, depoimento, com suspiros nostálgicos de quem se lembra de tempos que não voltam mais.

– Eu me lembro da primeira vez em que eu subi esse túnel aí. Infelizmente não tem mais volta, destruíram o Maracanã. Nunca mais será o mesmo – lamentou Sander.

Além de lances marcantes do ”clássico mais charmoso do mundo”, como é conhecido, o documentário reúne depoimentos de protagonistas como Júnior, Zico e Assis, atrelando também memórias de torcedores ilustres como o tricolor Desirée Rogério e o rubro-negro Roberto Assaf. Segundo o diretor Roberto Terra, o objetivo era despertar o lado fanático dos personagens:

– As entrevistas não eram convencionais, no estilo jornalístico. Nós tentávamos buscar o lado passional do entrevistado. Era um papo de torcedor para torcedor. Ficou um documentário leve, bem-humorado – contou Terra, entusiasmado pela rivalidade: – Adoro ver Fla-Flu, talvez seja meu jogo preferido. Eu me sinto em casa, essas brincadeiras são uma coisa que eu faço no dia a dia, com os meus amigos.

 Luis Edmundo Sauma As confortáveis cadeiras do Cine Odeon BR se tornaram desnecessárias ao longo do filme. Não foram poucas as vezes em que o público se levantou, da primeira à última fileira, como no Maracanã, para acompanhar lances de perigo. O gol de Assis na final do Carioca de 1983 fez a sala de exibição explodir como o Maior do Mundo 30 anos atrás. No primeiro depoimento de Zico, palmas. Durante os 85 minutos de exibição, o protocolo de silêncio e conduta dentro do cinema foi categoricamente chutado para escanteio.

O gol de barriga de Renato Gaúcho é outro ponto alto do filme. Em meio ao cruzamento de informações, na tentativa de lembrar os mínimos detalhes, Sander e Neves pararam para assistir ao gol histórico. Quando os depoimentos lamentosos de Júnior e Zico tomaram as telas, houve vaias e gritos provocativos da torcida tricolor. Assim que Aílton dominou a bola pela direita, um frenesi novamente tomou conta do cinema. Paralelamente à experiência singular de estar lá naquele 25 de junho de 1995, o momento do cruzamento trouxe o silêncio da expectativa. Ao completar para o gol, Renato correu para os braços da torcida. No presente, a mesma reação de 18 anos atrás: gritos, abraços e pulos de alegria.

O documentário também foi marcado pelo humor dos depoimentos. Das brincadeiras entre a plateia às provocações dentro da tela. Ao responder se o manto rubro-negro lhe trazia recordações, Assis afirma: “Sim, fiz muito gol nesse time aí!”, arrancando risos e aplausos, até dos flamenguistas.

O ex-jogador foi quem mais emocionou os presentes no Cine Odeon BR. Único jogador presente à sessão, Assis foi aplaudido de pé por rubro-negros e tricolores antes da exibição. Recebido com sua tradicional música “Recordar é viver, Assis acabou com você!”, o “Carrasco” – apelido dado pela torcida do Fluminense – atendeu pacientemente a todos os pedidos de fotos e entrevistas.

Para Sander e Neves, o filme mostrou o charme do futebol do passado. Ambos lamentaram a decadência do esporte, principalmente do Campeonato Carioca. Entre as cenas mais marcantes, Neves citou o abraço de Junior com o filho, em 1991. Para Sander, as reações do público na exibição e os depoimentos foram o melhor do documentário.

Ao final, aperto para sair, todos falando alto, rindo, relembrando a experiência. Poderia ser o Maracanã, mas era o Cine Odeon BR. Quem passasse por ali não saberia dizer a diferença.

 

Kiko Fernandes, responsável pelo som do documentário

O produtor Kiko Fernandes é o responsável pela sonorização do documentário. Professor da PUC-Rio e ex-aluno da universidade, foi chamado de última hora para compor o plantel da produção. Foi sua primeira experiência com longas-metragens, mas a paixão pelo futebol impulsionou o produtor para o projeto. Em entrevista ao Portal, o rubro-negro fanático explicou os caminhos adotados na sonorização do documentário, falou de suas experiências pessoais com o futebol e contou que o filme não se aborda exclusivamente da rivalidade: "Na verdade, não se trata só do Fla-Flu; o objetivo do filme é mostrar a paixão pelo futebol".

Portal PUC-Rio: Qual é sua memória sonora mais marcante de um jogo de futebol?
Kiko Fernandes:
 São várias. A chegada ao entorno do Maracanã, com as torcidas se cruzando, o clima hostil e tenso, os cavalos da PM. Ao mesmo tempo, contrastando com o bom humor de vários personagens típicos da torcida, os ambulantes, cambistas, as famílias. A subida pelas rampas cantando os gritos de guerra, ouvindo o canto da maior torcida do mundo. Infelizmente, isso jamais acontecerá de novo, devido a diminuição do espaço para a torcida. O Maracanã já comportou 200 mil pessoas em um Fla-Flu, hoje a capacidade máxima é de 80 mil.

Portal: Como foi a experiência de fazer um documentário sobre futebol, esporte marcado pelos sons dentro e fora de campo?
Fernandes:
 Por ser um documentário, facilita bastante, pois muita coisa é pré-gravada. Minha parte fica restrita aos lances de futebol. Como filosofia, nós adotamos dois caminhos: veracidade com a imagem – tentamos manter a fidelidade entre o áudio e a imagem: quanto mais velha a imagem, menos limpo tinha que ser o som – e a gravação das torcida in loco. Eu fui lá pra gravar, e nós tomamos cuidado para adequar os gritos das torcidas com suas respectivas épocas. Tentamos reproduzir a emoção, o gigantismo do Maracanã. O filme começa com a perspectiva da entrada do túnel das arquibancadas, o barulho do torcedor.

Portal: Para você, o que foi mais prazeroso: captar os sons da arquibancada ou do campo?
Fernandes:
 Acho que a torcida. Por ser flamenguista, sempre frequentei o Maracanã, a minha ideia foi tentar trazer a emoção das arquibancadas. Quanto a captação dos chutes, obviamente foi muito bacana, eu estive nesse ultimo Fla-Flu dentro de campo, captando os sons. Foi muito emocionante, estar dentro do campo, junto dos jogadores. Mas boa parte do que está no filme foram coisas que eu já tinha, até mesmo antes desse último jogo.

Portal: Qual era sua experiência com sonorização futebolística?
Fernandes:
 Eu já havia feito duas campanhas comerciais para o Flamengo. Por me identificar muito com o time, alguns diretores acabam me convocando para fazer o som de seus filmes quando o assunto é Flamengo. Fiz também campanha com o Pelé e Alex, ambas para a Petrobras. Mas, em longa-metragem, essa é a minha primeira experiência.

Portal: Quais são os gêneros que dão maiores oportunidades ao sonorizador?
Fernandes:
 Filme de ação é sempre uma boa oportunidade para se explorar os efeitos sonoros. Esporte é ação, portanto, de uma forma geral, os filmes do gênero tem um ótimo potencial sonoro.