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Rio de Janeiro, 29 de junho de 2017


Esporte

Do futebol à política um bate-bola pelo mundo de Saldanha

Felipe Castello Branco - aplicativo - Do Portal

13/06/2014

 Felipe Castello Branco

Apesar de terem se passado 44 anos, é inevitável para o coreógrafo João Viotti Saldanha não lembrar com nostalgia da Copa do Mundo de 1970. Filho de João Saldanha – um dos maiores cronistas esportivos do país e treinador responsável por recuperar a moral da seleção brasileira e classificá-la para o Mundial do México, onde ganhamos o tri já sob o comando de Zagallo –, ele é categórico: “Meu pai teve o grande mérito daquela conquista”. Com uma passagem vitoriosa e ao mesmo tempo conturbada pela seleção, João Saldanha acabou eternizando-se como uma das figuras mais polêmicas, imprevisíveis, irreverentes e emblemáticas da história do futebol brasileiro. Grande jornalista, integrante do Partido Comunista Brasileiro, ganhou de Nelson Rodrigues o apelido de João Sem Medo, referência à militância com que se dedicava pelos caminhos da reportagem, do esporte e da política.  “Um homem que não se intimidava em dizer o que pensava”, sintetiza João Viotti, que 24 anos depois da morte do pai, aproveita a Copa para lembrar, no Espaço SESC Copacabana, algumas passagens e traços marcantes de João Saldanha.

A exposição Topo, em cartaz até 27 do próximo mês, reúne textos, vídeos e peças associadas às feições plurais do jornalista, treinador e miliante do partidão. Em descontraída conversa com o Portal, num café em Copacabana, João Viotti Saldanha conta como surgiu a ideia da mostra, comenta a personalidade do pai, relembra casos folclóricos e deixa "bem claro" o que aconteceu em 1970. (Veja, no fim da entrevista, outras exposições, no Rio, sobre Copa e futebol.)  

Portal PUC-Rio: Como surgiu a ideia da exposição? 

João Viotti Saldanha: O Espaço Sesc me fez um convite. Temos uma parceria de mais de uma década, e eles tinham interesse em fazer uma série de exposições sobre futebol, aproveitando a Copa do Mundo. Perguntaram se me interessaria fazer algo relacionado ao meu pai, especificamente sobre o período em que ele foi técnico da seleção brasileira. Aí eu respondi a mesma coisa que ele, na época em que foi convidado a ser técnico da seleção: “ Eu topo”.

Portal: Daí o nome da mostra: Topo?

Saldanha: Exatamente. Quando dei a minha resposta, lembaram que eu usei o mesmo termo que meu pai havia falado quando aceitou o convite do João Havelange (então presidente da antiga Confederação Brasileira de Desportos, CBD, atual CBF). A gente acaba usufruindo de um vocabulário que vem da sua família.

Portal: Falando nisso, como foi o processo de garimpo para a exposição?

Saldanha: Foi bem longo. Há muitas histórias a serem contadas e o espaço se mostrou pequeno para isso. Pelo menos umas três crônicas não entraram. Alguns comentários a respeito dessa figura polêmica que era o João Saldanha tiveram que ser cortados, e me vi obrigado a priorizar aquilo que considerava mais importante. Acho que daria para fazer essa exposição no Maracanã.

Portal: Diante de um personagem tão plural, a que você procurou dar mais destaque? Quais as curiosidades garimpadas no baú do João Saldanha?

Saldanha: Essa exposição trouxe um ponto de vista diferente. Como tenho uma ligação forte com a palavra, decidi, em vez de de ilustrá-la com belas fotos, utilizar a linguagem escrita como veículo maior de expressão. Até porque existem diversos textos preciosos, não só propriamente do meu pai mas tembém a respeito dele, escritos por pessoas que têm um histórico na literatura ou no meio jornalístico. Além do mais, estamos sobrecarregados de imagens, com toda tecnologia de hoje. Acreditei que seria mais original fazer o jogo com as palavras. Na minha opinião, esta é a grande curiosidade da exposição.

Portal: Antes de falarmos propriamente dos traços biográficos dessa figura rica, não raramente polêmica, que foi o João Saldanha, eu gostaria de saber como via o seu pai...

Saldanha: Passados quase 25 anos de sua morte, meu pai ainda é muito lembrado. Não acredito, no entanto, que ele se adequaria ao mundo de hoje. A vida corriqueira e rápida da cidade não condiz com a figura contemplativa, que gostava de espaço para argumentar, falar. Ao mesmo tempo, era uma pessoa muito inquieta, daquelas que se irritam facilmente no trânsito. Tinha virtudes e defeitos como qualquer outro, e podia ser um pouco assustador ou ameaçador para aqueles que não o conheciam. E o que ele mais gostava era de fazer prevalecer as suas opiniões.

Portal: É sempre saboroso e desafiador falar de João Saldanha. Vou subverter a lógica: em vez de falarmos logo sobre João e o futebol, gostaria de saber como era o João na política. Como foi o início desse engajamento?

Saldanha: Meu pai nasceu no início do século passado, no Rio Grande do Sul, em meio a guerras. O meu avô era político e teve que se exilar no Uruguai. Nos anos 1930, ele veio para o Rio de Janeiro e se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). A partir daí, iniciou-se o seu engajamento na política. Meu tio Aristides, irmão mais velho dele e seu ídolo, teve grande influência nisso. O meu pai levava uma vida despreocupada com relação a dinheiro. Era filho de fazendeiro político rico, muito rico. Interessante como uma pessoa com origem tão abastada veio a assumir um posicionamento socialista. Ele poderia ter sido como a maioria dos capitalistas, com uma visão menos harmônica e homogênea da sociedade. Talvez pelo fato de ter convivido com a violência desde cedo, no Rio Grande do Sul, e de ter atravessado situações críticas na vida, ele se encantou com a possibilidade de um mundo mais justo. Penso que, se fosse vivo, estaria desesperado. 

Portal: Toda essa esperança de uma sociedade mais justa vinha de um forte sentimento de patriotismo?

Saldanha: Eu não diria que ele tinha um sentimento muito patriota. Defendia, sim, seus direitos como cidadão. Mas não se adequa propriamente à imagem de um patriota. Talvez tenha sido um expatriado, pela maneira como foi perseguido. Era um grande comunicador de massas, que não se restringia ao futebol. Tinha uma comunicação muito ampla, sempre com argumentações políticas. Tanto que o cerne da exposição, apesar de permear o futebol, apresenta uma perspectiva política, de um homem que não se intimidava em dizer o que pensava. Isso o caracterizou como um personagem, como uma personalidade, na história do futebol, do jornalismo e da cultura brasileira. 

Portal: Como o João parou no futebol?

Saldanha: Meu pai sempre teve uma ligação forte com o futebol, desde a época em que morava no Sul. Já no Rio, jogou no amador do Botafogo, mas a política o fez abandonar os gramados. No entanto, continuou jogando bola na praia, no time do Neném Prancha, com o Heleno de Freitas (ex-craque alvinegro). Acabou retornando para o Botafogo como técnico, depois de rápida passagem como dirigente não remunerado.

Portal: Em 1969, ele foi convidado a ser técnico da seleção brasileira. Na época, João Havelange, presidente da CBD, alegou que o contratou na esperança de que os jornalistas fizessem menos críticas à seleção. Como Saldanha reagiu a essa justificativa?

Saldanha: O meu pai, creio, não ligou muito para essa afirmação, tanto que continuou a ser jornalista. Mas isso enfureceu um outro jornalista, o Armando Nogueira, que era amigo dele e também botafoguense. O Armando questionava o fato de o meu pai ser técnico e poder escrever sobre futebol. Eu não vejo problema, uma vez que ele conseguia conciliar as duas coisas.

Portal: Até hoje, a saída de João – por razões políticas – daquele escrete de feras é cercada de controvérsias. Que fatores conspiraram para que ele deixasse? Como foi a participação do ex-presidente Médici?

Saldanha: Bom, em primeiro lugar, é necessário destacar o fato de que existe um apelo para tentar desviar a história para o caso do Pelé, o que só deixa tudo mais complicado. Acredito que o João Saldanha se meteu num grande jogo político. Ele sempre defendeu e lutou pelo espaço dos jogadores. O Pelé havia tido uma série de problemas financeiros e se meu pai, em algum momento, cogitou tirar o Pelé, foi porque isso se fez realmente necessário. Em outras palavras, o Pelé precisava resolver algumas questões particulares e essa foi a forma que ele encontrou de, abertamente, tentar solucionar o problema. Isso, porém, veio a enfraquecê-lo na seleção. Quando aconteceu o episódio com o Dario, no qual o ex-presidente Médici havia mandado o recado de que ele teria que ser convocado, meu pai se negou a fazê-lo e foi decretada a sua saída. Daí ele disse aquela famosa frase: “Eu e o presidente temos muitas coisas em comum. Ambos somos gaúchos, gremistas, gostamos de cavalo e de futebol. Então fica dito. Nem eu escalo o ministério dele e nem ele o meu time”.

Portal: Depois da saída dele, o Zagallo assumiu a seleção e a levou ao tricampeonato mundial, numa memorável campanha. Na sua opinião, qual o peso de Saldanha nessa conquista?

Saldanha: Não podemos negar os méritos do Zagallo, mas meu pai teve o grande mérito daquela conquista. Aquele time, que tinha como base os jogadores de Botafogo, Santos e Cruzeiro, já estava montado, com um entrosamento de meses. Qualquer técnico que tivesse entrado ali não alteraria o time que meu pai havia armado. Apesar de tudo, acredito que o maior mérito do meu pai nessa história toda foi que, a despeito das diversas tentativas de afastá-lo da cena, ele não largou o osso. No dia seguinte à saída da seleção, ele já estava contratado por rádio, tevê e jornal, e fez uma viagem maluca para chegar ao México, uma vez que não podia pisar nos Estados Unidos. Fato é que ele pôde comentar sobre o time que havia preparado. Acredito que, na história do futebol brasileiro, esses tenham sido os comentários mais espetaculares já vistos, porque vinham de quem tinha estado ali dentro, que conhecia tudo tão bem ou melhor do que as pessoas que faziam parte da comissão técnica. Dizem as más línguas que os integrantes da comissão técnica, que ficavam na boca do túnel no campo, ouviam os comentários dele durante o intervalo para depois passar as informações.

Portal: No mundo do futebol, João tornou-se também folclórico. Num dos casos mais polêmicos, ele teria sacado uma arma contra o goleiro Manga, do Botafogo, no Jantar da Vitória. O que de há de verdade e o que há de lenda nessa história?

Saldanha: A história do Manga foi a seguinte: ele estava comprado pelo bicheiro Castor de Andrade, patrono do Bangu, para engolir uns frangos e prejudicar o Botafogo. Porém, isso tudo foi descoberto e meu pai, obviamente, não deixou quieto. Agora, essa história de sacar uma arma e dar tiros, eu acho isso tudo muito barra pesada. Confesso que, quando me lembro disso, sinto até uma certa vergonha, porque isso não é o melhor o caracteriza: uma imagem machista que o potencializa, um vigor, uma forma de dizer “ninguém me enfrenta”. Foi assim que surgiu o apelido, dado pelo Nelson Rodrigues, de João Sem Medo. Acho que ele era melhor com as palavras do que com qualquer tipo de violência. Na minha opinião, ele perdia um pouco a razão quando partia para a violência.

Portal: O Saldanha tinha fama também de ser um grande contador de histórias. Ele contava histórias para você?

Saldanha: Ele era mesmo um grande contador de histórias! Lembro que, desde pequeno, ele já me contava histórias, às vezes reais, outras fictícias. Variavam desde passagens da infância no Sul até situações políticas ou casos do futebol. Também podiam ainda ser simplesmente histórias que inventava. Meu pai procurava não passar as coisas muito mastigadas para as pessoas. Então, mesmo quando queria transmitir uma mensagem, essa vinha por meio de uma história. E aí cabia ao ouvinte dar a própria interpretação.

Portal: Agora aquela pergunta inevitável: o que Saldanha pensaria do nosso futebol atual?

Saldanha: Suponho que ele continuaria a contestar os meios lucrativos que envolvem o futebol: todas essas transações milionárias, que atingem meia dúzia de jogadores, enquanto outros passam fome. Há crônicas em que ele já anunciava esse poder de mercado. Não se opondo, mas pontuando o fato de que os nossos expoentes, pelo talento que existe aqui para esse esporte aliado ao desejo de enriquecer rapidamente, iriam, cada vez mais e em número maior, jogar no exterior. As críticas que ele fazia seriam as mesmas de hoje, e estariam focadas nas questões sociais, nesse desequilíbrio. Porque poucos têm muito e muitos têm pouco. Esta foi uma perspectiva que, sem me dar conta, herdei do meu pai. Talvez daí a forma como hoje concebo essa exposição.

 

O Rio respira futebol

Parque da Bola

Montado no Jockey Clube Brasileiro (Praça Santos Dumont, 31, Gávea), o espaço aberto diariamente, das 12h30 às 21h30, reúne exposições, brincadeiras, shows, comidas típicas de países participantes da Copa, telões, pista de dança e até uma roda-gigante. Acolhe também parte da exposição A Bola, desenvolvida pelos estudantes do curso de Publicidade da PUC-Rio. O Parque da Bola segue até o último dia do Mundial, 13 de julho. Entrada: R$ 30 (inteira).

Sede do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio (CREA-RJ)

A exposição Tecnologia, Futebol e Arte traz ilustrações do artista plástico Mayo Ornelas, que retratou 15 craques da historia do futebol nacional, além de caricaturas de todos os jogadores da seleção brasileira. Pode ser visitada até o dia 16 de julho, de segunda a sexta-feira, das 11h às 17h, na Rua Buenos Aires, 40, 2° andar, Centro.  Entrada gratuita.

Museu internacional de Arte Naif do Brasil (MIAN)

Em cartaz desde 10 de maio de 2014, a exposição Futebol, paixão brasileira apresenta 26 quadros retratando um dos temas preferidos dos artistas naifs. O visitante tem, até 31 de agosto, a oportunidade de descobrir o futebol colorido, divertido e ingênuo destes pintores.  O museu fica na Rua Cosme Velho, 561, e funciona de terça a sexta, das 10h às 18h; e sábado e domingo, das 10h às 17h. Entrada: R$ 12 (inteira)

Shopping Nova América

A exposição Brasil: um país, um mundo reúne, no estacionamento do Shopping Nova América (Av. Pastor Martin Luther King Jr, 126, Del Castilho), cinco camisas usadas por craques em passagens históricas da seleção brasileira. Segue até 14 de julho, de segunda a sábado, das 10h às 22h; e aos domingos, das 14h às 20h. Entrada gratuita.

Casa Daros

Na instalação interativa Heteropia, a costa-riquena Priscilla Monge recria um campo de futebol no pátio da Casa Daros (a Rua General Severiano, 159, Botafogo). Pode ser vista até 20 de julho, de quarta a sábado, das 11h às 19h; e domingos e feriados, das 11h às 18h. Entrada: R$ 12 (inteira).