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Rio de Janeiro, 29 de junho de 2017


Esporte

Corrupção e fraudes, a bola fora do esporte

Gabriel Camargo, Giovanni Sanfilippo e Igor Novello - Do Portal

24/10/2013

 Maria Christina M. Corrêa

Enquanto a maioria vê a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 apenas como uma forma de entretenimento, os jornalistas Declan Hill, canadense; Rob Rose, sul-africano; e Andrew Jennings, escocês, especializados em fraudes no futebol, buscam o que não se vê dentro dos gramados, quadras e arenas. Os jornalistas estão entre os que investigam as entidades que controlam o futebol no Brasil e no mundo, e vêm denunciando fraudes e esquemas de corrupção.

O escocês da BBC Andrew Jennings e o jornalista da ESPN Brasil Lúcio de Castro já comprovaram a participação de dois dos homens mais importantes do futebol – Ricardo Teixeira, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, e o presidente da Fifa, Joseph Blatter – em esquemas de corrupção.

Quando fala da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, o repórter sul-africano do Sunday Times Rob Rose alerta para problemas que estão se repetindo no Brasil, como estádios construídos onde o esporte não tem apelo. O estádio Green Point, na Cidade do Cabo, custou cerca de US$ 600 milhões e hoje é pouco utilizado pelos times locais de futebol ou de rúgbi. No Brasil, o mesmo pode acontecer com a Arena Amazônia, em Manaus, e a Arena Pantanal, em Cuiabá.

– Na África do Sul foram US$ 2,3 bilhões gastos só na construção e reforma dos estádios. O total passou dos US$ 3,5 bilhões. Era um dinheiro que o país não tinha. E o legado? – questiona Rose, referindo-se aos gastos excessivos que se repetem no Brasil, onde o custo dos 12 estádios para a Copa será de pelo menos R$ 7,5 bilhões, de acordo com o ministro do Esporte, Aldo Rebello, ou de R$ 8 bilhões, 285% mais do que o anunciado pelo governo federal em outubro de 2007, de acordo com o Portal 2014, do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco).

Rose completa:

– A Fifa controla a Copa e as cidades-sede como se fosse Deus, e ainda acredita que temos que ficar gratos por sediar o evento, como se nos fizessem um favor.

O jornalista Lúcio de Castro, da ESPN Brasil, responsável por revelar acordos da CBF que beneficiavam as empresas de Claudio Honigman, sócio e testa-de-ferro de Teixeira, lembra que o bota-abaixo do Maracanã, que era patrimônio histórico tombado, foi feito à revelia da lei e ganhou pouco espaço na mídia.

– Alguns casos, como essa reportagem sobre os problemas na concessão do Maracanã, são abafados. Como foi modificado sem a autorização da Presidência da República? Foi um crime o que aconteceu no estádio, e poucas pessoas ficaram sabendo. Isso só mostra o poder que as empreiteiras têm no Brasil.

 Gabriel Camargo Jennings também realizou investigações sobre os negócios de Teixeira, e escreveu o livro Jogo sujo, onde mostra esquemas de corrupção na Fifa, expondo o ex-presidente da entidade João Havelange, seu ex-genro Ricardo Teixeira e seu pupilo e atual presidente da Fifa, Joseph Blatter. Coincidência ou não, o escocês foi o primeiro jornalista no mundo a ser banido de todas as coletivas de imprensa de Blatter.

– Ninguém questionava, ficavam todos parados ouvindo o que ele falava. Na hora em que perguntei sobre as relações dele com certas empresas, todos se afastaram de mim. Eu era o diferente, não estava igual aos outros robôs engomados. Fui expulso por não ter me comportado como os robôs presentes na sala – responde Jennings.

Mercado ilegal de apostas no futebol cresce e a América Latina é o próximo alvo

O esquema de manipulação de resultados de jogos de futebol, mundialmente conhecido pelo escândalo que foi revelado na Itália em 2006, em breve vai mudar o futebol na América Latina, acredita o jornalista investigativo especializado em corrupção no futebol Declan Hill. Ele defende esta tese em seu livro The Fix – Futebol e crime organizado (2008, não publicado no Brasil), no qual expõe o mercado de apostas ilegais na Europa, que tem, hoje, mais de 700 partidas sob suspeita confirmada de terem tido o resultado alterado.

As apostas que controlam os rumos dos campeonatos na Ásia são o motivo de o futebol asiático não fazer sucesso, também afirma Hill. Por isso as máfias de apostas começaram a investir nos campeonatos europeus, mas o mercado está sendo saturado e pode estar visando alcançar a América do Sul num futuro próximo. A quantidade de dinheiro movimentada pela manipulação de resultados é monstruosa, superando bastante os milhões apostados em cassinos, por exemplo.

Para Hill, “esta história é maior que qualquer outra do futebol. É mais importante que a de João Havelange”, acusado de ter negociado votos na sua eleição para presidente da Fifa, afirmou em palestra da 8ª Conferência  Internacional de Jornalismo Investigativo, na PUC-Rio. Depois de ter citado quantias de tráfico internacional de drogas e de depósitos em ilhas fiscais, ele apontou para frente e indicou que todo o dinheiro movimentado pelas máfias asiáticas de apostas gira em torno de US$ 90 bilhões ao ano.

Diretor do Comitê Organizador do Rio 2016 defende transparência

 Igor Novello A menos de três anos para as Olimpíadas no Rio, o diretor de Comunicação do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos no Rio, Mario Andrada, ele próprio um ex-editor de esportes da Folha de S.Paulo e ex-correspondente internacional do Jornal do Brasil, se compromete a colaborar com a cobertura do evento e com a transparência das informações.

–Nosso compromisso é de ajudar. Temos o compromisso de dialogar e ser transparentes com a informação. Nosso papel não será de dificultar as investigações de repórteres.

Com tantas pessoas e entidades responsáveis pela preparação das Olimpíadas, Andrada destaca a importância da clareza de atribuições das várias partes envolvidas:

– Uma questão importante é a matriz de responsabilidade, quem vai pagar o quê, quem vai fazer o quê. Por exemplo: o governo do estado está com a responsabilidade de fazer com que o metrô funcione. A prefeitura do Rio está cuidando das obras esportivas, como o centro aquático, o centro de tênis, algumas instalações dos Jogos, como a Vila Olímpica. O governo federal tem uma função integradora, tem a função final de pagar as contas que sobraram. Portanto, checará tudo para não pagar o que achar que não merece ser pago. A função do comitê é pagar pela montagem dos jogos: a prefeitura constrói o prédio do velódromo, o comitê constrói a pista, administra a execução das provas de ciclismo, garante que vai ter energia, transporte.

Andrada alega que o orçamento das Olimpíadas ainda não será divulgado “até que a conta feche”, para evitar desgastes como o ocorrido com a Copa, que teve os preços inflados, provocando reações negativas da população. De acordo com o diretor de comunicação, no cenário atual em que a população passou a cobrar mais, inclusive sob influência das manifestações de julho, todo cuidado é pouco:

– Não estamos divulgando agora pois queremos lançar um orçamento que possamos cumprir. Estamos apanhando bastante da mídia agora, mas não vamos chutar qualquer valor que estoure depois.

Andrada destaca ainda que o projeto inicial previa que 31% dos recursos para o Comitê Organizador viriam da Prefeitura, mas agora os custos serão bancados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e pela iniciativa privada, por meio de patrocínios:

– No comitê não entrará verba pública. Nem municipal, nem estadual e nem federal, apesar de ter sido prevista a entrada de 31% de recursos públicos. Dinheiro público federal poderá ser usado depois, no que o governo federal tiver que pagar.

Em relação à cobrança da população na transparência e fiscalização na aplicação de verbas, Andrada estimula a participação:

– Na internet, no nosso portal, o acesso às compras e ao orçamento, quando ele estiver pronto, é público. E, além disso, as portas do comitê estão abertas para visitação. Sobre os papéis da sociedade, esperamos mais do que agentes fiscalizadores. Espero que os brasileiros cumpram o papel de fiscalizadores, de torcedores, de voluntários, de parceiros. É uma festa na nossa casa, e todo mundo tem que ajudar na recepção.