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Rio de Janeiro, 20 de agosto de 2017


Esporte

Como aproveitar a herança da Copa para o nosso futebol

Gabriel Camargo e Lucas Augusto - aplicativo - Do Portal

24/07/2014

 Lucas Sereda

Assim que a partida válida pela semifinal da Copa do Mundo entre Brasil e Alemanha acabou, o tema nos programas esportivos era uma mudança completa na Confederação Brasileira de Futebol. Na semana seguinte ao 7 a 1 aplicado pelos alemães no Brasil, o presidente da CBF, José Maria Marin, anunciou o ex-goleiro e empresário Gilmar Rinaldi como coordenador-geral da Seleção. Na última terça-feira (22), semana em que a seleção chega ao centenário, os dirigentes anunciaram Dunga como técnico, de volta após passagem entre 2006 e 2010. Para especialistas, porém, o futebol brasileiro precisa de muito mais. Possíveis mudanças na gestão e suas estratégias, desafios para manter as novas arenas de forma rentável e garantir a saúde financeira dos clubes são legados esperados do Mundial no Brasil.

Ex-jogador, formado em educação física e administração de empresas com especialização em administração e marketing no esporte, Eduardo Tega, diretor da Universidade do Futebol, aponta para a necessidade de que se adote uma visão mais crítica e profunda sobre o futebol brasileiro e seus caminhos no futuro:

– O que vemos é que sempre foi feito um diagnóstico superficial da realidade do futebol brasileiro, em todas as suas dimensões de atuação, do alto rendimento ao futebol socioeducacional, por exemplo. Um novo plano estratégico para o futebol brasileiro passa necessariamente por uma visão crítica desse diagnóstico, de conhecer profundamente os impactos e mudanças pelas quais o futebol atual, globalizado e complexo, vem passando.

A goleada da Alemanha não representou uma derrota apenas dentro de campo, mas também na administração. De acordo com balanço divulgado pela BDO Consultoria em 2013, as dívidas dos 20 principais clubes brasileiros chegaram a R$ 4,6 bilhões – Só ao governo, os clubes devem R$ 3,3 bilhões–, enquanto na Alemanha, de 2003 a 2013, os clubes dobraram as receitas de 1,1 bilhão para 2,2 bilhões de euros. Aprovada em maio pela Comissão Especial Programa de Fortalecimento dos Esportes Olímpicos (Proforte) da Câmara e em tramitação no Congresso, a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE) obriga os clubes brasileiros a honrar suas dívidas com Receita Federal, INSS, Timemania, FGTS e Banco Central, prevendo sanções aos inadimplentes e fiscalização mais rígida. Pela lei de responsabilidade fiscal, presidentes de clubes só teriam direito a uma reeleição, não poderiam antecipar verbas nem comprometer o período fora do seu mandato.

– Naturalmente não há milagres, uma vez que a saúde financeira é precária. No entanto, os remédios aplicados permitem uma melhoria substantiva logo nos primeiros anos. Os salários dos jogadores terão que ser revistos, e não só os contratos milionários. Todos sabem que é preciso um período de adaptação. Antes ter um ajustamento nos valores dos contratos no país como um todo do que prosseguir nesses falsos ambientes contábeis que só aumentam o bolo da dívida – avalia o deputado federal Otávio Leite (PSDB-RJ), responsável pela proposta.

Outra regra prevista é a apresentação da Certidão Negativa de Débito (CND) um mês antes de cada competição; aqueles que não seguissem a regra seriam punidos com rebaixamento. Ponto que, para o consultor Fernando Ferreira, da Pluriconsultoria, é fundamental quando se fala em fairplay financeiro:

– É preciso forçar os clubes a viver dentro das suas capacidades de pagamento, com punições esportivas aos clubes e aos dirigentes que não as cumprirem. Só comprovar pagamento de salários e tributos não é suficiente. Além disso, limitar o nível de endividamento também seria outra medida bem-vinda.

Em 2013, o governo federal preparou uma Medida Provisória para perdoar as dívidas em impostos dos clubes brasileiros, para que pagassem apenas 10% do que deviam e investissem os 90% restantes em projetos sociais que envolvessem atividades esportivas. O projeto, porém, não foi adiante. Já a LRFE propõe uma situação diferente: os clubes teriam direito de parcelar as dívidas com o governo em até 25 anos, mas não haveria perdão de nenhum débito.

Eduardo Tega, porém, aponta lacunas a serem observadas na lei de responsabilidade, para que haja mudanças efetivas. Para ele, a lei como está “favorece o gestor descomprometido e irresponsável”, uma vez que permite longos prazos de quitação de dívidas e dribles na apresentação da CND, restrita a mês que antecede à competição, e não a todos os débitos anteriores.

– A lei poderia abarcar alguns pontos fundamentais para auxiliar no desenvolvimento de atletas nas categorias de base, pressionar a CBF a melhorar este ambiente, mexer no calendário, adotar o fair play financeiro, além de responsabilizar o gestor que realmente quer contribuir com seu clube e fazer a coisa certa. Dessa forma, sim, será um grande avanço – defende Tega, para quem a presidente Dilma Rousseff tem papel fundamental na criação de mecanismos de controle: – Uma vez financiada a dívida dos clubes, o governo deve criar instrumentos que imponham responsabilidades aos gestores.

Tega lembra que em 2003, quando a Universidade do Futebol começou, os participantes do grupo já acenavam com a necessidade de mudanças no esporte; porém, como o Brasil havia acabado de conquistar o quinto título mundial, as reinvindicações foram abafadas.

– De alguma forma, esses cinco títulos mundiais jogaram para baixo do tapete mudanças necessárias e correções de rumo que precisávamos fazer nas últimas décadas e que não foram feitas. Agora sentimos o reflexo muito direto dessa falta de visão estratégica.

Mudanças também para o torcedor

 Maria Christina Corrêa Muito se fala no legado deixado pela Copa do Mundo para as cidades que receberam jogos do torneio, como aeroportos, rodovias, transporte público, modernização do acesso aos estádios. A principal mudança de padrão dos estádios construídos e reformados para o Mundial, de acordo com pesquisa da PluriConsultoria, é o valor do ingresso: do Campeonato Brasileiro de 2002 – quando o item começou a ser medido – até o deste ano, aumentou em 478,1%. Hoje, para um torcedor ir ao estádio em um jogo da Série A do Brasileirão, o preço médio do ingresso é de R$ 51,74, enquanto há 12 anos era de R$ 8,95. Diretor da empresa de consultoria, Fernando Ferreira destaca que apenas estádios reformados não serão suficientes para atrair o torcedor:

– O parque de estádios brasileiros foi reformado, e hoje é um dos melhores do mundo, o que é condição básica, porém, não determinante para a volta dos torcedores. Violência, preços dos ingressos, qualidade dos jogos precisam ser abordados. Estádios cheios valorizam o espetáculo como um todo, atraindo interesse de parceiros comerciais, patrocinadores, dos torcedores e até dos jogadores. Nada desvaloriza mais um espetáculo do que a falta de público.

Novidade não vai superar falta de qualidade de jogos, diz

Pesquisador de mídia e megaeventos, o professor da Uerj Ricardo Freitas afirma que, por conta deste novo padrão oferecido pelos estádios e arenas, o esporte começa a se tornar um produto, e a elitização acaba sendo consequência deste processo. Maria Christina Corrêa

– A palavra é consumo. Não diria que a intenção é apenas tirar o “povão” do estádio, mas a ideia é transformar o futebol em um produto a ser consumido, e o que é mais sofisticado é mais caro. É uma consolidação do esporte como produto, portanto acontece uma elitização, já que conta com aparelhos mais sofisticados e que torna a mercadoria mais cara. A esperança que tenho para o futebol nacional são os estádios que não foram utilizados durante a Copa e que pertencem aos clubes, já que, pelo menos por um tempo, vão manter a sua cultura de torcida, como São Januário, por exemplo.

Eduardo Tega, por sua vez, acredita que a média de público nos estádios será um pouco mais elevada em função do fator “novidade”, já que muitas pessoas não tiveram a oportunidade de ir durante a Copa, por exemplo. Porém, não vê manutenção deste crescimento em médio e longo prazo, e aposta em um maior investimento na capacitação dos profissionais no futebol brasileiro para mudar o que acontece em campo e que, para ele, é fundamental para atrair o público.

– A qualidade do jogo ainda não é suficiente para gerar público nos estádios. A qualidade do nosso futebol é proporcional à queda de público nos estádios. Em termos mundiais, somos o 18º quanto à média de público, atrás da Austrália, dos Estados Unidos e da segunda divisão da Inglaterra. E completa: – Outro fator é a forma como tratamos os espetáculos. A Copa foi um grande exemplo de como podemos tratar de forma respeitosa o torcedor, como levar mais gente aos estádios, levar famílias e mais atrações para que o público alvo seja realmente tratado com respeito. E isso vai depender mais uma vez do que é apresentado dentro de campo.

Para Ricardo Freitas, o maior benefício deixado pelo Mundial foi a politização do cidadão, que criticou os altos investimentos mas soube ser bom anfitrião. Porém, para o esporte em geral, diz, vale o alto padrão dos novos estádios.

– Tem um lado positivo que é o fato de estarmos em um patamar internacional, de poder receber qualquer competição, porque agora nós temos estádios com acessibilidade e conforto de padrão internacional. Por outro lado, estive em um jogo no Maracanã durante a Copa do Mundo e, mesmo orgulhoso da organização em geral, é uma coisa contida, é um padrão do Hemisfério Norte: em vez de gritar, as pessoas aplaudem. É outro padrão de comportamento.

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