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Rio de Janeiro, 23 de maio de 2017


Esporte

Caiu o técnico: treinadores comentam sobre rotatividade

Sofia Miranda* - aplicativo - Da sala de aula

23/07/2014

 Luiz Pires/Vipcom

No futebol brasileiro, quando a equipe não demonstra bom desempenho em campo, há quem pague o pato. Jogadores são vaiados e torcedores cobram reforços dos dirigentes. A maior responsabilidade, porém, recai sobre a figura imponente de um time durante uma temporada: o treinador. O técnico tem a missão de reger um grupo de 30 atletas, e a tarefa não é fácil. Esta semana, a vítima foi Ney Franco, demitido do Flamengo e substituído por Vanderley Luxemburgo, que assume o cargo pela quarta vez.

Em um ano, a lista de técnicos demitidos em clubes brasileiros é grande: mais de 150 comandantes foram obrigados a deixar seus cargos. No ano passado, 20 treinadores foram mandados embora durante a disputa do Campeonato Brasileiro. Na competição nacional deste ano, o fenômeno da rotatividade assusta. Já na primeira rodada, o Atlético-MG trocou Paulo Autuori por Levir Culpi. Na segunda, Criciúma e Figueirense realizaram mudanças. Depois foi a vez do Palmeiras: Gilson Kleina, já desgastado no comando do time, deu lugar ao interino Alberto Valentim, que já perdeu o posto com a chegada do treinador argentino Ricardo Gareca. Não parou por aí. Vitória, Flamengo, Atlético-PR e Chapecoense de novo trocaram seus treinadores.

De Jayme a Ney: troca nebulosa

Antes desta, a demissão que mais chamou atenção na mídia esportiva foi a de Jayme de Almeida do Flamengo, após a derrota por 2 a 0 para o Fluminense, no grande clássico carioca. O treinador, campeão da Copa do Brasil pelo clube em 2013 e do Campeonato Carioca em 2014, vinha sofrendo críticas por atuações ruins do time e pela eliminação na Taça Libertadores da América, em abril. Apesar das oscilações do comandante, sua derrocada abriu precedentes para discussões entre torcedores e profissionais dos meios de comunicação esportivos.

No lugar de Jayme, assumiu Ney Franco, velho conhecido da torcida rubro-negra. Na época, a contratação não agradou muito aos torcedores. Em 2006, ele deixou o modesto Ipatinga para ser campeão pelo Flamengo, da Copa do Brasil. Mesmo com o título, a torcida manteve a implicância. A insistente escalação do volante Jaílton, por exemplo, irritava os torcedores. Novamente no comando da equipe, Ney mantém uma postura firme, apesar de resultados insatisfatórios, e segue fiel ao seu estilo de trabalho.

– Naquela época, a torcida não entendia que existem jogadores importantes taticamente para a equipe, como era o Jaílton. Nós, treinadores, sabemos que, se tirarmos aquele cara do campo, alguma coisa vai ficar desequilibrada. Hoje está sendo muito difícil. O clima no vestiário depois do jogo contra o Figueirense foi horrível. O trabalho terá que ser reconstruído, teremos que começar do zero. Temos que mudar a mentalidade do time e também o aspecto físico. Estamos sendo atropelados. Deixamos de ser o time que atropela para ser atropelado – disse Ney após a contundente derrota por 3 a 0 para o Cruzeiro.

No México também tem

A rotatividade intensa de técnicos no Brasil é notável, mas, em países da América Latina, o fenômeno também ocorre. Se, no início de abril, Jayme ainda se mantinha aos trancos e barrancos no comando do Flamengo durante a campanha na Taça Libertadores, o treinador Gustavo Matosas, do León, vivia uma situação conturbada no clube do México. Quatro dias antes de enfrentar o rubro-negro pela última rodada da fase de grupos da Libertadores, após sua equipe empatar por 1 a 1 com o Querétaro, em casa, pelo campeonato nacional, Matosas chegou a dizer que estava “por um fio” na equipe celeste.

– Se meu ciclo por aqui ainda não acabou, está perto de terminar. Estamos em crise, a situação não é boa. Quando isso acontece, só conheço duas maneiras de procedimento: ou reforçam a equipe, ou demitem o técnico. Esse é o jeito – afirmou Matosas.

O técnico foi do inferno ao céu, quatro dias depois, quando o León conseguiu uma emblemática vitória sobre o Flamengo, por 3 a 2, diante de um Maracanã lotado, e se classificou para as oitavas de final da Libertadores. Com o semblante completamente mudado, Matosas disse que se sentiu respaldado pelos seus jogadores.

– Estou muito contente pelo bom jogo que fizeram os meus jogadores. O time fez parte do espetáculo, atuou com seriedade, não se jogou no chão. Jogou um verdadeiro futebol. Nós ganhamos bem contra um grande time, que tem um grande treinador e uma torcida impressionante. Fomos superiores. O mais importante é a união que tem esse grupo. Eu sou um cara exigente, muito exigente. Se o jogador cumprir essas exigências, o time vai ganhar, não tem jeito. E eu sempre me sinto respaldado pelos jogadores – ressaltou após a vitória.

Após uma derrota contundente, dificilmente o treinador porá a culpa em seus jogadores – Luiz Felipe Scolari, na vexatória derrota da Seleção na Copa, ficou entre chamar a si a responsabilidade e atribuir o 7 a 1 a um “apagão de seis minutos”. Ele vai assumir que o erro foi coletivo, e vai prometer uma conversa séria com “os seus meninos”, como muitos falam. Às vezes, não há jeito. A solução que a diretoria dos clubes encontra para atenuar as cobranças da torcida é a demissão do técnico.


Legados deixados sem rancores

A mudança de um técnico para outro nem sempre deixa ressentimentos. Às vezes, o próprio treinador está saturado e quer vivenciar novas experiências, em outro estado, com outro clube. Foi o caso de Adilson Batista (na foto com Pedro Ken), atualmente no Vasco da Gama, quando comandava o Cruzeiro. Em 2009, ele fez uma boa campanha com a equipe celeste e conseguiu a classificação para a Libertadores da América do ano seguinte. Em junho de 2010, porém, anunciou sua saída do clube mineiro. Chegou a ser alertado pelos dirigentes de que deixaria seu trabalho feito “para outro colher os frutos”. Divulgação Marcelo Sadio

– Eu estava lá há dois anos e sete meses, e a diretoria me perguntou: “Você vai deixar o seu trabalho, o seu conhecimento, as coisas que você fez para outro colher os frutos também”. Na ocasião, era Cuca, que foi vice-campeão do Campeonato Brasileiro. No ano seguinte, foi o primeiro colocado na Libertadores. E eles tinham razão. Você conhece, prepara, vai sendo pontual, vai encaixando os atletas, fazendo contratações que entende que o clube precisa, vai diminuir a margem de erros com atletas que você já viu que não vão render o que você espera... Eu acho que o pensamento dos dirigentes foi correto. Nós temos que ter discernimento, quem comanda o time tem que ter uma responsabilidade. Eu confesso que vamos aprendendo com o tempo. Você acaba percebendo situações que são benéficas ou não para a sua profissão – explica Adilson.

Sofia Miranda  O legado deixado por outros treinadores muitas vezes influi no trabalho do atual comandante da equipe. As heranças aproveitadas por Cristóvão Borges, no entanto, não foram as do ex-técnico, Renato Gaúcho, e sim de outro que foi embora do clube no início do ano passado: Abel Braga. O campeão brasileiro de 2012 pelo tricolor, hoje no Internacional, é enaltecido pelo companheiro.

– O Abel montou um time do Fluminense de alta qualidade, de muita técnica. E é a mesma coisa com o Inter. Com todas as equipes dele, é sempre assim. O time joga com toque de bola, com identificação do nosso futebol brasileiro. O Fluminense que eu peguei é desse jeito, foi vitorioso assim, com a equipe dessa maneira. Ele está fazendo a mesma coisa no Inter agora. É um treinador que procura jogar à brasileira, sempre privilegiando a técnica. Essa é a marca que ele deixou nesse grupo – afirma Cristóvão, que passou de interino a técnico do Vasco em 2011 e deixou o clube na metade de 2012, projetando-se de forma positiva no mercado.


Europa afora: lendário Ferguson

Contrapondo-se à intensa rotatividade de técnicos no Brasil, pode-se ressaltar o caso do lendário – como é considerado pelos Diabos Vermelhos – Alex Ferguson. O ex-jogador escocês bateu todos os recordes no Manchester United, da Inglaterra, e comandou a equipe por 26 anos. O número impressiona. Consumado como ídolo incontestável do clube, com muitos títulos na bagagem, ele se aposentou em 2013.

Seu sucessor, David Moyes, não teve o mesmo sucesso e protagonizou uma das piores temporadas vividas pelos Red Devils. A aposta do Manchester foi em Ryan Giggs, jogador que se aposentou dos gramados, mas permaneceu nele: tornou-se técnico do time que tanto conhece, porém, obteve pouco sucesso na função. Continuou na comissão técnica. No entanto, foi substituído pelo holandês Louis van Gaal.

Os exemplos duradouros de técnicos frente às equipes não são muitos, até mesmo fora do Brasil. Pela Juventus, da Itália, Antonio Conte pretende criar laços mais fortes com o time de Turim, onde está desde 2011. Foi campeão italiano pelo clube, na temporada 2013/2014, e mostrou que tem a confiança da diretoria e da torcida, ao assinar a extensão de seu contrato até o fim de 2015. Conte mostra um lado mais estável do futebol, mas casos como o de Ferguson nos Red Devils são extremamente improváveis na atualidade do esporte.

* Reportagem produzida para o Laboratório de Jornalismo.