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Rio de Janeiro, 24 de outubro de 2017


Esporte

Analistas propõem reformulação dos campeonatos e nova tática de preço para reconquistar o torcedor

Viviane Vieira e Júlia Cople - aplicativo - Do Portal

09/04/2014

 Arte: Lucas Sereda

Sinônimo de tardes perfeitas movidas a futebol e emoção, o renovado Maracanã manda, nesse início de temporada, um recado nada compatível com sua história e suas histórias. Avessos ao imaginário no qual pulsa a arquibancada cheia de cores e vibrações, os números apontados por estudo da Pluri Consultoria confirmam a debandada não só no Carioca, mas nos campeonatos estaduais país afora. A taxa média de ocupação dos estádios ficou em 26% no ano passado, com público médio de 4,6 mil torcedores. Embora o volume total até tenha crescido (1%) em relação a 2012, os torneios regionais amargaram queda de 9%, 2,5 mil espectadores por jogo. Com média de ocupação de 8% e média de público de 2,3 mil pagantes, o Estadual deste ano, que será decidido por Flamengo e Vasco no próximo domingo, mostra-se ainda mais esvaziado. Inacreditáveis 375 pagaram para ver o Flamengo bater o Bonsucesso por 2 a 0 no Raulino de Oliveira, em Volta Redonda. Na primeira semifinal entre Vasco e Fluminense (1 a 1), o Maracanã somou menos de 10 mil espectadores. Exemplos eloquentes de que, como diria Caetano, alguma coisa está fora da ordem no reino do futebol brasileiro.

A retranca dos torcedores decorre, segundo analistas em gestão e marketing esportivo, de um conjunto de dificuldades ao acompanhamento do futebol nos estádios: preço incondizente com a qualidade do "espetáculo"; diversidade de horários, o que confunde o consumidor; mobilidade precária nos centros urbanos; fantasma da insegurança, por conta de brigas em áreas próximas aos estádios, grante parte delas hoje marcada pela internet. Ainda de acordo com especialistas, a falta de união entre os clubes grandes e a Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj) e a interferência política nas decisões esportivas também contribuem para afastar o torcedor. Eles propõem repensar a política de preços – decidida pelos clubes; romper de vez as relações com torcidas organizadas; reformular o calendário do futebol brasileiro, em especial dos estaduais, para um formato mais “nacionalizado” e “microregionalizado”, com maior fase de preparação para os times grandes e mais jogos ao longo do ano para os pequenos.

Entre as justificativas dos torcedores para o sumiço dos estádios, sobretudo no Campeonato Carioca, a que mais ecoa remete ao preço dos ingressos. De acordo com levantamento da Pluri, o valor dos bilhetes subiu 300% em dez anos, enquanto a inflação do período foi de 73% e o aumento do salário mínimo, de 183%. O universitário Eduardo Bruno costumava ir aos estádios uma vez por semana antes do fechamento do Maracanã para as obras da Copa, em 2010. A frequência caiu para uma vez por mês. Ele culpa o "alto custo":

— Você percebe que o futebol envolve muito mais que a paixão. Hoje o dinheiro impera. Vamos supor que o pai, a mãe e um filho vão ao jogo. Gastam em torno de R$ 75 a R$ 240 com os ingressos, uns R$ 30 para beber algo ou fazer um lanche, fora outros gastos, como com estacionamento e gasolina, se forem de carro. Sai caro, se considerarmos a qualidade em geral baixa das partidas – argumenta o torcedor do Vasco

Na avaliação do sócio-diretor da Pluri Consultoria Fernando Ferreira, quando "o produto não está vendendo", tem-se um problema da qualidade do produtou ou do preço pedido pelo produto com essa qualidade. Uma lógica que, segundo ele, o futebol brasileiro “se recusa a aceitar”. Com restrições de tempo e dinheiro, e diante de alternativas diversas de entretenimento, Ferreira vê o torcedor “claramente desinteressado por aquilo que lhe é oferecido”.

O "mais razoável, em vista do produto", pondera o professor de marketing esportivo do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio Luiz Léo, seria "repensar a precificação" e estabelecer uma política mais acessível, até para ganhar receita a partir da quantidade de consumidores. O diretor-executivo do Volta Redonda, Adriano de Souza, argumenta que "a questão não pode ser resolvida de imediato":

— Não podemos reprecificar, porque o mínimo a ser cobrado já está estabelecido. Estamos presos ao limite combinado previamente entre os clubes e a Federação.

Em reunião no iníicio do ano, clubes e Federação decidiram que o ingresso para os jogos entre equipes de menor expressão seria de R$ 20 (inteira) e nas partidas com os grandes o valor subiria para R$ 40. O assessor de comunicação do Audax Rio, Diego Carvalho, diz que é difícil discutir esses valores, porque “precisa ser uma negociação interessante e democrática para todos”.

A Federação lembra, por mensagem eletrônica, que os clubes têm liberdade para decidir o preço dos ingressos na reunião do Conselho Arbitral. Com os debates marcados para depois da Copa, acrescenta a nota, os setores envolvidos na precificação "devem colocar o valor do ingresso próximo à realidade do torcedor".

Carvalho observa que o volume relativamente alto de meias-entradas e isenções de pagamento pressiona para cima o preço. Ele espera que os gestores privados e públicos consigam resolver essa particularidade que “tira o valor do futebol e de outros tipos de entretenimento”.

 Infográfico: Lucas Sereda Léo explica que o aumento dos ingressos deriva do compromisso orçamentário “cada vez mais alto” das instituições esportivas, cuja estrutura, diretoria e elenco exigem mais investimento para competições de ponta. Neste contexto, ele considera natural que os ativos explorados pelos gestores sejam os ingressos, mas defende o equilíbrio das cotas de arrecadação:

— Em qualquer lugar estruturado do mundo, as receitas com ingresso, com direitos de transmissão, de propriedades comerciais e de patrocínio são equilibradas. No Brasil, temos a dependência da cota da tevê. As demais são mal exploradas. O aumento (dos ingressos) pretende equilibrar essa conta, atender um cenário profissional mais caro e equacionar dívidas acumuladas por outras gestões.

Já a anistia de passivos tributários gigantescos, como querem os clubes em longas negociações com a Receita, não é uma manobra interessante na opinião do professor. Embora reconheça que a liberação dessas dívidas ajudaria a reduzir a pressão por arrecadações superiores, o que se reflete em ingressos mais salgados, ele prega a responsabilidade fiscal como um caminho para o saneamento administrativo dos clubes e a gestão efetivamente profissional, com melhor aplicação dos recursos e cumprimento dos compromissos trabalhistas.

— Considero um absurdo anistiar. Eles estão devendo tributos. A administração vigente tem que honrar o passado. O esporte traz benefícios para a sociedade, mas tem responsabilidades. A anistia tem potencial de resolver parte do problema. Mas, se o gestor não se tornar responsável, o dinheiro continuará sendo mal aplicado — alerta.

A equalização entre preço e produto, acrescenta Léo, passa pela melhora da qualidade do "espetáculo", o que, ainda de acordo com o especialista, exige ações de longo prazo. O estudante de Engenharia Bruno Menna, que morou uma temporada da Europa, ressalva que na Inglaterra, na Alemanha e na Espanha, os bilhetes são mais caros que os brasileiros e, mesmo assim, "os estádios lotam". Ele conta que hoje "comparece às arquibancadas só uma ou duas vezes por ano”, menos por conta do preço dos ingressos do que pela "baixa qualidade técnica dos jogos". Este fator, no fim das contas revela-se preponderante na avaliação de Fernando Trevisan, presidente da Trevisan Gestão do Esporte e diretor-geral da Trevisan Escola de Negócios:

— O torcedor não fica atraído para ir num jogo em que a qualidade não será interessante. O calendário do futebol brasileiro é o único no mundo que tem estaduais, que espremem o torneio nacional com excesso de jogos ao longo do ano. Com isso, aumenta a quantidade de jogadores lesionados, os clubes incham seus elencos por jogarem mais de uma competição e aumentam o custo com a folha de pagamento. Tantas partidas não cabem tampouco no bolso mensal do torcedor, que acaba priorizando alguns, e a média de público cai.

Especialistas sugerem calendário nacionalizado, mais inclusivo

Ferreira observa uma “decadência do futebol praticado no Brasil”. Na seleção, uma “marca poderosíssima” e uma das principais equipes nacionais do mundo, exemplifica, os talentos jogam no exterior, onde há nível de competição diferente, com aprimoramento tático e técnico. Aqui, contrasta, tem pouca bola corrida, pouco passe. Para ele, o desinteresse em ir aos estádios é intensificado pelo efeito comparativo aos olhos do torcedor.

— Hoje temos tevê a cabo e televisionamento de campeonatos europeus. É sintomático que o Jornal Nacional faça matérias sobre o confronto entre Barcelona e Manchester City e o Galvão Bueno cubra a Liga dos Campeões, não o Campeonato Brasileiro. A infraestrutura dos estádios melhorou com o advento da Copa, mas o conteúdo em si não atrai.

O sócio-diretor da Pluri vê nos estaduais o “ponto agudo” dessa decadência. Segundo estudo da consultoria, a média de ocupação dos estádios em competições locais anda em 21%. Nas regionais, sobe para 39% e nas internacionais, para 60%. Ainda segundo a pesquisa, até o Brasileiro da série D (1.832 espectadores por jogo) apresenta frequência superior às de 14 dos 26 estaduais analisados. Na visão do especialista, quem defende que os torneios locais “têm seu charme não são aqueles que pagam a conta”. Ferreira admite que os estaduais tenham “no máximo dois meses”, uma medida, segundo ele, “paliativa”:

— Hoje os clubes olham para a Libertadores com mais vontade do que no passado. Abandonam o Estadual, botam sub-23, time misto. Esses novos momentos indicam desgaste e desprestígio dos torneios locais — acrescenta. 

Devido à dimensão continental brasileira, sugere Luiz Léo, há de se suprir uma tradição de campeonatos locais. Mas a grade desses torneios, constata, é "muito carregada", e formulada sem o tempo de preparação das equipes grandes, o que “provoca um espetáculo ruim”.

Para Ferreira, é preciso também qualificar os times menores, de maneira a diferença "brutal" em relação aos grandes, "principalmente no Rio e do Rio Grande do Sul". Neste sentido, Léo considera “a única chance de salvar as competições locais” a mudança no modelo de participação dos clubes grandes, com entrada só na fase final da competição. Analistas consideram igualmente importante opções para tornar o calendário do futebol nacional mais inclusivo, para evitar a ociosidade dos pequenos em boa parte do ano. O professor da PUC-Rio propõe um finaciamento específico:

— Hoje existe no Rio, para os clubes que não têm calendário, a Copa Rio. Uma competição pequena, com clubes sem expressão. É um caminho. São dadas atividades a esses clubes, eles recebem dinheiro da tevê, patrocínio e se mantém ativos. É preciso mais investimento, mas ninguém quer investir nisso, porque não tem visibilidade. Essa conta precisa ser dividida com o poder público. Se o esporte é uma coisa importante para o Estado, se há incentivos para o esporte, por que não criar um mecanismo de financiamento para isso? Não é dar mais um benefício, é distribuir democraticamente as receitas de empresas públicas de publicidade e propaganda, como a Caixa.

 Infográfico: Lucas Sereda A estudante de Jornalismo Aline Ventura, que costumava a frequentar “praticamente todos os jogos antes de o Maracanã fechar” e hoje vai às arquibancadas duas ou três vezes por mês, percebe um esgotamento do formato dos estaduais e aposta no incentivo aos clubes menores para um campeonato mais atraente:

— O ideal seria que os times menos tradicionais recebessem mais apoio, especialmente financeiro, para desenvolver seus projetos e, assim, fossem capazes de diminuir a disparidade em relação aos grandes. Assim o torneio ficaria mais atraente, mais valorizado.

Uma alternativa intermediária, na avaliação de Ferreira, seriam campeonatos regionais como Rio-São Paulo e Sul-Minas. Eduardo lembra o sucesso da Copa Nordeste, iniciada no ano passado. Para o estudante, a Copa Sudeste seria uma "boa fórmula", para incluir os times de Minas.

Ferreira afirma ser inevitável nacionalizar o calendário, com um “microregionalização” instituída em meio à hierarquia de divisões. Primeira Divisão nacional, Terceira regional, Quinta municipal, exemplifica, até para não impor custos com o deslocamento das equipes. Desta forma, "colocaria-se os 550 times do Brasil para jogar o ano inteiro, como na Inglaterra, que tem 18 divisões, e na Alemanha, que tem 11".

Na conjugação de esforços para melhorar a qualidade do jogo e, assim, aguçar o apetite do torcedor, Léo inclui mais atenção às categorias de base. O futebol brasileiro, argumenta, vem perdendo a essência técnica: o incentivo ao talento individual, “que sempre foi nossa característica”, vem sendo substituído pela disciplina tática, à luz da universalização dos sistemas de treinamento”. O objetivo na base, na opinião do professor, não deveria ser ganhar, mas sim formar jogadores, o que aponta para a necessidade de estender o calendário das equipes menores, em busca de revelações nas outras divisões de futebol.

Sócio-torcedor: receita mais estável, mas "gera constrangimento à reprecificação"

Segundo estudo realizado pelos pesquisadores da Trevisan Gestão do Esporte Gabriel Leiva e Bruno Cosenza, os programas de fidelização do torcedor dos clubes brasileiros receberam 88.405 associados só no terceiro trimestre de 2013, o que representa crescimento de 17,34% em comparação ao segundo trimestre. Hoje, ainda de acordo com a pesquisa, já são a segunda fonte de renda, atrás apenas dos direitos de transmissão, com rendimento de cerca de R$30 milhões por ano à entidade esportiva. O Internacional lidera o ranking com 101 mil sócios, seguido por Grêmio (75 mil) e Flamengo (55 mil).

Aline considera os planos de sócio-torcedor, além de uma tentativa interessante de aproximar o torcedor do clube, uma boa opção para diminuir o preço dos ingressos, já que o associado tem desconto e preferência na compra. Agora que tem renda mensal própria, faz planos de se integrar ao programa do Fluminense. Trevisan pontua a vantagem de estabilizar a arrecadação dos times com essa iniciativa:

— Qualquer outro tipo de receita que vá para o clube serve pra ter conforto na gestão dessas finanças e depender menos da bilheteria em dias de jogos, que oscila bastante. Ao aumentar a arrecadação com o sócio-torcedor, o clube tem uma receita mais estável ao longo do ano. Uma conta mensal garantida e sofre menos risco.

Mas o vínculo com esses programas, ressalva Luiz Leo, constrange e engessa as equipes a criar outros mecanismos de política de preço.  Se baixam o valor da bilheteria, explica, canabalizam o torcedor fiel, que foi incentivado a ir aos estádios mais regularmente em troca de ingressos mais baratos. “As diretorias estão amarradas. Não podem simplesmente abaixar o preço porque ele vai atingir um direito constitucional daquele que pagou antes e antecipou a receita. Reprecificar é importante, mas talvez não vá resolver o problema”.

Fim do elo com torcidas organizadas e campanhas sobre diminuição da violência: a solução para temor

Embora não se interesse em desembolsar o valor dos ingressos para jogos de menor expressão, Eduardo ainda nutre apreço pela tradição dos clássicos. Outro motivo, porém, o faz hesitar a colorir as arquibancadas de Flamengo e Vasco: a violência nos estádios. O Brasil lidera o ranking de mortes nos estádios: em 2013 foram 30, um aumento de 30% em relação a 2012. O mesmo acontece com Bruno, que evita preocupar os pais nas partidas de maior rivalidade entre as torcidas. O que mais preocupa o futuro engenheiro é a impunidade dos baderneiros.

Segundo aponta Luiz Leo, não há sistema que preveja a prisão do torcedor que descumpre as regras. Para ele, falta poder de decisão, porque os clubes precisam do amparo do Estado no sentido de criar um banco de dados, um cadastro, mecanismos mais fortes de punir os subversivos e garantir o espetáculo para os cidadãos pacíficos. Ele explica que as torcidas organizadas cumprem função história importante de incentivar as equipes, mas, na medida em que se tornam espaços para criminalização, precisa haver maior regulação. É uma questão de segurança pública, reforça.

Ferreira frisa que a medida mais urgente a se tomar referente à violência, segundo ele, de impacto imediato, é justamente a reunião de clubes no sentido de cortar relações com as torcidas organizadas, como tem feito Palmeiras e Cruzeiro. Embora reconheça que sejam torcedores fanáticos e acompanhem o clube de mais perto, o diretor considera o custo-benefício “muito negativo”:

— Essas torcidas afastam público, influem na política e criam problema financeiro para as equipes. Eles dão prejuízo porque alguns sequer são filiados ao time, mas à torcida porque ganham ingressos de graça e recebem mensalidade. É negócio que concorre com a entidade esportiva. Usam a imagem e não pagam por isso. As famílias, base dos altos públicos da Europa, e os homens que não querem confusão acabam isolados e deixam de ir.

Pedro Daniel coloca no sócio-torcedor uma possível via: o Palmeiras, segundo o presidente da BDO, conseguiu identificar quem são os clientes, “verdadeiros torcedores”, a partir do cadastro no programa. Para ele, uma melhor organização também facilitaria muito o processo de conter os atos violentos, com ingressos vendidos antecipadamente para evitar fila e encontro entre torcidas rivais. A polícia, propõe, só seria acionada quando não houvesse prevenção ou controle da situação.

Pode ser que alguns torcedores deixem aos jogos de ir por receio de briga, tanto nas arquibancadas quanto no trajeto, mas o que acontece, em termos gerais, é uma percepção negativa da população em relação à violência nos estádios, porque tem bastante repercussão e com razão, analisa Trevisan. A visão de que o futebol anda junto com os confrontos ajuda a deteriorar o produto futebol, mas não se pode generalizar, porque em partidas de menor apelo não costuma haver perigo, ressalva. Uma opinião compartilhada pelo gerente de marketing do Fluminense, Alexandre Vasconcellos, que observa um “problema de percepção” diante de um passado mais hostil:

— O torcedor acha que há violência, quando, na verdade, esse volume já diminuiu. É um problema de segurança pública e o Estado do Rio tem um dos melhores trabalhos, com um agrupamento especial da polícia dedicado a essa questão (o Gepe, Grupamento Especial de Policiamento dos Estádios). Nos anos 1990, era notório o ambiente de guerra nas arquibancadas, mas hoje são casos episódicos, muitas vezes relacionados a outros motivos.

Segundo a Ferj, os órgãos de segurança do Rio são considerados "os mais competentes do país", com "pouquíssimos casos de violência nos estádios e arredores". O problema da violência, porém, acrescenta a nota, sempre foi "uma preocupação" da Federação.

Solução improvável para os horários dos jogos: receita da tevê é principal fonte de renda dos clubes

Embora prefira o ambiente das arquibancadas para acompanhar os jogos, o horário das partidas também se configura como um dos empecilhos à presença de Aline. Por ter que sair do estádio à meia-noite em um “local perigoso” e sem uma “estrutura de transportes segura”, a estudante desiste e recorre ao pay per view, que considera “a alternativa perfeita”.

 Infográfico: Lucas Sereda Eduardo também considera a melhor opção, por assistir com sua família e poder fazer outras coisas, além da facilidade de trocar de canal caso o espetáculo não o cative. Enquanto Aline dispensa os bares para acompanhar o Fluminense, o futuro advogado gosta da opção, que o permite se divertir com os amigos tomando cerveja e depois voltar para casa.

No caso de Bruno, “é complicado se entreter com o futebol tendo que acordar às 5h no dia seguinte”. Já no de Paulo Cezar Costa, autor do blog Jornalheiros, o horário atrapalha porque “são jogos às 19h30 em dias de semana, no atual estado do trânsito do Rio”.

Segundo Ferreira, “não dá para discutir que o horário das partidas é um problema”, mas a relação das emissoras de tevê com os clubes é diferente, por exemplo, do vínculo dos times com as torcidas organizadas. Ele reforça que os detentores do direito de transmissão pagam R$1,3 bi às equipes, principal fonte de recurso do futebol brasileiro, motivo pelo qual Aline desacredita uma mudança. De acordo com estudo do Itaú BBA, a cota de tevê representa cerca de 40% das receitas dos clubes. Luiz Leo considera que “a compensação já um avanço”:

— As emissoras pagam a cota de tevê para o clube jogar como se o estádio estivesse com capacidade média ocupada. Já existe uma evolução, porque antes o time não recebia nada e a tevê também marcava no horário que queria.

Mas na visão de Ferreira, os clubes deveriam se juntar e renegociar com a tevê, diante das transmissões de jogos de times em suas cidades de origem e do menor valor do pay per view em relação aos ingressos dos estádios. Caso haja prejuízo, reforça, que haja repasse das emissoras.

— Se assinou o contrato, não pode reclamar. O horário afasta o torcedor, mas é bom ficar claro que estabelecer a grade de transmissão é um direito dado pelo clube à emissora. Mas é fácil fazer a torcida não cobrar o time e dizer que a tevê é a vilã do futebol — critica.

André Boaventura, editor executivo de eventos esportivos da TV Globo, considera a qualidade e a promoção do espetáculo os principais fatores para atrair público, porque “há muitos eventos televisionados que lotam”. O preço, da infraestrutura de transportes e do conforto nas arquibancadas têm mais peso no decréscimo de público que a disponibilidade na tevê. Para Vasconcellos, a tevê também se preocupa com o produto, porque afeta a imagem do veículo e conteúdo da emissora. O estádio cheio ajuda a vender televisão a anunciantes, explica, o que significa que todos os segmentos envolvidos estão buscando soluções.

Em vez de cooptar o público para as telas, diz Boaventura, as tecnologias de campo virtual e mesa tática, pelo contrário, podem informar e elucidar o esporte aos olhos do público, o que despertaria ainda mais interesse pelo futebol e incentivaria as pessoas a participarem dos jogos nos estádios.

Embora qualifique uma “minoria de jogos em horários ruins” e, por isso, não explique a baixa de público geral nos estádios pelo viés do televisionamento, Trevisan reconhece a submissão das equipes às emissoras, pela dependência do financiamento. Com o crescimento, por exemplo, dos programas de sócio-torcedor como fonte de receita, o consultor observa um melhor poder de barganha dos clubes nas discussões de direitos com a tevê, cenário hoje “ainda muito distante”. O pay per view acaba como a primeira opção, conclui.  Uma receita adicional em meio ao contexto de estádios vazios, mas que, no médio e longo prazo,  não só representa menos receita de bilheteria para os clubes, mas um efeito negativo para o espetáculo em si:

— Os patrocinadores também não querem estar associados a um evento que não traz público. Não é interessante tampouco para quem transmite.

Visão compartilhada por Pedro Daniel, que credita às dificuldades de logística, principalmente de acesso e segurança, a opção do torcedor de acompanhar o time do sofá de casa. Acredita que o impacto da tevê na bilheteria é muito pequeno, porque “são produtos que não concorrem”:

— É mais fácil ver pela tevê, porque é lógico que o torcedor não consiga ir ao jogo numa quarta-feira, para sair à meia-noite sem o mínimo de conforto. Mas o futebol em casa não é o mesmo do estádio. Muitas pessoas têm a opção de assistir filmes em casa e ainda assim vão ao cinema. São produtos diferentes.

A melhora na logística, para Daniel, é o caminho para trazer o público de volta às arquibancadas, porque, no que toca aos horários dos jogos, “é difícil haver alteração”. Isso de dá, completa, porque os patrocinadores e, em especial, a tevê têm horários fixos já comprometidos e comercializados.

Segundo Diego Carvalho, o Audax sai do estadual com saldo positivo “por causa dos direitos de transmissão”, receita que a própria montagem da equipe depende. Por outro lado, afirma ser “ruim para os atletas” jogar às 16h debaixo do sol forte. Propõe uma reunião entre a Federação, os clubes e as emissoras:

— Os clubes perdem poder nas ações de marketing, a Rede Globo perde audiência e dinheiro de anunciantes e a própria competição perde barganha de patrocínio. É uma iniciativa que deve partir das entidades esportivas, mas em reunião com a detentora do torneio, a tevê, e Federação do Rio para se chegar a um consenso que valorize o campeonato.

A Ferj, porém, afirma não ter poder nessa negociação. O ciclo de debates entre os setores envolvidos no produto futebol, marcado para depois da Copa, deve influenciar esses acordos também, diz a nota.

"Chega uma hora que a política atrapalha os clubes"

O questionamento que circula entre o mundo do futebol brasileiro é a situação do modelo dos Campeonatos Estaduais. Uma das maiores críticas feitas à Ferj é o modelo do campeonato para este ano, aumentando para 16 clubes, por conta dos jogos da Copa do Mundo, espremendo o calendário “já apertado” das competições nacionais. Algumas atitudes como criar parcerias, como em outros anos, poderia ter melhorado o cenário das arquibancadas nas partidas, como exemplifica o Diretor Executivo do volta Redonda:

— No Campeonato Brasileiro de 2005, houve uma queda grande de público e eles fizeram parceria com a Nestlé. Quem comprava um produto ganhava um ingresso.

Diego Carvalho, responsável pela comunicação do Audax Rio, conta que a FERJ já toma iniciativas para repensar no campeonato para o próximo biênio:

— O presidente da Federação, Rubens Lopes, propôs aos clubes, assim que as competições acabarem, sentar para conversar e tentar achar uma solução.

Mas, diz, o calendário do campeonato é feito de dois em dois anos. Logo, ainda é uma dúvida os rumos que o campeonato pode levar:

— O calendário desse ano se repete pro ano que vem, então não tem como fazer modificações para o próximo ano. Então essa é uma discussão que será feita entre os clubes e a federação — explica Carvalho.

Fernando Ferreira acredita que muitas atitudes em benefício do campeonato não são tomadas por questões políticas, para garantir à Federação o modelo político e controle sobre clubes de menor expressão. É criada uma redoma confortável para esses gestores, diz, em que manifestações que exigem mudanças são vetadas.  

— Chega uma hora que a política atrapalha os clubes — reitera Carvalho.

Em nota ao Portal, a Ferj reconhece a baixa adesão dos torcedores aos jogos nos estádios, uma realidade que considera “nacional”. Para entender os fatores que influenciam esse decréscimo, anuncia, em parceria com a Trevisan, uma série de debates para depois da Copa, que culminará na elaboração de um documento enviado ao Conselho Arbitral da série A do Campeonato Carioca em novembro.

Segundo a Federação, serão grupos multidisciplinares debatendo todos os temas da segurança, dos preços, da viabilidade urbana, da televisão e do papel da imprensa.

A falta de união e a rivalidade entre clubes afasta o principal objetivo do futebol, proporcionar entretenimento aos cidadãos, aponta Trevisan:

— Eles são os protagonistas do setor futebol e tem que se unir mais pra exigir dos gestores do campeonato. O futebol, como qualquer outro setor da economia, tem sua associação e entidades representativas perante as autoridades. Porém, a desunião dos clubes faz com que corram para lados opostos da força, prejudicando o cenário do futebol brasileiro.  

O campeonato interno perde força, o mercado enfraquece e o investimento para o próprio clube cai nesta falta de as equipes se unirem em prol de um grupo e não só individual, completa. Trevisan exemplifica modelo de união que reflete em mudanças expressivas:

— Essa capacidade de união no futebol é importante, com o projeto do Bom Senso Futebol Clube, que une mais de mil jogadores pra exigir mudanças. Isso está provocando uma série de reflexões e impactos nos gestores dos campeonatos. Os jogadores tiveram capacidade de mostrar pros dirigentes dos clubes que é possível negociar de forma mais dura, pensando na melhoria do futebol como um todo.

Apesar da discussão apresentar dimensões maiores, os analistas acreditam que a influência dos jogadores nas decisões desses problemas seja relevante. A união entre a categoria é fundamental para exigir condições de trabalho e calendário mais favoráveis, tanto para os clubes de maior expressão, quanto para os menores, explicam. Luiz Léo ressalva que diretamente os jogadores não têm ingerência nas decisões que afetam o número de público nos estádios. No entanto, diz, indiretamente “eles têm muito a fazer”:

— Uma categoria mais unida por condições de trabalho mais favoráveis, por horários dos jogos mais acessíveis, por não expor o jogador a uma quantidade de jogos tão extensa durante o ano. Esses pontos fazem a qualidade do espetáculo cair. Há uma série de ações possíveis a serem realizadas pelo Bom Senso FC com efeito num esporte atrativo ao público.

Campanhas motivacionais e tematização de partidas: marketing para trazer torcedor de volta

O marketing esportivo é um dos principais agentes que estimulam o torcedor a ir aos estádios e consumir os produtos do seu time. Segundo estudo da BDO Consultoria, o valor da marca dos 23 maiores clubes brasileiros subiu R$2,48 bilhões entre 2009 e 2013. Hoje representam R$6,06 bilhões, alta de 9% em relação a 2012. Destaque para Corinthians, cujo emblema se valorizou em R$546 milhões, seguido por São Paulo (alta de R$296 milhões) e Flamengo (R$287 milhões), nos últimos quatro anos analisados. Ta potencial, na visão de Luiz Léo, pode ajudar a trazer o torcedor de volta às arquibancadas:

 — O marketing pode ajudar a gerar público para o esporte, tornando esse produto mais atrativo — explica — No entanto, a gerência do campeonato carioca pode não estar utilizando essa ferramenta de forma plena. Existem diversos mecanismos que podem ser usados em benefício não só do campeonato, mas dos próprios times. O futebol conta com um tempero a mais na hora de conquistar seu público, que é o amor ao time.

Esse consumidor é ávido pro consumo, ele é orientado por uma paixão, acrescenta o professor de marketing esportivo da PUC-Rio, mas tem que ser incentivado de forma adequada e receber um produto decente. Luiz Léo acredita que “criar acontecimentos inusitados” em cima dos jogos aproxima as pessoas e desperta o interesse “por algo que está adormecido”:

— O marketing vai além da promoção. Ele desenvolve ou aperfeiçoa produtos, estabelece políticas de preço condizentes com o produto ofertado, estabelece mecanismo de distribuição de acesso mais fácil ao consumidor e cria uma comunicação favorável ao produto. Na questão de gerar público para o esporte, o marketing pode ajudar, tornando esse produto mais atrativo. Se você não tem o melhor dos mundos tecnicamente falando, você pode trabalhar isso em termos simbólicos. Crie um porta voz para seu time, um jogador com carisma maior, que consiga incentivar os torcedores a irem ao estádio. Tentar criar em torno desses eventos outros acontecimentos, trazer personalidades pra atrair gente.

Alexandre Vasconcellos, gerente de marketing do Fluminense, acredita que a saída, à luz do marketing, sejam campanhas motivacionais e a tematização das partidas:

— No jogo Fluminense e Bonsucesso, que foi o primeiro jogo do Darío Conca no Maracanã, tivemos nosso maior público até a semifinal. Não era nem a estreia dele na equipe, mas nós distribuímos máscaras com o rosto dele para a torcida, colocamos o jogador no telão e no microfone para estabelecer contato direto com as arquibancadas. Deu certo — exemplifica.

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