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Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2017


Educação

Silvia Cristina: "Sou eu quem pago para lecionar"

Mariana Bispo e Maria Clara Parente - aplicativo - Do Portal

18/12/2015

Foto: Mariana Bispo

“O que é ser professor eu não consigo ser”. É com essa frase que a professora Silvia Cristina Galdino, 38 anos, descreve a dificuldade que permeia o trabalho de grande parte dos educadores do ensino público brasileiro. Professora há 21 anos, ela ensina em duas escolas de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense: a Creche CCAIQ Amapá e a Escola Municipal Paulo Roberto de Morais Loureiro, que há 13 anos está “provisoriamente” instalada em um prédio alugado, na Fundação Educacional de Duque de Caxias (Feuduc), sujeita a más condições como falta de luz e água, além de espaço para atividades de lazer.

Sua turma do 3º ano do Ensino Fundamental estudou o ano inteiro só com um livro didático, o de matemática.

– Quanto aos outros, só tínhamos um, o do professor. Devido a essa precariedade, tirei cópias das páginas que estudamos a cada dia, mas, infelizmente, não temos nem papel, nem tinta, nem máquina de cópias disponíveis, ou seja, sou eu quem pago para lecionar. Cola, argila, cópias, papel, lápis, tudo sai do meu bolso.

A professora lembra o quanto estas turmas estão distantes da educação moderna, que usa como recursos filmes ou aulas interativas para prender a atenção do aluno: “Essas ferramentas são necessárias, mas, para usarmos, precisamos de TV, DVD, materiais que não estão disponíveis na escola”.

– Nós, professores, não temos ferramentas para lutar contra o mundo em que a criança está inserida fora da escola, com o universo digital que crianças de 8 anos estão imersas hoje em dia. Enquanto eles estão com a internet, o WhatsApp e o Facebook, estou tentando dar aula com o meu quadro branco e com o pilot que compro.

Os problemas que vêm de casa também são um entrave para a realização de sua profissão: “Muitos alunos têm dificuldade de ouvir, de prestar atenção no que falamos, muitas vezes porque não têm ninguém para escutá-los dentro de casa”, pondera Silvia.

Ambos os colégios em que Silvia Cristina leciona ficam em áreas rurais, sem acesso a atividades de lazer e cultura: “São crianças carentes, sem acesso a direitos básicos como saúde e educação de qualidade. Precisam de fato de projetos consolidados que proporcionem seus direitos”.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas diariamente no setor educacional, a profissional, mãe de dois filhos – uma menina de cinco e um menino de 10 anos – e originada de uma família de professores, acredita na profissão que escolheu: “Sou professora por opção, por amar estar em contato com crianças que necessitam de atenção e conhecimento”. Para Silvia, uma das ferramentas essenciais e fundamentais em suas aulas é o “diálogo franco”, um momento que ela abre antes de cada aula para dar voz aos alunos, seus sonhos e seus incômodos.

– Inspirar e estimular os alunos não são missões fáceis. Todos os dias intercalamos rodas de conversa e de leitura, para que eles tenham contato com as opiniões dos amigos, para termos um espaço de intimidade e relação. O que quero com isso é acionar o poder de sonhar com o que se quer ter, com o que se quer ser. A maioria dos meus alunos não pensa em uma profissão que possa trazer uma ascensão social. A prática de sonhar muitas vezes é tomada das crianças e jovens de comunidades.

Esperança na creche

Foto:Mariana Bispo  A rotina da professora também é marcada pelo trabalho na creche da rede pública CCAIQ Amapá, onde ela lembra sua vitória no episódio de ojeriza dos alunos na hora do almoço com legumes, que ela resolveu incluindo a cenoura nas brincadeiras em sala, o que fez com que os alunos deixassem de rejeitar o alimento. Quando pensa sobre a importância da educação infantil, pondera: “A escola é uma base, é onde se tem uma oportunidade ímpar, as competências que tinham que ter sido desenvolvida e que não vão voltar mais, que aquela criança não vai mais conquistar”. Silvia analisa que a educação no Brasil precisa de ”inúmeras melhoras”:

– Não se entendeu ainda que a escola é um dos maiores contentores sociais. Não se entende que a educação é um fim em si mesmo. É uma maneira de ascensão social no Brasil, e isso cria inúmeros reflexos dentro da sala de aula, porque é uma questão cultural que atinge a sala de aula. O aluno vai para a escola por causa da Bolsa Família, por causa da comida e porque ele tem que estudar para ser alguém na vida, não porque ache o saber, o conhecimento algo necessário.

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