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Rio de Janeiro, 27 de junho de 2017


Educação

Juliana Pessanha: "Pátio escolar se tornou sala para 22 turmas"

Bárbara Chiergate e Mariana Bispo - aplicativo - Do Portal

18/12/2015

 Foto:Arquivo Pessoal

Juliana Pessanha tem 17 anos e completou o Ensino Médio em 2014, sempre estudando em escolas públicas em Duque de Caxias. Hoje, aguarda o resultado do Enem para entrar na universidade e cursar nutrição. “Na minha trajetória escolar eu só tive professores bons, que realmente me fizeram aprender. Mas não é um ensino puxado, de ter que estudar muito para ficar na média. Não é preciso esforço, pois é muito falha a maneira como acontecem as avaliações, e não há estímulo”.

Do 5º ao 7º ano, durante sua passagem pelo Colégio Municipal Senhor do Bonfim, na comunidade Manguerinha, passou por revezamentos de sala: “uma turma tinha aulas, enquanto a outra esperava, porque eram muitas turmas para poucas salas”. A precariedade na infraestrutura também chegava à quadra esportiva, pequena e sem cobertura. “A gente esperava um mês para ter aula prática, aí chovia e não tínhamos – até hoje não tem”.

Também enfrentou revezamento de professores: “Lá tínhamos problemas com falta de professores. Em um único ano, tive três de educação física. Eles saíam por medo de trabalhar num colégio dentro de uma comunidade. Muitos, na primeira oportunidade, iam embora”. Assim, no 6º ano, não teve aulas de português, e passou um semestre sem professor de ciências.

Já no Colégio Estadual Duque de Caxias, estudou do 8º ano ao fim do Ensino Médio. No 3º ano, a estudante, então presidente do grêmio estudantil, liderou uma greve no colégio, que ficou sem luz e água – “o dinheiro para pagar as contas não havia sido repassado”. Juliana conta que alunos e professores passavam mal com o calor e que as aulas foram transferidas para o pátio da escola, revezado por 22 turmas.

– Muitos professores não aguentavam e tinham que ir embora. Uma estava grávida, dando aula em uma sala com 45 alunos, sem ventilador nem ar-condicionado. Tínhamos que ter aula no pátio, sentados no chão, todos com o caderno na mão. Chegavam a distribuir papel para a gente fazer de leque.

Também dividiu a turma com mais de 50 alunos:

– Uma professora precisou operar a garganta, consequência da altura em que precisava falar para os alunos. Só depois, com a luta do coordenador do colégio, Carlos Alberto, conseguiram microfones para os professores. Mas então faltaram caixas de som, que seu Alberto comprou com o próprio dinheiro.

Foto:Arquivo Pessoal Para ela, apesar das dificuldades, a estrutura da escola é “muito boa” – são dois prédios, um de quatro andares e outro de dois, com uma biblioteca com livros de qualidade, além de salas de músicas e instrumentos – e os profissionais se empenham para proporcionar a melhor educação possível. O que implicava em escolhas: “Raramente tivemos passeios escolares. A escola alegava que o dinheiro enviado para fazer passeio era usado para a alimentação”. Nos cinco anos em que estudou no colégio, o único passeio cultural que fez foi para o Museu da Ilha Fiscal. Parte do dinheiro foi dada pelo coordenador do colégio, pois a verba do passeio precisava sobrar para reforçar a da alimentação.

Na visão de Juliana, o esforço dos professores não é suficiente para que os direitos à educação sejam garantidos: “Apesar de todas essas dificuldades, reconheço que os professores e a direção eram bons, o ruim era a falta de estrutura. Os profissionais que estão lá se empenham para proporcionar a melhor educação possível, mas, infelizmente, isso não depende só deles”.

Foi eleita, em 2014, deputada estadual juvenil de Duque de Caxias, na 8ª edição do Parlamento Juvenil. No Parlamento Juvenil, todas as escolas de cada município podem sugerir um aluno do seu colégio para participar de uma eleição que escolherá o representante do município. Ganhou com mais de 1.900 votos.

– Com essa candidatura, os colégios ficam mais visados, o que proporciona benefícios que deveriam ser básicos, mas só são disponibilizados quando o colégio está em foco. Então, é uma disputa, pois todos os colégios estaduais do município querem ganham benefícios do governo, como cadeiras novas, ar-condicionados, quadros novos, material básico para uma sala.

Foto:Arquivo Pessoal  Juliana levou à Assembleia Legislativa do Estado do Rio seu projeto de lei Amparo a pessoas vítimas de violência, que ficou em quarto lugar como melhor projeto.

– O meu incômodo surgiu pelo fato de as vítimas de violência não terem a atenção que deviam. Só se preocupam em prender o cara. Mas e se a vítima vai ficar sem trabalhar um mês, por sequelas físicas e mentais? Se ela ficar psicologicamente abalada, não importa. Eu sempre via muito: “Ah, vamos combater a violência, botar mais policiais na rua, aumentar a segurança”. Mas as pessoas que sofrem a violência ficam onde? No meu projeto citei muito a violência doméstica. A mulher depois não é amparada psicologicamente. Se trabalha fora, ela não tem auxílio financeiro pelo tempo que vai ficar sem trabalhar.