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Rio de Janeiro, 18 de outubro de 2017


Educação

Almir Gonçalves: "Não lutamos por dinheiro, lutamos por direitos básicos"

Mariana Bispo - aplicativo - Do Portal

18/12/2015

Foto:Arquivo Pessoal

Quem conhece o advogado autônomo Almir Gonçalves, 36 anos, não sabe que ele é uma exceção das comunidades quilombolas do país, e em especial do Quilombo São José da Serra, onde nasceu e estudou durante o Ensino Fundamental I no Colégio Municipal Antônio Alves Moreira, a única da Comunidade. Para ter acesso ao resto da educação básica, Almir precisou se mudar junto com sua família para a cidade de Santa Isabel do Rio Preto, localizada a 12 km do Quilombo.

– Nós quilombolas, somos obrigados a sair de nossas comunidades para o centro, o que dificulta a continuação escolar de muitas crianças e jovens.

Apesar do esforço e da distância da escola, Almir relata que no Colégio Estadual Dr. Guilherme Milward, onde terminou a educação básica, o serviço público também não é prestado devidamente. ''Mesmo indo para uma escola supostamente melhor, pois se localizava na cidade, era uma escola do interior com um ensino ainda muito precário, a educação não era de boa qualidade.''  Ele conta que como na escola do quilombo, os alunos ainda ficavam juntos independente das séries, '' o colégio não tinha nem salas de aula nem professores disponíveis para todos os alunos''– comenta.

Almir estudou no Colégio Estadual Dr. Guilherme Milward até se formar no Ensino Médio. Depois disso, realizou o sonho de estudar Direito no Centro Universitário de Volta Redonda (UniFOA).  Formado, o quilombola luta pelo direito de educação de qualidade das comunidades quilombolas do Brasil.

– O estado ainda é muito omisso em relação aos quilombos. Ainda não existe uma relação entre estado e comunidade. A nós faltam políticas públicas que ofereçam direitos básicos como saúde e educação de qualidade. Estamos esquecidos e é por isso que luto, para que haja representatividade das minhas origens em salas de aula. Não lutamos por dinheiro, mas sim por direitos básicos –  enfatiza o advogado.

Almir lembra da necessidade do cumprimento da Lei Federal N° 10639/2003 que estabeleceu a inserção, no currículo oficial das escolas brasileiras, do ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira com o objetivo de reparar as desigualdades historicamente impostas, como a desvalorização da cultura e da história dos negros no país.

– Precisamos de valorização dos professores e mais capacitação. É preciso dar a eles tanto conhecimentos gerais quanto locais, para que os jovens e crianças tenham o contato com a história do negro e sua importância econômica, social e cultural para o Brasil. No interior são poucos os professores, o que prejudica a boa qualidade das escolas locais. É preciso buscar estímulo e qualificação para levar profissionais a pesquisarem mais sobre os conhecimentos e histórias da comunidade.

Ainda hoje, o Colégio Municipal Antônio Alves Moreira possui apenas duas salas de aula e duas professoras, que lecionam para os alunos que ficam divididos nas classes independente da série que estão cursando. O Município disponibilizou uma van para levar os alunos ao centro de Santa Isabel, onde dão prosseguimento à educação básica.

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