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Rio de Janeiro, 27 de julho de 2017


Economia

Salta de startups expõe déficit de qualificação

Lucas Augusto - Do Portal

22/08/2014

 Marcela Henriques Caracterizadas por conjugar inovação, crescimento rápido a baixo custo e investimentos de risco, as startups revelam-se uma porta de entrada para profissionais de diversas áreas. Até porque valorizam a versatilidade, ressaltam Eduardo Pontes e Fábio Barbosa, sócios da ArpexCapital, investidora de outras empresas, principalmente de tecnologia. Eles destacaram, em palestra da Mostra PUC, na semana passada, a pluralidade de funções observada em estruturas do gênero. O atributo, no entanto, não é acompanhado pela mão de obra disponível, advertem os especialistas. “A diferença na quantidade de formandos em tecnologia nos Estados Unidos, comparada à do Brasil, é gritante", alerta Barbosa.

A Associação Brasileira de Startups reúne 2.764 empresas de tecnologia filiadas. Concentram-se em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, nesta ordem. Reforçam o conjunto de mais de dez mil empresas de inovação tecnológica no país, que receberam incentivos de cerca de R$ 1,7 bilhão em 2012. O crescimento acelerado abre, no entanto, um abismo entre as novas demandas e a qualificação disponível na área de tecnologia.

A Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) estima que 2014 termine com déficit de 45 mil profissionais no setor. Uma das causas desse volume insifuciente é taxa de desistência de mais de 80% nos cursos de tecnologia. Sergio Sgobbi, diretor de RH e Competitividade da Brasscom, afirma que, no mercado globalizado, empresas brasileiras perdem contratos em função da falta de pessoal qualificado. "O déficit de mão de obra qualificada, de 20% a 25%, torna constante a busca por profissionais", observa Barbosa.

Para ingressar neste mercado, Pontes recomenda aos jovens não só o "foco no cliente", como também uma aderência à cultura organizacional. "Ajustar-se à cultura da empresa é fator decisivo de sucesso", explica. Embora pareça simples, manter um padrão de valores na companhia é tarefa difícil, diz o especialista:

– É a coisa mais difícil de fazer o time entender. A turma está sempre se achando muito inteligente, sempre pensando em fazer algo legal e inteligente, mas, na prática, o resultado vem quando o cliente abre a carteira.

Apesar da falta de profissionais de tecnologia, as startups também englobam áreas como finanças, comunicação, recrutamento e jurídico. De acordo com Barbosa, não há "graduações específicas" para quem quer trabalhar numa empresa de perfil tecnológico. Além disso, o jovem profissional tem de estar aberto a desempenhar outras funções além das associadas à formação original:

– Versatilidade é essencial. Na empresa, temos, por exemplo, engenheiros de produção e de computação. Contratamos um graduado em Belas Artes agora. O importante é trazer a pessoa boa, sem estar pensando em cargo. Não se preenche cargo e sim, área. – esclarece – Temos um engenheiro químico trabalhando no relacionamento com o cliente, um economista na área de tecnologia e um físico na programação e desenvolvimento – exemplifica.

 Marcela Henriques Entre os obstáculos no caminho das startups, os especialistas apontam também a burocracia e a alta carga tributária. Os impostos no Brasil, lembram, são mais pesados do que nos Estados Unidos, onde aumentam gradualmente, conforme a empresa cresce. A despeito das adversidades, os representantes da ArpexCapital afirmam que este ambiente pelo menos contém a concorrência estrangeira: “Apesar de termos um teto baixo e uma taxa de juros alta, é um ambiente tenebroso para um gringo encarar”, opina Pontes.

Depois do pontapé inicial da startup, a dificuldade se desdobra em mantê-la num ritmo crescente. Um caminho que pode ser facilitado, segundo especialistas, por programas como Startup Brasil, do Ministério de Ciência e Tecnologia, e por parcerias com americanas. Os sócios da ArpexCapital aconselham paciência aos jovens empreendedores, pois "o crescimento visto nos Estados Unidos, por exemplo, não acontece sempre".

– Devido ao caso do Facebook, a geração de hoje acha que em seis meses vai ficar milionária. Isso não acontece. Quando a empresa estourou, já tinha oito anos. As pessoas só tomaram conhecimento de empresas como o Google ou a Amazon quando já tinham atingido dimensões altíssimas. A geração atual tem uma ansiedade muito grande, entretanto, nenhum negócio grande é construído do dia para a noite. São necessárias muita dedicação e energia, não há outra receita. Não há atalhos – orienta Barbosa.