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Rio de Janeiro, 29 de maio de 2017


Economia

Orlando Moreira: lições para aproveitar a revolução digital

Juliana Reigosa e Marcela Henriques - aplicativo - Do Portal

04/10/2014

 Marcela Henriques

O mercado cinematográfico passa por transformações profundas decorrentes do acesso crescente às tecnologias digitais. O diagnóstico, ao alcance de uma observação ligeira das esquinas tomadas por câmeras de celulares, ganha o peso da revisão de rotinas e competências profissionais quando é disparado por um dos cânones da filmagem no mundo, o repórter cinematográfico Orlando Moreira. Há meio século, o cinegrafista radicado em Nova York, como correspondente da TV Globo, ganha a vida com o garimpo de imagens marcantes. Acumula experiências singulares, curiosas, históricas. Foi, por exemplo, o primeiro brasileiro a registrar os escombros do 11 de Setembro. Parte dessas histórias, e as lições delas extraídas, foi dividida, na quinta-feira passada, com alunos de Comunicação da PUC-Rio. 

Convidado pelo cineasta e professor de Cinema da universidade Marcelo Taranto para conversar com os estudantes da área, Orlando Moreira contou alguns dos périplos internacionais que lhe renderam prestígio, alguns sustos e um fôlego inesgotável para perseguir boas histórias. A carreira no exterior, contudo, não trai o foco naquilo que considera uma questão central desse mercado: o acesso crescente a tecnologias que facilitam a filmagem. Se o equipamento patenteado pelos Irmãos Lumière, em 1895, marco inicial do cinema, era muito pesado e não raramente dificultava a obtenção da imagem desejada, lembra Orlando, hoje os smartphones e as câmeras com resolução 4K favorecem e multiplicam a produção de fotos e filmes. "A qualquer hora, e em qualquer lugar, novos aparelhos são retirados do bolso e usados para gravar o momento ideal. Na edição, também é possível fazer alterações, sem perder a qualidade da imagem", observa o repórter cinematográfico. Esta revolução impõe aos profissionais do gênero a necessidade de produzirem além da pulverização visual contemporânea.

– Antigamente os equipamentos eram precários, pesados, e os filmes eram importados e caríssimos. Hoje, com uma câmera em 4K, digital ou de celular, você já cria um filme tão bom ou até melhor que com uma filmadora – compara.

Referência mundial em captação de imagens, Orlando Moreira reforça a importância da qualificação superior para se destacar nesse mercado. Ele lembra que, no início da carreira, em 1964, o mercado era "complicado" e não havia disciplinas de filmagem nas universidades. “Aprendi as técnicas por meio de um curso, com Jorge Ventura e Carlos Tourinho, que também acabaram trabalhando na Globo”, recorda. "Hoje, há graduação na área e possibilidades melhores de inserção no mercado", completa.

Correspondente da Globo em Nova York, onde assumiu a chefia dos repórteres cinematográficos em 1984, Orlando acompanhou acontecimentos importantes pelo globo. Mas é de uma cobertura brasileira, na enchente do Rio em 1966, a lembrança da principal prova de fogo:

– O Rio Macacos transbordou, destruindo várias casas no entorno da Globo, no Jardim Botânico. Posicionamos as câmeras diante da emissora e registramos os acontecimentos, com a cobertura ao vivo. Também recebemos muitas doações de imagens, o que tornou a cobertura intensa, elevando os índices de audiência – relembra, num misto de orgulho e empolgação.  Marcela Henriques

Outra passagem "complicada" remonta à cobertura das manifestações estudantis de 1968, durante a ditadura militar. Os estudantes, conta o cinegrafista, achavam que ele filmava para entregar as imagens ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), órgão do governo federal destinado a reprimir movimentos sociais e políticos. Por outro lado, a polícia acreditava que a filmagem registrava a agressão contra os estudantes. "Era um barril de pólvora", sintetiza.

Do vasto repertório de reportagens históricas, fazem parte, por exemplo, as coberturas da Revolução dos Cravos (1974), em Portugal, a morte do ditador Francisco Franco, na Espanha (1975) e os atentados de 11 de Setembro (2001), em Nova York. Primeiro cinegrafista brasileiro a registrar imagens dos escombros do World Trade Center, ele lembra que o ímpeto jornalístico acabou premiado:

– Eu estava indo a pé para o escritório (da TV Globo), quando soube que um avião havia batido na torre. Achei que fosse um teco-teco. Andando mais três quarteirões, um grupo, ouvindo rádio, comentou que outro avião tinha batido no World Trade Center. Percebi que era terrorismo e corri para o escritório para pegar a câmera e tentar mostrar o que estava acontecendo.

Depois dos ataques, o governo americano instalou, em pontos na região dos ataques, câmeras da Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA). As imagens eram distribuídas para as emissoras de televisão, e não havia permissão para repórteres ultrapassarem as barreiras policiais. “Mas (os repórteres) Jorge Pontual, Edney Silvestre e eu conseguimos passar pelo bloqueio e chegar próximo ao World Trade Center, onde gravamos nossa própria imagem, que foi transmitida no Fantástico. Era como se tivéssemos nos tornado invisíveis”, conta.

Dicas de Orlando Moreira

Em meio a histórias marcantes, saborosas, inspirações à nova sagra de profissionais, Orlando Moreira divide com os estudantes algumas recomendações para alçar voo nesse cenário encharcado de informações audiovisuais. Na captação de imagens para Cinema ou Jornalismo, o repórter cinematográfico deve, entre outros atributos, "saber o que a cena pede":

– Precisa haver entendimento entre o cinegrafista, a câmera e a cena, de forma que o resultado encontre equilíbrio. Ter a câmera mais cara e potente do não é mais prioridade, pois as inovações fotográficas dão espaço para produzir o que uma produtora de grande porte faz – alerta.

No caso de entrevistas, ele recomenda o uso de câmeras pequenas. Assim o entrevistado fica mais "tranquilo, abrindo-se para a conversa", enquanto as máquinas grandes tendem a intimidá-lo. Condições adversas, como chuva forte, frio e calor intenso, também devem ser superadas:

– Você tem que produzir, independente do clima. Pois não há possibilidade de falhar em nenhuma missão – orienta, com o rigor profissional característico.

Ainda segundo o cinegrafista, "amar o trabalho acima do dinheiro" é outra recomendação essencial: "Pois reconhecimento e recompensa virão com o tempo".