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Rio de Janeiro, 27 de junho de 2017


Economia

Novas profissões: instagrammer ganha por viajar e ter seguidores

Gabriel Vasconcellos e Rodrigo Zelmanowicz* - aplicativo - Da sala de aula

15/09/2015

 Paulo del Valle/Divulgação

Aos 26 anos e com uma renda mensal que varia entre R$ 8 mil e R$ 12 mil por mês, Paulo del Valle tem o emprego dos sonhos de muita gente: Instagrammer profissional. Com mais de 260 mil seguidores no Instagram, o designer formado pela PUC-Rio e fotógrafo é pago por empresas e governos para viajar pelo mundo tirando fotos para o seu perfil na rede social. O objetivo é produzir conteúdo relevante para o público-alvo das contratantes, que utiliza o Instagram e segue pessoas que considera importantes, os chamados influenciadores.

Para o Instagrammer Paulo, a definição do trabalho que realiza vai muito além de um analista de marketing, por exemplo, que observa comportamentos e produz conteúdos para os clientes das marcas:

– Eu me considero um influenciador. Meu trabalho é fazer o que gosto, que é fotografar e viajar, e compartilhar as experiências que tenho com as pessoas que me seguem. Acho que estou ali para mostrar um pouco do meu dia a dia, um pouco do meu trabalho, um pouco do que é possível fazer com fotografia, porque sei que inspiro muitas pessoas, elas entram em contato comigo. Então, estou sempre ali para inspirar.

Ele também representa uma geração de jovens que passa a ganhar dinheiro a partir da profissionalização de hobbies. Na verdade, a ampliação do acesso à internet possibilitou que cada vez mais pessoas usassem o que sabem fazer de melhor ou aquilo que lhes dá mais prazer para ganhar dinheiro. No caso de Paulo, foi pelo uso do Instagram que ele descobriu a paixão pela fotografia e, depois, a transformou em trabalho.

Carioca, ele começou a tirar fotos do Rio de Janeiro com os amigos em 2011 e, no ano seguinte, o próprio Instagram o tornou um “usuário sugerido” – uma lista feita pela rede social que indica aos novos usuários contas a serem seguidas. A partir daí o número de seguidores aumentou de maneira vertiginosa e ele começou a ganhar visibilidade. Desde abril de 2014, quando foi para a Austrália na primeira viagem a trabalho, Paulo já “alimentou” a conta no Instagram (@paulodelvalle) com fotos de paisagens dos Emirados Árabes Unidos, Israel, Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, além das cidades brasileiras, como Salvador, Florianópolis e, é claro, da Cidade Maravilhosa. Em junho, quando deu entrevista para esta reportagem, Paulo estava em Copenhague, na Dinamarca, e com viagens marcadas pela Europa e Ásia até o fim deste ano.

Ele conta ainda que aprendeu a aperfeiçoar a técnica fotográfica sozinho, sem frequentar nenhum curso. E o critério estético com que realiza as imagens, ele acredita ter trazido do curso de design. Apesar da aparente facilidade com que Paulo migrou de carreira, deixou a marca de roupas masculinas que mantinha com amigos e se tornou um dos quatro brasileiros reconhecidamente Instagrammers profissionais, o trabalho envolve muitas horas de dedicação e a disposição para enfrentar obstáculos.

– São 16 horas de trabalho diárias, envolve longas caminhadas. Na Austrália tive que andar de caiaque, chega a noite e eu estou morto, e ainda preciso editar todo o trabalho do dia durante umas três, quatro horas. Eu durmo muito pouco. Chego aos lugares e nem vejo as coisas direito, a câmera está na minha cara o tempo inteiro e às vezes eu olho as fotos depois e me surpreendo com coisas que eu nem tinha visto antes.

Paulo del Valle/Divulgação

Ele lembra quando foi chamado para viajar a Jerusalém, em Israel, pelo programa chamado Once in a life time: Israel, realizado pela organização educacional israelense StandWhitUs em parceria com o Ministério de Turismo de Israel, e teve que ir para Massada, um monte rochoso no meio do deserto da Judéia. Com outros oito Instagrammers considerados influentes nos países de origem, Paulo acordou de madrugada para fazer imagens do nascer do Sol no topo do penhasco.

– Acordamos às quatro da manhã e quando chegamos lá o bondinho que leva até o topo não estava funcionando, então tivemos que fazer a trilha a pé. Eu nunca tinha feito nada a pé e tenho um pequeno problema de coração, nada grave, mas dá medo de acontecer alguma coisa, podemos nos machucar. Foi minha primeira trilha, mas encarei e deu tudo certo. Sempre que viajo eu penso que tenho que fazer aquilo, não posso deixar de fazer.

A ideia desse projeto israelense é bem clara: levar personalidades das mídias sociais para Israel, proporcioná-las um tour inesquecível pelo país e deixar que eles compartilhem as fotos da viagem com seus seguidores. De acordo com o Instagrammer, a maioria dos trabalhos para os quais ele é contratado visa divulgar os lugares que visita e o turismo dos países. Mas ele também já fez trabalhos para grandes empresas, como Nike, Honda, Ford e o canal de TV brasileiro STB.

Instagrammer complementa trabalho de agências de publicidade 

Segundo o professor de marketing digital da PUC-Rio Marcio Nunes, sócio das empresas Bitix e Solução Digital, que é representante da Apple no Brasil, atualmente há uma tendência na forma de interação e comunicação das pessoas, que passa pelo compartilhamento das experiências nas redes sociais:

Paulo del Valle/Divulgação

– A questão do Facebook, do Instagram, do Twitter e dos montões de blogs que têm por aí de moda e comportamento, é algo que faz parte da nossa cultura atual, principalmente para o pessoal mais jovem.

Algumas empresas mantêm um contrato fixo com o Instagrammer; outras fecham um trabalho temporário, em geral orientadas pelas agências de comunicação. O professor Marcio Nunes salienta que a nova profissão não é uma ameaça às agências de publicidade e às formas de propaganda em outras mídias.

– É uma complementação, na verdade. Uma coisa não funciona sem a outra. Dificilmente uma empresa faz só Instagram e mais nada, a menos que seja uma empresa muito pequena. Mas uma empresa muito pequena não contrataria uma agência, então não vejo como ameaça, vejo mais como complementaridade. 

O professor explica que a utilização do Instagrammer pode ser um nicho a ser utilizado por empresas pequenas que querem fazer o negócio crescer:

– Um produto ou uma marca menos conhecida dificilmente vai conseguir fazer com que os clientes façam alguma coisa por ela. E aí começa a pagar alguém para fazer isso. Depois, quando já se tem uma base de clientes grande, a empresa pode fazer com que sua própria clientela trabalhe para si. Uma coisa leva à outra. 

Farm: inovação no uso do Instagram atrai seguidores para a marca 

Um caso de sucesso no engajamento das pessoas em favor da marca é a grife carioca Farm, que adotou uma estratégia diferente na utilização do Instagram: as pessoas, consumidores ou não da marca, tiram fotos das próprias experiências e compartilham por meio da hashtag #tonoadorofarm. Os usuários ajudam a criar conteúdo que se relaciona com o universo da marca e que pode ser relevante para outras pessoas. Em entrevista, o gerente de marketing da Farm, André Carvalhal, com respeito à utilização da marca em perfis nas redes sociais:

1. Qual a expectativa da Farm com os consumidores ou simpatizantes que postam fotos e marcam a #tonoadorofarm?

AC: Nos ajudar a produzir conteúdos que tenham a ver com a marca, viabilizado por pessoas reais que estão vivendo aquelas situações de verdade.

2. Considerando que as pessoas podem postar qualquer coisa e marcar a #tonoadorofarm, como fica a questão do controle sobre o conteúdo que se relaciona com a marca? No caso das empresas que contratam um Instagrammer, há mais garantia de que aquele conteúdo converse com o universo da marca ou não irá prejudicar a relação com os clientes?

AC: Sim, quando é um profissional que tem o perfil e a linguagem da marca é ótimo, pois ela movimenta a rede e gera oportunidades. Mas quando o perfil ou os valores da pessoa não está alinhado com o da marca isso pode ser muito prejudicial à imagem dela. Porém, se isso for feito de forma transparente eu acho bacana, assim como movimentar a rede de forma espontânea, apesar de poder ser arriscado, pois, uma vez que a participação é livre, as pessoas podem produzir conteúdos que não estão alinhados com a marca. 

 3. O que faz o case da Farm de engajamento com seus seguidores (que não são necessariamente consumidores dos produtos) ser tão bem-sucedido?

AC: Por ter sido uma das primeiras marcas a fazer isso, a ação se tornou "legal", desejável, e as pessoas têm vontade de participar.

4. Qual sua opinião sobre o mercado brasileiro de empresas que poderiam gerar demanda para o trabalho dos Instagrammers?

AC: Eu acho que esse tipo de serviço é muito válido. Para mim ele é melhor que um anúncio onde se gasta verba e o conteúdo não é necessariamente relevante para as pessoas.

 

* Reportagem produzida para o Laboratório de Jornalismo.