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Rio de Janeiro, 29 de maio de 2017


Economia

Inteligência emocional se revela decisiva no mercado

Larissa Fontes - aplicativo - Do Portal

10/09/2014

 Arte: Davi Raposo

“Seja você mesmo”. Esse é o conselho dado pelo consultor e professor de Psicologia da PUC-Rio Raphael Zaremba, quando estudantes pedem ajuda para os temidos processos seletivos. Especialistas garantem que a competência técnica não é mais o elemento decisivo para a conquista da vaga e o êxito profissional, e sugerem que os candidatos demonstrem inteligência emocional. O fator emocional se mostra tão presente no mercado de trabalho que Adriana Carla dos Santos, consultora do Sesc Rio, estima que 85% dos desligamentos das empresas se dão por questões comportamentais.

Termo queridinho no mercado corporativo, a inteligência emocional, habilidade de gerenciamento eficaz das nossas emoções e relacionamentos, parte do autoconhecimento. Segundo Adriana Carla, em palestra na XVII Mostra PUC, em agosto, primeiro é preciso identificar os pontos fortes e os pontos a desenvolver: “É importante ter maturidade para se reconhecer. Saber ouvir as pessoas com que convivemos é interessante nesse momento. Nem sempre conseguimos identificar sozinhos”, aconselha a consultora, que alerta para a insatisfação pessoal vinda da ausência do trabalho psicológico. Adriana Carla reforça a importância de saber identificar as qualidades para não deixar o pensamento negativo e a baixa autoestima afetarem o desenvolvimento.

 Arquivo pessoal Segundo Raphael Zaremba, que tem larga experiência em dinâmicas de grupo, não adianta tentar ser alguém que você não é, e sim buscar ter esse novo perfil. Como agir, o que dizer, como se comportar. Ele destaca ainda a necessidade de estar disposto a exercitar as habilidades que precisam ser fortalecidas. “Comportamento é muito parecido com um músculo: se você não malhar todo dia, não vai ficar definido”, compara o psicólogo.

– É um esforço, uma prática diária. É se expor a situações difíceis para você, com o objetivo de desenvolver essas características limitadas e conseguir dar as melhores respostas diante de qualquer cenário.

Movimento e flexibilidade

Capacidade de liderança, saber trabalhar em equipe, ser proativo. Essas qualidades têm lugar cativo nos requisitos de contratantes. O clichê se deve, segundo Adriana Carla, à velocidade da globalização, que exige movimento e flexibilidade dos profissionais. Por isso, ao longo da palestra, a palavra “adaptabilidade” apareceu com frequência.

 Arquivo pessoal – O mercado trabalha com velocidade, então esse é um ponto que precisamos enfatizar. Ser flexível às mudanças constantes tem grande importância dentro das organizações. Lógico que a qualificação e experiência do profissional terão seu valor dentro da empresa, mas o diferencial vem do comportamento.

Zaremba, que também vê maior valorização do fator humano em detrimento da técnica nos últimos anos, reforça a importância da competência específica em determinadas áreas profissionais, mas faz a ressalva de que hoje esse não é mais o fator determinante. Isso se deve à maior facilidade em adquirir o conhecimento técnico do que uma habilidade comportamental, lembra o psicólogo. Os crescentes avanços tecnológicos também contribuem nesse processo, visto que boa parte do trabalho braçal fica por conta de máquinas e outros artifícios.

– Sobra para o ser humano o trabalho intelectual, o que aumenta o nível de exigência do mercado. É mais fácil criar uma situação em que a pessoa possa aprender algo do que ser uma nova pessoa. Todas essas características que estão bem valorizadas fazem parte de um perfil. Se você e seu concorrente são competentes na parte técnica, é o perfil que vai diferenciá-los.

 Marcela Henriques A coordenadora de Recursos Humanos da L’Oréal, Tallita Fahl Kemmer, reforça a valorização da flexibilidade do profissional e a capacidade de pensar diante de uma situação negativa para obter resultados positivos. O mercado procura aqueles que conseguem solucionar problemas trazendo novas soluções para a questão, e não reproduzam um “simples copiar e colar”, lembra Tallita, que classifica a habilidade de sair de uma situação complexa uma das mais importantes características do profissional de sucesso.

– No nosso processo seletivo, por exemplo, em vez de perguntarmos se o candidato sabe utilizar um determinado programa de computador, damos a ele uma situação-problema em que vai ter que fazer uso dessa ferramenta de forma inteligente.

Inteligência emocional na infância

Assim como bons modos, educação e respeito, a inteligência emocional deveria ser trabalhada desde cedo, segundo os especialistas. Com experiência em Psicologia Esportiva, Zaremba exemplifica a importância da maior atenção no lado emocional, comparando a Seleção Brasileira com a campeã da Copa do Mundo, a Alemanha.

– A diferença entre as duas seleções, tirando características culturais e técnicas, está no comportamento em campo. A seleção alemã faz um acompanhamento psicológico desde as categorias de base, ou seja, desde os 12 anos de idade. Atleta ou não, se a pessoa chegar mais preparada na vida adulta terá mais chances de enfrentar os desafios que vai encontrar ao longo do percurso. (leia também: Com nivelamento técnico e físico, psicologia é mais um em campo)

Para Adriana Carla, orientação é a palavra-chave da inteligência emocional das crianças. Segundo a consutora, esse é um pensamento que já deveria estar atrelado à nossa cultura para que os pais conduzissem as crianças a um ambiente de escolhas e tomadas de decisão mais saudáveis. Já o psicólogo chama atenção para o diálogo entre pais e filhos. Segundo ele, a troca de experiências, que têm papel fundamental na formação da criança, está se perdendo com o tempo e os avanços tecnológicos. É preciso estimular conversas dentro de casa sobre erros e acertos em situações da vida, afirma.

– Com a exposição natural a experiências de sucesso e fracasso, vamos criando uma bagagem. E, se a criança puder compreender desde cedo que nem sempre as coisas vão sair do jeito que ela quer, mais fácil ela vai conseguir lidar com os próximos desafios.

Adaptação também do mercado

O mercado já investe em cursos e palestras com a temática emocional visando não somente ao bem-estar de sua mão de obra. Zaremba acredita que a alta rotatividade no mundo corporativo é o motivador desse movimento. Segundo o especialista, quando a empresa encontra um bom funcionário e busca retê-lo, além da estratégia lógica do aumento da remuneração, existem outras formas de cativar o profissional:

– O bônus é uma motivação, mas quando a empresa oferece treinamentos e cursos ela mostra que está investindo no desenvolvimento do funcionário, como ser humano e profissional.

Para o psicólogo, as empresas perceberam que este investimento aumenta o rendimento do profissional e, consequentemente, melhoram os resultados da instituição. Por outro lado, Adriana Carla lembra que nem todas as empresas oferecem esse tipo de trabalho especial, e afirma que cada um deve trabalhar por si mesmo:

– Nós somos gestores de nossas carreiras, não podemos limitar nossos passos. Em vez de esperar que façam por nós, podemos correr atrás das mudanças positivas com nossas próprias pernas.