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PUC-Rio

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Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2017


Economia

Domínio tecnológico não exclui olhar do repórter

Lucas Augusto - Do Portal

29/08/2014

 Andressa Pessanha

O repórter cinematográfico deve conjugar o olhar jornalístico com as técnicas de captação de imagens. Assim reforçam craques da área, como Marcelo Taranto, Marco Aurélio e Pedro Acyr, reunidos na segunda-feira passada numa mesa-redonda, na PUC-Rio, organizada pela professora de telejornalismo Luciana Barros. Eles lembraram aos futuros profissionais que o apetite em filmar, o domínio de novas tecnologias e a boa formação cultural são trunfos para se destacar em meio à profusão de imagens característica da nossa sociedade. Outra recomendação, ainda de acordo com aqueles bambas da imagem, foge aos livros: disposição para encarar circunstâncias adversas, "riscos inerentes à profissão", como os associados a coberturas de manifestações. O ímpeto, ressalvam os especialistas, não significa, contudo, uma licença para abdicar da segurança.

Tais atributos mostram-se importantes para superar a concorrência decorrente do aumento de profissionais do gênero, observa o repórter cinematográfico da TV Globo Pedro Acyr. Outra pedra no caminho, diz ele, é a distância entre a remuneração do mercado e o piso salarial de R$ 5 mil estabelecido pelo Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, e observa que esse valor é pago só aos profissionais mais experientes. Acyr acrescenta que nem todas as emissoras contratam profissionais do gênero como repórter cinematográfico, e sim como cinegrafistas, com formação técnica e, portanto, piso mais baixo.

Deficiências de formação também atrapalham a decolagem profissional, avalia o repórter cinematofgráfico da Globo. Ele conta que encontrou dificuldades, pois “falta prática nos cursos e são poucas as faculdades que possibilitam o contato com equipamentos”. Acyr reconhece, no entanto, que as novas safras de profissionais já apresentam uma qualificação mais consistente, além dos domínios operacionais, e os cinegrafistas há mais tempo no mercado desenvolveram a noção jornalística pela prática.

Se por um lado propaga-se a captação de flagrantes por meio de celulares e câmeras de segurança, por outro o compromisso e a visão jornalísticos distinguem o profissional do amador. Credibilidade, frisa Acyr, ainda faz diferença:

– Uma imagem produzida por um profissional e publicada em um grande veículo de comunicação é muito mais confiável do que a imagem de um amador publicada na internet. Basta observar a quantidade de manipulações digitais que são feitas e divulgadas como se fossem reais ­– argumenta.

Em busca de profissionais mais gabaritados, empresas passaram a arcar com a formação de talentos na área. O repórter cinematográfico Marco Aurélio, coordenador do treinamento dos estagiários na TV Globo, afirma que, "se o jovem tivesse uma prática frequente, sairia do curso habilitado em 60% para o trabalho". Para a formação prática, recomenda, é preciso aumentar do número de laboratórios e aperfeiçoar o intercâmbio entre profissionais experientes e iniciantes. Marco Aurélio aconselha que, ao entrar no estágio, o jovem esteja covicto da escolha, pois "muitos entram para o treinamento visando à transferência para outras áreas".

– Tivemos vários na primeira turma que desistiram do estágio ao serem apresentados às características da profissão – relata.

Para ser um bom repórter, o cineasta e professor do curso de Cinema da PUC-Rio Marcelo Taranto ressalta a importância do "olhar jornalístico". Repórter cinematográfico por 12 anos, ele argumenta que esse atributo facilita a riqueza de detalhes e a captação de imagens que se encaixem bem à reportagem:

– Ter esta noção auxilia na distinção dos fatos que podem se tornar notícia. Pois há muitos repórteres que, sem esta distinção, enxergam notícia onde não há. O cinegrafista também deve cultivar o faro de perceber o que é notícia e o que não é.

Além da conjugação entre jornalismo e cinegrafia, é preciso aliar os domínios tecnológicos a um olhar curioso. A tecnologia, anima-se Acyr, tem permitido captar ângulos e perspectivas inovadores, com o uso de câmeras pequenas de alta resolução e de drones, veículos aéreos não tripulados. Primos dos aeromodelos, já substituem os helicópteros nas coberturas jornalísticas em locais de difícil acesso ou perigosos, com a vantagem ainda do menor custo. Entretanto, as normas sobre o uso dos drones no Brasil ainda não foram oficializadas pela Agência Nacional de Aviação Civil.

Os avanços tecnológicos, advertem Acyr, Marco Aurélio e Taranto, não excluem a formação consistente, a criatividade e o olhar sensível na hora de contar uma história por imagens. Mauro Aurélio destaca a necessidade de "dominar mais a situação jornalística do que propriamente a câmera".

– Quando um equipamento, mesmo de nível inferior, cai nas mãos de um profissional capacitado e experiente, os resultados podem ser melhores, independente da qualidade da câmera – compara – Lógico que vai depender da habilidade e da criatividade do repórter, e da visão jornalística em torno do assunto – ressalva.

Os bambas da imagem reunidos na PUC-Rio destacam também que o repórter cinematográfico está sujeito a "riscos inerentes ao ofício". Momentos de perigo podem surgir "a qualquer momento", alertam. Eles lembraram, por exemplo, a morte do cinegrafista da Band Santiago Andrade, vítima de um rojão durante protesto em fevereiro deste ano, no centro do Rio, e de Gelson Domingos, baleado quando acompanhava uma operação policial na favela de Antares, na Zona Oeste do Rio, em 2011. Para Acyr, se Santiago tivesse um auxiliar, a morte poderia ter sido evitada. Marco Aurélio reitera a importância de ousadia e ímpeto profissional não serem confundidos com imprudência: 

– Na rua pode acontecer tudo. No caso do Gelson, ele ficou muito perto [da área do tiroteio] – avalia.

O repórter cinematográfico da Globo alerta que o excesso de autoconfiança pode prejudicar o trabalho jornalístco, pois abre caminho ao descuido. Uma formação sólida e as tecnologias para captação de imagem à distância, reduzem a exposição a riscos. Acyr afirma, entretanto, que a principal medida de segurança deve partir do próprio repórter cinematográfico:

– O repórter cinematográfico ou fotográfico muitas vezes precisa estar perto do perigo para captar a melhor imagem. Mas nenhuma reportagem vale uma vida. E não há equipamento de segurança que proteja um profissional imprudente.