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Rio de Janeiro, 20 de agosto de 2017


Desafios 2015

Koch: Saúde exige avanços em gestão e formação de médicos com ênfase no compromisso social

Andressa Pessanha - aplicativo - Do Portal

02/10/2014

 Marcela Henriques

O cenário da saúde no país incomoda mais do que a soma das deficiências de outras áreas igualmente essenciais à população. Assim indica levantamento recente do Datafolha, segundo o qual aquele setor é o líder de insatisfação entre os brasileiros (57%), seguido da educação (18%) e da corrupção (8%). Para 93% dos cidadãos, o sistema público de saúbe oscila entre "regular" e "péssimo". Torná-lo compatível com a carga tributária próxima a 40% do PIB (PIB, o conjunto das riquezas produzidas) mantém-se, portanto, entre os principais desafios do mandatário do Planalto, independetemente do resultado das urnas. Um dos primeiros passos é ajustar a formação da mão de obra ao princípio social, propõe o decano e professor da Escola Médica da PUC-Rio Hilton Koch. “Forma-se cada vez mais médico com prioridade por status e dinheiro, sem interesse em atender à população”, alerta Hilton. Em entrevista ao Portal, para a série Desafios 2015, o especialista aponta também as precariedades em infraestrutura de hospitais como obstáculos crônicos ao atendimento longe do ideal. Tais carências decorrem do que ele considera o principal entrave ao avanço do serviço público de saúde: “erro grave” de gestão. Segundo Koch, é investido dinheiro "suficiente" – o governo federal programa R$ 109 bilhões para a área em 2015, aumento de 9% em relação ao orçamento anterior –, porém observa-se uma "má distribuição dos recursos".

Os deveres de casa extrapolam os ajustes necessários ao déficit de 54 mil médicos – principalmente no interior – divulgado pelo Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), um calcanhar de Aquiles do Sistema Único de Saúde (SUS). Diante de problemas como a superlotação e a manutenção não raramente em coma de equipamentos e leitos, Koch traça um dignóstico veemente: apesar de a filosofia representar “uma das coisas mais fantásticas do mundo”, a inciativa descarrilhou. Recolocá-las nos trilhos exige uma conjugação de esforços políticos e competências administrativas muito além do que o programa Mais Médicos, que tenta compensar a centralização desses profissionais nas metrópoles, avalia o professor. "E levar o médico para o interior é difícil, porque, fora o dinheiro, a cidade grande oferece uma série de facilidades e melhores condições de vida”, reconhece.

Portal: De acordo com levantamento do Datafolha, 57% dos brasileiros consideram o sistema público de saúde o principal problema do país. Por que é tão difícil termos um serviço de qualidade?

Koch: Há diversos fatores. Um é a universidade pública de hoje, na qual os salários não são muito bons e, assim, afastam os profissionais. Outro ponto é a decadência dos hospitais do governo, que desestimula a busca por formação. Se houver uma gestão que ofereça melhores estrutura e salário, o profissional acaba melhorando.  Mas ainda acho que, nesse sentido, a questão central remete à formação adequada de médicos para atender a população. Forma-se cada vez mais médico cuja prioridade são status e dinheiro, sem interesse em atender a população carente. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) aplicou uma prova de conhecimentos básicos para médicos formados nas faculdades de lá. 82% não tiraram nota 6,0. Como um camarada que é médico formado em São Paulo faz a prova e não sabe tratar uma pneumonia?

Portal: Observamos, frequentemente, problemas também na infraestrutura de hospitais públicos em todo o país. Como resolver essas carências? Como o orçamento da área gira em torno de R$ 100 bilhões anuais, seria menos um problema de recursos do que de gestão?

Koch: Falam, geralmente, que a primeira coisa é o dinheiro, o investimento. Eu diria que depende mais de uma gestão adequada. Dinheiro é fundamental, mas, se não há alguém com bons conceitos de gestão para tornar consistente e atrativa a estrutura hospitalar, nada funciona. Logo, é preciso competência gerencial, para aplicar adequadamente os recursos disponíveis. Na Petrobras, por exemplo, há muito dinheiro, mas as falhas de gestão e os desvios de verba geraram problemas graves. Na saúde nem chega a ser assim, até porque a quantidade de dinheiro não é tão grande. O problema é o desperdício que cansamos de ver na televisão: um hospital com áreas enormes abandonadas; camas e leitos sem serem usados. Quem cuida disso? O melhor médico do hospital? Para se ter uma gestão não é assim. Ele pode ser um ótimo cirurgião, mas não ter competência para administrar o hospital.

Portal: O Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab) de 2013 apontam um déficit de 54 mil médicos no Brasil, sobretudo no interior. Quais são os motivos desta discrepância? Como resolvê-la?

Koch: Acho muito difícil isto mudar facilmente, por causa do status e das facilidades de que o médico abriria mão ao deixar a cidade grande. Podem ser oferecidos, por exemplo, R$ 100 mil para o profissional ir trabalhar nessas regiões, mas ninguém quer ir. Eu, como professor de radiologia, já formei 296 médicos. Desses, cerca de 60% voltaram para as cidades de origem, porám não para o interior do país. Mas, recentemente, o pessoal vem e não quer voltar, porque a cidade do Rio é atrativa. Não só pelo dinheiro, mas pelo acessos a melhores condições de vida, como shoppings, teatros, orquestras, mesmo em contraste com as coisas ruins. Quem vai para o interior do Amazonas ou do Maranhão? Eu, particularmente, não vejo estratégia para melhorar isso.  Isso acontece em outros países também. Fui para Miami (EUA), por exemplo, e lá há dois grandes hospitais onde tudo funciona. Só que a periferia das grandes cidades americanas tem padrão médico equivalente ao da metrópole. Aqui a gente ainda observa uma desigualdade incômoda. Se você for a São Gonçalo ou Nova Iguaçu, por exemplo, a qualidade do atendimento é inferior ou bem inferior à dos grandes centros, em geral. 

Portal: O programa Mais Médicos, do governo federal, representa uma tentativa de compensar a distribuição irregular de mão de obra. Até que ponto a iniciativa é válida para cumprir este objetivo, e o que precisa ser aperfeiçoado?

Koch: Antes de mais nada, é preciso lembrar que nada disso foi trabalhado com os médicos do Brasil. Foi opção governamental, política. É um programa que, eventualmente, pode contribuir com a população mais carente, mas seria adequado se os médicos pudessem realmente fixar-se lá, com boas estrutura e condições não só de trabalho, mas de vida. Só que eu não acredito que médicos formados no Rio, em São Paulo e outras grandes cidades vão para o interior mais carente.

Portal: Voltando à pesquisa do Datafolha, 56% dos brasileiros avaliaram o sistema público (SUS) como "péssimo" ou "ruim". Quais são os principais desafios para tornar eficiente esse sistema, cuja filosofia de integração é considerada um avanço?

Koch: O SUS, como ideia, é uma das coisas mais fantásticas do mundo. Quando foi implantado, você ia ao hospital, era atendido sem pagar e aquilo voltava para a instituição em forma de recursos para manutenção. Mas isso começa a se distorcer, porque o valor do atendimento fica pequeno e o profissional tem que atender uma quantidade grande de gente. Era questão de tempo, bastava usar a lógica: se é de graça um bom atendimento, a fila fica muito grande, logo tem que se atender muito mais rápido. O SUS, que era uma coisa fantástica, começa a ter problemas de superlotação e pouco recurso de investimento para manutenção e exames. A filosofia é espetacular, o retorno é que passou a ser ruim. Ainda acho que a gestão entra nisso também. Porque há locais onde o SUS funciona, como o Instituto Nacional do Câncer (INCA). É um hospital de luxo onde não se paga nada. O problema é a fila enorme. Há também o Hospital de Câncer de Barretos, onde 99% é SUS e o restante, doação. Um exemplo de gestão e credibilidade, atributos essenciais ao desenvolvimento de qualquer setor.  Marcela Maestrelli

Portal: Até que ponto as Unidades de Pronto Atendimento (UPA) conseguem aliviar pelo menos parte da superlotação observadas em hospitais públicos, decorrente, em parte, de pacientes que migram da perfiferia?

Koch: Acho que contribuíram para melhorar o cenário. O médico lá ganha bem, e, se ele não for trabalhar, é demitido. Ou seja, há uma garantia de médico. Observamos uma descentralização dos hospitais. Porque, quando os casos não são tão graves, os hospitais encaminham para alguma UPA. Não tenho uma relação muito próxima com as UPAs, mas acho que mudou alguma coisa. Pelo menos em lugares onde eu sei que funcionam muito bem, pela boa infraestrutura e o bom pagamento dos médicos. 

Portal: Em relação à qualificação de mão de obra, há falta de profissionais especializados em alguma área específica? 

Koch: Sim, geralmente no interior, onde os principais problemas de saúde se encontram. Discute-se na mídia a falta de pediatras, mas – usando o curso de pós-graduação de pediatria da PUC-Rio como exemplo – houve uma época em que praticamente não tinha aluno, e, de repente, passou a ter. Atualmente, somam-se cerca de 50 alunos por ano, contado com estrangeiros. Não sei por que a área anda com dificuldade. Na minha teoria, os médicos recém-formados optam mais por radiologia, dermatologia, cirurgias plásticas e oftalmologia porque essas áreas que oferecem melhor conforto, segurança de emprego e dinheiro. E, claro, descartam a opção de ir para o interior pelas razões já apontadas.

Portal: De que modo poderíamos melhorar a relação das instituições formadoras com o mercado de trabalho?

Koch: A reformulação geral – se fosse possível – deveria trabalhar para ter boas faculdades em qualidade, não em quantidade. A formação deve ser bem adequada tanto em relação a conceitos básicos quanto em relação ao atendimento às pessoas. Saber lidar e comunicar-se com elas também deve ser aprendido. Senão, o futuro médico estuda por seis anos, chega à residência e sabe muito pouco sobre como tratar um paciente. Sem a boa formação, não tem nem como reclamar da infraestrutura. Se você consegue fazer com que o médico se vista seriamente, tendo respeito às pessoas, ou seja, uma formação também educativa, tudo mudaria. Tem que ser médico de verdade, e não pensar só no dinheiro e no status. Tem que atender até em horário de almoço, por exemplo. Isso é o conceito de médico, para mim. O governo deveria investir nisto.