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Rio de Janeiro, 30 de março de 2017


Desafios 2015

Cunha: Brasil precisa reaver fundamentos econômicos

Marcela Henriques - aplicativo - Do Portal

08/09/2014

 Marcela Henriques

Em meio às variações da corrida eleitoral, uma certeza se impõe ao próximo ocupante do Planalto: a economia precisa voltar a crescer. Recessão à porta, o casamento entre inflação alta – próxima ao teto de 6,5% estabelecido pelo governo (6,27%, de acordo com o IPCA-Índice de Preços ao Consumidor Amplo divulgado no mês passado) – e crescimento baixo – o Produto Interno Bruto (PIB), a soma dos bens e serviços produzidos, deve crescer em torno de meio 0,5%, projeta o Banco Centrral – expõe a necessidade de remédios capazes de recuperar o fôlego industrial, a competitividade e a credibilidade no mercado globalizado. "O Brasil vive um processo de desindustrialização, resultante da baixa competitividade", alerta o economista Luiz Roberto Cunha. Diante dos sintomas da contração econômica resistentes ao prolongamento de antídotos como o estímulo ao consumo por meio da oferta de crédito e a isenção tributária para eletrônicos e automóveis, acumulam-se sugestões de mudanças drásticas. Para Cunha, no entanto, o jeito é corrigir gradualmente os desvios e retomar os fundamentos da política macroeconômica. "Mudança radical é um caminho arriscado", argumenta. 

Nesta abertura da série de entrevistas sobre os grandes desafios brasileiros, o decano do Centro de Ciências Sociais da PUC-Rio constata: andaram quebrando o tripé da estabilização econômica. Para deixá-lo novamente firme, é preciso, entre outros ajustes, reorganizar a política fiscal: "O Banco Central sozinho não tem como controlar a inflação se a política fiscal é expansionista e desorganizada. O BC usa as reservas de 300 milhões de dólares para segurar o câmbio valorizado, o que prejudica a indústria e aumenta o custo Brasil", avalia Cunha. Na conversa com o Portal, Cunha também explica por que o freio econômico não se traduz (ainda) em mais desemprego e descarta uma ajuda continental representativa para o país retomar o bonde do crescimento. "Sob o ponto de vista econômico, o Mercosul é uma tragédia que prejudica o Brasil", sintetiza.

 

Portal: Quais os principais desafios do próximo presidente para o Brasil retomar o bonde do crescimento econômico?  Como o Rio se insere nesse propósito?

Cunha: O Rio ainda é uma economia importante sob o ponto de vista industrial, mas a atividade do petróleo e o turismo são o grande elemento propulsor. Sob o ponto de vista da atividade industrial, tem um problema que é do Brasil inteiro: há um processo de desindustrialização. Todos os setores industriais, de uma forma geral, têm sofrido com isso. Esse processo tem a ver com a competitividade da indústria brasileira.  Marcela Henriques

No turismo, a tendência, com as Olimpíadas, é crescer gradativamente. O Rio, especificamente, está passando por uma transformação urbana de uma magnitude enorme: tanto na parte do Porto Maravilha como nas obras do Transcarioca. Isso tudo está dando outra dimensão à cidade. Então, do ponto de vista econômico, se o Brasil crescer mais forte nos próximos anos, o Rio vai correr junto, talvez até na frente, porque o petróleo vai crescer mais que a média das indústrias. Mesmo se não houver um crescimento forte nas demais áreas, na indústria do petróleo haverá um forte crescimento. Assim como o turismo, que vai continuar se beneficiando principalmente na cidade do Rio. Então, em princípio, é favorável o quadro econômico para o Rio. O que me preocupa um pouco é a questão da segurança e da violência, porque, na verdade, o projeto das UPP’s é necessário, é importante que tenha continuidade. O próximo governo tem que olhar muito bem para isso, porque isso afeta a economia e os investimentos na cidade e no estado.

Portal: Sabemos que a inflação está alta e o crescimento, baixo. Como podemos virar esse jogo?

Cunha: Há três caminhos. O primeiro é seguir basicamente a mesma política macroeconômica, e acho que até a presidente Dilma sabe que esse caminho está esgotado, quer dizer, existem riscos sérios em relação à continuidade do modelo. Um deles é o que chamamos de downgrade das agências de risco (rebaixamento do país nas condições para captar investimento), porque a questão fiscal está muito deteriorada, e isso não seria bom para a economia brasileira. Outro caminho é fazer uma mudança radical, corrigir tarifas, reduzir os ganhos reais de renda. Também é um modelo arriscado. E há uma terceira linha: retomar os fundamentos da política macroeconômica. Acho que esse vai ser o caminho adotado, independente de quem ganhe a eleição. Isso significa não que voltaremos a crescer fortemente, até porque as condições externas serão negativas, mas vai permitir que cresçamos um pouco mais do que hoje. A inflação também não vai cair rapidamente, mas será menor. Ou seja, o cenário básico dos próximos quatro anos é de uma inflação um pouco menor e um crescimento um pouco maior. Assim a economia ficará mais dinâmica.

Portal: Como o senhor explica um nível de desemprego baixo num Brasil com pouco crescimento econômico e juros altos?

Cunha: Isso tem a ver com a juventude. A taxa de desemprego é uma relação aritmética, com numerador e denominador. No numerador, tem o nível de emprego e desemprego, e no denominador, o PEA (População Economicamente Ativa), que representa as pessoas no mercado de trabalho. Na equação, se tem 2/4, dá meio, por exemplo. Se se reduzirmos a base do denominador para 2 e mantivermos o numerador, ou seja, o mesmo número de empregados e desempregados, o resultado de emprego melhora, sobe para 1. Com o Bolsa Famíliae os programas de FIES (Fundo de Financiamento Estudantil), mais jovens entraram nas universidades, o que reduziu a base da equação. Estudos mostram que parte da população atendida pelo Bolsa Família não tem muito incentivo de procurar trabalho: está, digamos, acomodada em condições melhores do tinha. Se juntarmos isso à chamada “geração nem nem”, formada por pessoas que nem estudam nem trabalham, a base se mentém reduzida. O fenômeno até é positivo do ponto de vista do resultado, e pode continuar assim no longo prazo. Por outro lado, pressiona o mercado de trabalho, porque, como o desemprego é baixo, isso acaba pressionando a inflação, o que leva à alta dos juros.

Portal: Como retomar o fluxo de investimentos, principalmente estrangeiros, uma das condições essenciais para o país voltar a crescer? Como deixar o Brasil mais atraente ao investidor, especialmente quando a economia americana começa a se recuperar? 

Cunha: Se continuar como está, em algum momento nos próximos anos os juros nos Estados Unidos sobem e na Europa, não, porque ela está em uma crise que pode se aprofundar, e haverá menos atrativos para investir no Brasil. Em política econômica, a credibilidade é muito importante. Infelizmente, o Brasil perdeu um pouco dela nesses últimos dois, três anos em que as condições externas foram desfavoráveis. A forma como o país enfrentou essa questão, fazendo as coisas de forma desorganizada, gerou prejuízo. Como disse, a correção de rumos na política macroeconômica, com a retomada de fundamentos, sem movimentos drásticos, deve ser a melhor alternativa.

Portal: Falando em fundamentos da política econômica, como manter firme do tripé da estabilização econômica conquistada desde o Plano Real: superávit primário, câmbio flutuante, meta de inflação?

Cunha: Esse tripé já andou sendo quebrado. Houve uma política econômica estabelecida em 1999 depois da desvalorização cambial, e ela foi mantida nas suas bases durante os oito anos de governo Lula. Em função de uma piora do quadro externo, o modelo acabou sendo totalmente invertido. O Banco Central sozinho não tem como sustentar a inflação baixa, se a política fiscal é expansionista e está totalmente desorganizada. O Banco Central usa as reservas de 300 milhões de dólares que o país tem para segurar o câmbio valorizado, o que prejudica a indústria e aumenta o custo Brasil, mas segura a inflação. Se tentarmos recuperar gradualmente essa medida sem dar um choque, me parece que pode funcionar.

Portal: Voltando ao cenário externo, até que ponto a crise na Argentina e a atrofia do Mercosul atrapalham a missão de crescimento do Brasil?

Cunha: A falência da economia argentina nos afeta brutalmente. O Mercosul é uma catástrofe. Não são viáveis acordos com vantagens que só funcionam para um dos lados. Infelizmente, os países que estão crescendo na América Latina, como Chile, Peru e Colômbia, não fazem parte do Mercosul. Então, estamos amarrados ao Paraguai, que não é um país relevante; ao Uruguai, que é uma sociedade muito democrática e poderosa, mas também é um país insignificante; à Argentina, que prejudicou fortemente o governo Dilma, e à Venezuela, que é um país em crise. O Mercosul tem importância política latino-americana, mas, sob o ponto de vista econômico, é uma tragédia que prejudica o Brasil.

Portal: Em relação à China, que se tornou a locomotiva mundial nesses anos de crise externa, quais os impactos da recalibragem da política econômica, com maior valorização do mercado interno, para o Brasil?

Cunha: A China nunca foi um forte parceiro econômico do Brasil: exportamos e importamos pouco dela. A China, quando crescia fortemente, ajudavam o mundo inteiro e o Brasil. Ela importa minério, ferro, soja, mas não é um grande parceiro comercial do nosso país, embora qualquer coisa que a China importe é sempre em volumes muito altos. Mesmo tendo desacelerado o crescimento, a China ainda vai crescer 7% ao ano. Além disso, está fazendo ajuste de uma sociedade dividida entre o capitalismo quase selvagem e uma parte rural. Ela tem que fazer com que isso se volte para dentro. Tem que aumentar o consumo interno. Então, nessa mudança do modelo econômico chinês, o país evita que haja uma ruptura, mas isso prejudicou o Brasil: o governo Dilma não aproveitou parte daquela onda na qual o governo Lula surfou. A China tem interesses, obviamente, no Brasil, nos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul). Isso é uma coisa importante para contrapor à hegemonia europeia e americana, mas são países com políticas e economias diferentes. A China não está ajudando, porque ela está se preparando para dar um salto maior no futuro.

Portal: Falando agora da nossa política econômica. O senhor acredita que a tática de estimular o consumo, por meio da oferta de crédito e das isenções fiscais a setores da indústria, esteja esgotada, como afirmam muitos analistas?

Cunha: Esgotou, porque não conseguimos fazer isso por um período muito longo. Isso foi muito importante, mas tem um custo maior nas famílias. Elas começam a se endividar, o juro teve que subir. Mas foi um modelo importante por um tempo. O problema todo é o excesso. O principal problema da politica econômica nos últimos anos é que algumas coisas foram feitas excessivamente. A carga tributária no Brasil é tão absurda que qualquer desoneração é bem vinda, mas a forma como feita, generalizada para vários setores, e ao mesmo tempo um conflitando com o outro, não gerou o ganho efetivo necessário.

Portal: Em relação à isenção fiscal em setores como eletrônicos e automóveis, o senhor acredita que o problema esteja menos na dose do que no remédio?

Cunha: As pessoas se endividaram, os juros subiram, e essa variável dependia de outros fatores. Ou seja, essa coordenação da política econômica no governo Dilma foi falha, então não resolveu o problema. A receita foi reduzida, quando era preciso mais receita por causa do fiscal. O consumo foi estimulado num momento em que os juros subiram e as pessoas se endividaram. Então, houve uma série de erros que não ocorreram no governo Lula, embora sejam dois momentos diferentes. A cada momento na economia, a situação é diferente, mas houve um excesso de medidas, e elas foram tomadas uma atrás da outra.