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Rio de Janeiro, 23 de maio de 2017


Cultura

União entre livro e videogame impulsiona mercado editorial

Mariana Bispo - Do Portal

22/10/2015

 Paula Bastos Araripe

O brasileiro lê, em média, quatro livros por ano, só dois deles inteiros, segundo a pesquisa Retratos da Leitura, do Instituto Pró-Livro. Uma das esperanças para melhorar o índice de leitura, a conexão entre os jogos eletrônicos e o mundo literário torna-se uma prática frequente. Caso da parceria entre a produtora Blizzard Entertainment e a editora Random House LLC, dedicada a publicar romances inspirados nos universos dos jogos Warcraft e StarCraft. Outro emblema deste casamento promissor revela-se o Diário de um zumbi do Minecraft, que narra a aventura de um monstrinho do game cultuado pela garotada, um dos livros mais procurados no estande da Editora Sextante, na 17ª Bienal do Livro, mês passado, no Rio. Baseado também no Minecraft, Invasão do mundo da superfície, de Mark Cheverton, turbinou as vendas da Editora Record na feira. Crescentes apostas do segmento editorial, publicações do gênero contribuíram significativamente para os R$ 83 milhões arrecadados nos 11 dias da Bienal.

Outro exemplo remete à série Assassin’s Creed. Inspirada nos jogos eletrônicos de mesmo nome, está entre sucessos comerciais da Record desde 2012. Para a supervisora de graduação em Design da PUC-Rio, Maria da Graças Chagas, a literatura mostra-se uma poderosa ferramenta para contemplar os jogos eletrônicos: “A maior contribuição que o mundo editorial está trazendo para o universo dos games são as narrativas, o bom desenvolvimento de histórias com elementos tradicionais”. Contudo, a especialista em jogos eletrônicos ressalva:

– O livro só perde na questão interativa. seu potencial de interação é bem menor do que os games.

Paula Bastos AraripeUsuários e desenvolvedores de jogos eletrônicos reforçam a contruibuição narrativa do mundo literário. Para Rafael Assis, estudante da RedZero, escola de desenvolvimento de games, "a história é soberana e o enredo tem que estar acima da diversão". Amante da saga Assassin’s Creed, ele argumenta:

– Se a narrativa for boa, por si só, ela atrairá jogadores. Os livros nos dão a oportunidade de voltarmos ao tempo do jogo e entender melhor o que, talvez, tenha servido só para diversão. 

A cada ano, cresce a quantidade de livros que ganham as telas de videogames, como O Hobbit: A batalha dos cinco exércitos e Dain Ironfoot. “Assim como em livros, o roteiro e a construção de personagens bem desenvolvidos são fundamentais para gerar bons jogos”, compara o professor de Desenvolvimento de Jogos Eletrônicos da RedZero Bruno Santiago. Ele acrescenta:

 – O desenvolvimento de um game se baseia num roteiro, assim como um livro e filme. Quando um livro tem uma boa narrativa e personagens bem desenvolvidos, que cativam por meio das letras, muitos transformam isso em quadrinhos. Geram um storyboard, ponto de partida para uma animação ou um jogo eletrônico – explica.

Para o escritor e tradutor André Gordirro, a conexão entre o universo literário e o os jogos eletrônicos tende a favorecer a expansão do gênero fantástico e a atrair novos adeptos aos livros:

– O que está em jogo é o incentivo à leitura, a busca por novos leitores. O jovem pode nunca ter lido um livro de fantasias, mas por jogar RPG online ou outros jogos eletrônicos, ele acaba lendo livros para ampliar o conhecimento sobre a narrativa do game. Cria-se, então, um leitor de fantasias. Daí, para outros gêneros, é um pulo – anima-se Gordirro.

O estudante de Física da UFRJ Ângelo Daumas, 18 anos, é um dos amantes dessa integração entre a literatura e o videogame: “A narrativa fica melhor nos livros, tenho a impressão de que eles expandem o universo dos games”, justifica. Fã do universo expandido Startcraft e Warcraft, o jovem conta que nem sempre teve uma relação tão próxima com a leitura:

– Os livros não faziam parte da minha rotina, mas o videogame me acompanhou durante toda a minha infância e permanace a minha paixão. Quando surgiram os livros inspirados em games, comecei a me aproximar da literatura. Para mim, a migração dos jogos para as telas foi um incentivo para eu entrar no universo da leitura.

Mercado de jogos eletrônicos em expansão

Na contramão da crise econômica, o setor de videogames avança no país. Concentradas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, emoresas da área faturam R$ 1 bilhão por ano, estima levantamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). André Gordirro acredita que esta expansão terá efeitos positivos no mercado editorial e ajudará a pescar novos leitores: “Tudo gira em torno de atrair e formar leitores. Isso será cada vez mais fácil por meio das novas mídias”. Ele completa:

Paula Bastos Araripe  – Hoje as crianças já nascem praticamente dominando a tecnologia, com tablet, controles de Playstations ou X-Box na mão, o que faz do parâmetro dessa geração a virtualidade, a mídia. A paixão pelo game pode vender a curiosidade por livros baseados naquela história. Com isso, o jovem estará entrando no mundo da leitura não pelos métodos mais tradicionais impostos pela escola, com livros como A Moreninha, Dom Casmurro, Grandes Sertão Veredas, mas por temas de seu interesse.

Embora esteja entre os cinco maiores consumidores de games do mundo, o Brasil ainda sofre com a falta de investimento e reconhecimento da produção nacional, avalia Maria Chagas. “Um dos maiores desafios é que o público brasileiro não consome jogos nacionais. A pirataria e os altos impostos são obstáculos que precisam ser rapidamente resolvidos”, observa. Ainda assim, Bruno Santiago acredita num salto do setor no país:

– Os brasileiros estão absorvendo lentamente o videogame como uma profissão. Por outro lado, somos grandes consumidores de games, o que estimula o investimento em produções nacionais. 

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