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Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2017


Cultura

Rock e indústria cultural em perspectiva histórica

Yasmim Restum - aplicativo - Do Portal

21/09/2015

 Divulgação

Era um garoto que amava o rock nacional dos anos 1980. Tornou-se historiador, e acabou entrando na história de uma de suas bandas favoritas, a Legião Urbana. Professor da PUC-Rio e doutor em História Social pela UFF, Romulo Mattos foi convidado a pesquisar, organizar e escrever a biografia do guitarrista Dado Villa-Lobos, em parceria com o também historiador e amigo Felipe Demier, professor da Uerj. Memórias de um legionário (Editora MauadX) será lançado nesta quinta-feira, 24, na PUC-Rio, com sessão de autógrafos (o livro poderá ser adquirido no local) e debate, às 15h, na sala K102 na Ala Kennedy.

O livro, em primeira pessoa, é o primeiro sobre a banda escrito por um ex-integrante. Os pesquisadores, co-autores, cruzaram os depoimentos do guitarrista com outras fontes documentais e informações publicadas na imprensa e em livros como Renato Russo: o trovador solitário (Relume Dumará, 2000/Ediouro, 2006), e Brock: O rock brasileiro dos anos 80 (Editora 34, 1995), ambos do jornalista e professor da PUC Arthur Dapieve; Renato Russo – O filho da revolução, de Carlos Marcelo Carvalho (Agir, 2009);Dias de luta: O rock e o Brasil dos anos 80, de Ricardo Alexandre (Arquipélago, 2002); O diário da turma 1979-1986: A história do rock de Brasília, de Paulo Marchetti (Editora Conrad, 2011); e Rock and roll é o nosso trabalho: A Legião Urbana do underground ao mainstream, de Érica Ribeiro Magi (Alameda, 2013).

Em entrevista ao Portal, Romulo destaca que, diferentemente de outras obras biográficas, a participação de dois historiadores permitiu uma maior contextualização do momento do rock nacional e um maior compromisso com a checagem das informações. “Penso que a memória sobre a Música Popular Brasileira ainda está engatinhando, e as barreiras jurídicas que existem atualmente não ajudam em nada esse projeto tão relevante. Essa necessidade de autorização para se escrever sobre determinado personagem traz prejuízos à liberdade de expressão e ao direito à informação”. Segundo o historiador, o leitor pode esperar encontrar em Memórias de um legionário bastidores, conflitos e curiosidades inéditas sobre uma das bandas mais influentes do Rock Brasil.

 Paula Bastos Araripe Portal PUC-Rio: Como se deu a união entre Dado Villa-Lobos, Felipe Demier e Romulo Mattos?
Romulo Mattos: 
Felipe Demier é colega de futebol do Dado, jogavam juntos na pelada dos artistas, no Horto, que também frequentei. Um dia, Felipe perguntou ao Dado se ele não gostaria de escrever um livro, uma biografia. Dado respondeu: “Não dá, não tenho tempo para isso. Imagina eu passar dois anos escrevendo um livro. Nem sei escrever um livro, sou músico”. Felipe retrucou: “Então eu faço para você este livro. Interessa?”. Na época, o Dado estava lendo a autobiografia Life, de Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, e se interessou pela proposta. Felipe, já que ele sabia que eu tinha interesse pelo rock brasileiro, então me ligou. Eu sempre tentei conciliar meus estudos acadêmicos com o estudo de música popular, apesar de nunca ter sido meu eixo de pesquisa – mas, com certeza, vai se tornar agora.

Portal: Como foi seu primeiro encontro com Dado?
Romulo: 
Foi curioso. Quando vi o rosto dele, logo me lembrei das capas de disco, toda aquela sensação de “já gostei bastante deste sujeito”. Esse encontro foi de legitimação do projeto, eu tinha que mostrar a ele que eu sabia do que eu estava falando, que eu sabia da história do rock e da Legião, porque nós precisávamos convencê-lo. Ao final do encontro, ele tinha se impressionado e confiou fortemente em mim e no Felipe. Acredito que também ajudou o fato de ser professor da PUC-Rio, o que abre portas.

Portal: O que os fãs da Legião, principalmente os mais jovens, que não acompanharam a banda, encerrada depois da morte do Renato Russo, em 1996, podem descobrir nas páginas de Memórias de um legionário?
Romulo: 
Os bastidores, com certeza. O livro reúne informações oriundas de pesquisa em documentos inéditos da banda, conectando a sua história a uma análise explicativa sobre a consolidação do campo do rock no Brasil. O leitor vai poder se aproximar de um Dado que respeita, admira e que era fã do Renato Russo, um ídolo para a galera jovem de Brasília, mas que também sofria de estrelismo. Mesmo assim, para Dado, Renato Russo está para o rock brasileiro assim como Tom Jobim está para a bossa nova. Mais do que isso, o livro foi um processo psicanalítico para ele, que disse ter ficado consciente de muita coisa a cada depoimento.

Portal: O que foi mais difícil na reconstituição da trajetória da banda, uma das mais populares de rock brasileiro?
Romulo: 
Fazer a pesquisa para confirmar o que Dado contava. Ele já não se lembra de muita coisa, ou lembra parcialmente. Checar o que ele estava falando foi importante para a confiabilidade do livro. Foi mais fácil depois que a Legião Urbana estourou, no segundo disco, porque cada passo que ela dava, a imprensa noticiava na revista Bizz, por exemplo, principal veículo do rock brasileiro, do jornalismo cultural jovem. Mas tem um período anterior sobre o qual pesquisei no acervo oficial da banda, criado e organizado pela Fernanda Villa-Lobos – mulher de Dado, ex-empresária da banda e designer de muitas capas de disco da Legião –, ou mesmo para lembranças de fãs postadas na internet.

Portal: Vocês se confrontaram com versões diferentes de histórias do Dado e da imprensa?
Romulo: 
Houve alguns momentos. Dado disse, por exemplo, que gostava do Lobão porque o primeiro disco dele lembrava o do REM. Mas, checando, verifiquei que o disco do Lobão saiu primeiro. É esse tipo de coisa que, se não for verificada, acaba passando pelo biógrafo, que confia na memória do artista, não checa as informações e acaba embarcando na ideia.

Portal: Normalmente, as biografias são escritas pelo próprio artista ou um escritor ou jornalista convidado. O que muda nesse processo de reconstrução da memória com a participação de dois historiadores?
Romulo: 
Os historiadores têm preocupação em não promover a chamada “ilusão biográfica”, termo de Pierre Bourdieu. Basicamente, significa que o enredo de uma vida não é uma trajetória retilínea em direção a um fim determinado que já se manifestava desde os momentos mais remotos da infância do personagem. Dado queria começar o livro afirmando que ele nasceu próximo ao último show dos Beatles, talvez já tentando conectar esse fato à trajetória de vida dele, como se fosse destinado para o rock. A gente conversou, e o livro começa com o fato de que ele nasceu no mesmo mês em que a faixa Satisfaction dos Rolling Stones foi gravada, e ele tem orgulho disso. Nós tivemos uma preocupação de fazer um debate bibliográfico, porque às vezes o que o Dado trazia de informação era diferente daquilo do que falavam outros livros. Em vez de fingir que nunca tínhamos ouvido falar em nada diferente, eu e o Felipe promovemos este debate. Felipe e eu temos consciência de que esta é a memória do Dado, e temos interesse em entender como a trajetória do Dado ajuda a aluminar a história do rock brasileiro e da indústria cultural da época. Garante um sentido, um compromisso com as evidências, um cuidado maior com a pesquisa histórica e com a contextualização da criação de determinados discos e músicas. 

 DivulgaçãoPortal: Qual a contribuição desta biografia como trabalho historiográfico?
Romulo: 
A biografia já é objeto dos historiadores há um tempo. Esta biografia seria bastante rica no sentido de iluminar a história do rock nacional e da solidificação da indústria cultural brasileira, além de como os palcos se profissionalizaram, os sistemas de som se aprimoraram, como que críticos de rock começam a pipocar, e produtores começam a formatar um gênero musical. É a história da cultura brasileira em um determinado período. Dado foi uma testemunha e um agente dessa transformação no profissionalismo da música brasileira.

Portal: O Brasil é um dos únicos países democráticos em que há a possibilidade de suspensão da veiculação de obras biográficas pela figura pública ou familiares. Quais os maiores prejuízos desse tipo de censura?
Romulo: 
Tivemos receios quanto ao personagem Renato Russo, mas seria impensável o Dado escrever suas memórias ignorando a presença e a importância do vocalista da Legião. Deveríamos “pular” as polêmicas relacionadas ao roqueiro porque o seu espólio poderia interditar a obra? Optamos por abordar essas histórias, e algumas até já haviam sido publicadas em revistas e livros. Trata-se de uma situação limitadora, e mesmo ridícula. Há exemplos de biografias que ficaram interditadas devido a impasses financeiros com os herdeiros do biografado, como a do Garrincha, escrita por Ruy Castro, ou que foram vetadas pelo próprio personagem enfocado, como Roberto Carlos em detalhes, de Paulo Cesar Araújo, também professor da PUC. Apesar de os autores terem usado documentos que eram públicos, reproduzidos em jornais, revistas e livros, não teve jeito. Essa necessidade de autorização para se escrever sobre determinado personagem traz prejuízos à liberdade de expressão e ao direito à informação. Não custa lembrar que a radiofusão de Faroeste caboclo, provavelmente o maior sucesso da Legião, era vetada pela censura em 1987, quando foi lançado o disco Que país é este?. Já imaginou se essa música não tivesse chegado ao grande público?

Portal: Após recente vitória jurídica que restituiu o uso da marca Legião Urbana não só a Giuliano Manfredini, filho do cantor Renato Russo, mas também a Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, como essa reconquista foi recebida pelos autores do livro?
Romulo: 
Na época da escolha do título do livro foi aquele drama, porque não podíamos utilizar o nome “Legião Urbana”. Quando saiu a vitória, o projeto gráfico já tinha sido feito, e o contrato já tinha sido assinado com o nome Memórias de um legionário, mas esta decisão judicial nos deus mais confiança para que nós usássemos uma foto da Legião Urbana inteira. E alguns trechos polêmicos, de vocabulário mais explosivo em relação a Renato Russo, foram amenizados, mais como uma saída jurídica.

Portal: O que mudou no olhar do Romulo que acompanhou, ainda jovem, a trajetória da banda para o Romulo historiador, que participou da biografia da Legião?
Romulo: 
Eu tinha o olhar de fã, idealizado. A Legião Urbana era a banda da minha infância. O primeiro show que eu vi, curiosamente, foi da Legião Urbana, o lançamento do disco Que país é este?. Eu tinha 11 anos e tive que ir com a minha mãe! Os meus colegas de escola pediam discos da Legião no amigo oculto. Reencontrar o Dado, eu já formado em história, pesquisador, me fez entender melhor a forte pressão sobre os integrantes de uma das bandas mais populares do país, todas as brigas, os interesses da indústria, as estratégias da banda com a imprensa, com a mídia. Eu tinha a visão de fã e agora, de forma inimaginável, tenho uma relação profissional, mas também de companheiro, e mesmo de amigo deste sujeito que é muito gentil e agradável, sem a menor afetação ou estrelismo.

 ArquivoPortal: Poderia compartilhar uma história marcante deste processo de dois anos de entrevistas e pesquisa para o livro?
Romulo: 
Nós sempre fazíamos entrevistas regadas a vinho e queijo, no estúdio de Dado ou na casa de Felipe. Uma vez, Dado começou a contar uma história da banda. Aos poucos, ao perceber que aquela história de algum modo tinha uma implicação na vida dele, ele foi parando, parando, e entrou em um estado completamente reflexivo, e ao mesmo tempo percebeu que estava com um nível muito baixo de glicose no sangue – Dado é diabético. Foi um misto de emoção e falta de glicose! Então nós tivemos que parar por ali naquele dia. Em outra vez, estávamos na casa do Felipe, em clima de comemoração, porque tínhamos encerrado as entrevistas, e tínhamos bebido bastante. Dado decidiu ir para casa, na mobilete dele. Ele saiu com alguma dificuldade, mas foi mesmo assim. Demos um tempo e ligamos para saber se ele tinha chegado bem em casa, e ficamos completamente tensos porque ele não atendia o celular! E ficamos pensando se não tínhamos acabado com uma história, se não tínhamos sido responsáveis por uma tragédia... Só depois percebemos que ele tinha esquecido o celular na casa do Felipe, e 9h da manhã ele bateu na porta, com roupa de ciclista, pronto para subir as Paineiras. Um atleta exemplar: bebe a noite inteira e já está pronto para outra às 9h da manhã.