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Rio de Janeiro, 23 de maio de 2017


Cultura

Resistência da cultura negra ganha exposição

Cecília Bueno - Do Portal

10/11/2015

Maria Paula Freire

O mês da Consciência Negra impulsiona a segunda edição do projeto IMÓ: O Despertar da Consciência nas unidades do Sesc do Rio de Janeiro (veja o roteiro completo na página eletrônica do Sesc Rio). Com uma agenda recheada de discussões e manifestações afro-culturais, a Década Internacional do Afrodescendente – instituída pela Unesco em dezembro de 2003 – é celebrada e avaliada por estudiosos e artistas. O show de Martinho da Vila, hoje, às 19h, no teatro Sesc Ginárico, no Centro, abre a programação que inclui, por exemplo, a exposição 30 anos de Ojuobá Axé- uma história de resistência. Instalada no Sesc Caxias até 12 de dezembro, a mostra conta a trajetória da instituição afro-cultural por meio de instalações artísticas e audiovisuais inéditas. As peças unem-se ao acervo da própria Ojuobá Axé e a fotografias produzidas por integrantes e colaboradores. 

A fundação Ojuobá Axé foi criada há três décadas com a missão de valorizar e promover a cultura negra, universalizar a informação e promover ações afirmativas com jovens no município de Duque de Caxias, explica a diretora artística e fundadora Luana Guimarães. "Transforma a vida de moradores de quatro comunidades locais", acrescenta. A iniciativa de Luana despertou o interesse de duas universitárias e moradoras da Baixada Fluminense: a estudante de Jornalismo da PUC-Rio Mariana Bispo e a estudante de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Maria Paula Freire. Juntas, elas iniciaram, há quase um ano, a produção de um documentário sobre a história e o trabalho da Ojuobá Axé. Parte dos bastidores da obra das estudantes está exposta no Sesc de Duque de Caxias, ao lado das imagens assinadas por Thiago de Paula, fotógrafo oficial da instituição, e de materiais gráficos produzidos pelo Sesc.

Maria Paula FreireNa sexta-feira passada, o balanço e a simpatia das crianças integrantes da fundação comoveram o público. Com coreografia de Liuy Arisson, percussão de Kaio Ventura e Mestre Marcos Antônio e figurino do senegalês Lassana Mangassuba, o espetáculo inaugurou a mostra 30 anos de Ojuobá Axé. Para a criadora do projeto social, o reconhecimento do Sesc é um impulso à continuação do trabalho:

– Viemos de uma luta sofrida. Mas, se formos lapidados, um diamante é despertado. Ao longo dos anos, vencemos muitos obstáculos e, a cada etapa, temos certeza do saldo positivo e da diferença que o Ojuobá faz na vida daquelas famílias da comunidade. É um sentimento de dever cumprido saber que o meu trabalho ultrapassou as paredes da instituição.

Por meio de danças, músicas, desfiles, aulas de história, entre outras atividades, o conhecimento negro é transmitido aos jovens das quatro comunidades próximas à fundação. A fotógrafa e cinegrafista Maria Paula Freire conta como esta iniciativa estimulou a produção do documentário com a amiga Mariana:

– A necessidade de trazer visibilidade à força da Baixada Fluminense se personificou na história de Luana. Eu e Mariana nos afinamos desde que pisamos na instituição. Contar a história desta grande mulher é contar histórias de luta e militância negra em Duque de Caxias.

Diretora do documentário que expõe a batalha de Luana na Baixada Fluminense, Mariana Bispo ressalta a importância da ativista para região:

– O protagonismo, a voz e a ousadia de Luana foram os responsáveis pela estátua de Zumbi dos Palmares no Calçadão de Caxias, pela caminhada contra a intolerância religiosa, em novembro de 2014, por parte da criação do primeiro bloco carnavalesco negro de Salvador (Ilê Aiyê). A atuação dela faz com que muitos jovens dispensem a criminalidade para dançar, cantar, tocar percussão. Essas ações precisam ser conhecidas e reconhecidas.

Maria Paula FreireUma das passagens marcantes na trajetória da instituição remonta aos anos 1990: o encontro da banda Ojuoba Axé com o ativista Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul e símbolo da luta contra o Aparthaid. Para o curador da exposição Flavio Rocha, o legado de resistência talvez seja o principal emblema nesses 30 anos: “O trabalho de Luana com essas crianças e jovens é muito intenso para não ser observado”, frisa. Palavra de quem está acostumado com ações que levam a reflexão da cultura africana para comunidades cariocas. Para ele, o carinho e acolhimento fazem a diferença:

– Ojuobá é um movimento que não só valoriza a autoestima de crianças, dos jovens e das famílias, mas também valoriza o ser humano, sem cor específica. Me senti acolhido em todas minhas pesquisas presenciais – relata Flávio.

Para o presidente da Ojuobá Axé, Julio Guimarães, ultrapassar os padrões eurocêntricos e transmitir "com sabedoria e verdade" a cultura afro-brasileira é uma forma estratégica de resgate social para "alcançar muitos jovens à beira da criminalidade". Ele considera igualmente estratégica a herança de conscientizadora:

– Transmitir a cultura negra para crianças e jovens é um legado adquirido por cada um que passou pela instituição. É a nossa referência, é a nossa história. Usar isso como ferramenta de resgate social, de mostrar a história contada através dos olhos do próprio negro, e não de forma pejorativa, é um resgate. É mostrar a nossa história da forma que vemos.

IMÓ: O Despertar da Consciência

Em comemoração ao mês da Consciência Negra, celebrado oficialmente em 20 de novembro, dia da morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, e em homenagem ao jornalista, historiador e escritor Joel Rufino dos Santos, o Sesc Rio inaugura a segunda edição do projeto IMÓ: O Despertar da Consciência. Seminários e atividades culturais discutem a influência das matrizes africanas na sociedade brasileira. Reúnem, ao longo do mês, pesquisadores, artistas e ativistas.

O legado de Joel Rufino é o ponto de partida para os debates programados, até o dia 25, para as unidades do Sesc no Flamengo e na Tijuca e no teatro Sesc Ginástico. O ator Milton Gonçalves comanda a abertura da homenagem ao escritor, com um debate entre os professores Ninfa Parreiras e Pablo Dias. Os seminários abordam temas como o legado afrodescendente na sociedade brasileira, intolerância religiosa e relações entre tradição e contemporaneidade.

As artes afro-brasileiras também regem uma extensa programação cultural a preços populares nas unidades do Sesc. O roteiro estreia com o show, hoje à noite, do cantor e compositor Martinho da Vila, no Teatro Sesc Ginástico. A entrada é franca.

Integram também a programação shows da Orquestra Contemporânea de Olinda, Afrojazz, Abayomi, Afrobeat e de Rico Dalasan; além de peças com Coletivo de Negras Autoras e Cia Os Crespos, nas unidades Tijuca e Flamengo; rodas de jongo e samba, capoeira, oficinas de tranças etc. Na Baixada Fluminense, a celebração se estende até o 12 de dezembro, com a exposição 30 de Ojuobá Axé.