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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2017


Cultura

Releituras da ditadura: seminário discute novos sentidos da imagem

Yasmim Restum - aplicativo - Do Portal

27/08/2015

 Divulgação

A câmera que mergulha nos arquivos e rastros visuais da história para dar novo sentido ao presente é o instrumento do documentário e de pesquisa dos professores convidados do seminário Memórias audiovisuais da ditadura: imagens em disputa, na mesa Imagens habitadas (e transformadas) por histórias da ditadura . “Uma arte como o cinema só pode ser pensada através de suas inaugurações e rupturas, restos de uma época que invadem outro momento histórico”, defende o professor Emilio Bernini, da Universidade de Buenos Aires. Fundadora da Associação Argentina de Estudos de Cinema, Andrea Molfetta acredita que o campo da memória possa ser influenciado por produções cinematográficas documentais:

– A memória está em disputa porque ela redefine a imagem do momento político no qual se vive atualmente. O cineasta precisa trabalhar no campo da ignorância, desconfiando de tudo e se sentir desorientado na história exatamente para captar o novo, como se estivesse olhando pela primeira vez. É assim que o cineasta entra na ética da finitude e aceita que não se conhece tudo sobre um momento histórico. Essa condição de finitude está associada à política, já que nela todas as verdades são parciais, assim como no cinema – compara.

 Paula Bastos Araripe“O rechaço da questão política no cinema dá espaço para tratar de questões mais íntimas e individuais no cinema”

Interessado em fazer leituras de diferentes fenômenos históricos para entender como isso muda a linguagem do cinema, Bernini se debruça sobre o período da ditadura argentina (1976-1983) e da democracia. Ele explica que observou uma continuidade entre o cinema das duas épocas sem fazer cortes de natureza política, mas apresentando as questões intrínsecas da linguagem do cinema.

– As pessoas acreditam que a democracia instaurou uma época em que se podia pensar autonomamente, mas encontrei evidências que não condizem exatamente com essa forma de pensar. Quando se fala de cinema argentino do período da democracia, pensam que há uma produção de linguagem diferenciada, mas não é bem assim. Uma época deixa restos na outra que a sucede – analisa.

Para a professora de Teoria do Cinema da UFRJ Patrícia Machado (foto), o Brasil vendia uma imagem de crescimento, mas também de um país contraditório e imaginado com traços do capitalismo e de uma indústria emergente que traz o traço das condições precárias dos trabalhadores: “Arquivos que mostram tortura, exploração e discriminação emergem na costura desses buracos da história”, afirma a especialista, que ressalta a importância do cinema na recuperação de períodos da história:

Paula Bastos Araripe– Muitos dos arquivos gravados na ditadura foram enviados a embaixadas para que fosse divulgado o conceito de “novo Brasil”, mas alguns foram encontrados na Suíça, Chile, e outros países sem qualquer registro. Nesse sentido, o cinema exerce o papel urgente e fundamental de elaborar memórias do Brasil. A busca dessas imagens aponta para uma possibilidade do cinema lhes atribuir novos sentidos, elaborar memórias pessoais e coletivas.

Diretora do grupo de pesquisa Estéticas e Políticas do Documentário Sul-Americano na Universidade de Buenos Aires, Andrea acredita que a perspectiva da subjetividade se exibe na medida em que o cinema ganha um caráter metalinguístico, ou seja, que entende o resultado fílmico como uma entrega do cineasta ao olhar do outro na busca de uma verdade parcial. Defensora da redemocratização dos meios, ela argumenta que as salas de cinema e a internet deveriam abrir mais oportunidades para filmes que trabalhem com verdades parciais e não imponham uma verdade, como faz a indústria cinematográfica.

 Paula Bastos AraripeA mediadora e pesquisadora da FGV de narrativas históricas de televisão e cinema Monica Kornis (foto) contrapôs o argumento de Andrea, e defendeu que o meio digital talvez não seja um espaço tão adequado para a reflexão cinematográfica em uma contemporaneidade essencialmente da imagem: “Nesse mundo tão abarrotado de imagens, o meio digital pode acabar banalizando um trabalho cinematográfico mais propositivo”. 

“Será que o cinema brasileiro espetacularizou a ditadura?”

Histórias como a de Dôra, sufocadas diante do aparato repressivo da ditadura (leia mais em Especialistas debatem papel da imagem na história brasileira), contrastam com muitas produções do cinema argentino contemporâneo, como exemplifica Bernini com o filme Infância clandestina, de Benjamín Avila (Argentina, 2011):

– O cinema argentino atual muitas vezes apresenta um discurso que mostra uma inocência dos personagens e que revela uma ignorância sobre o momento político do país. Infância clandestina, por exemplo, dialoga com o tema da ditadura argentina, mas não elucida sobre o período histórico de forma direta, como se a ficção mascarasse os sintomas de uma época – argumenta.

E com tanto material disponível para o cinema de arquivo brasileiro recontar a ditadura, Andrea (foto) se mostra perplexa com a falta de iniciativas cinematográficas documentais:

 Paula Bastos Araripe– Quando se pensa em ditadura no Brasil, tudo que me vem à cabeça são ficções, produções comerciais. Onde está o cinema brasileiro documental? Após a ditadura na argentina, nos 20 anos de democracia, o cinema foi fundamental para dar espaço às vozes injustiçadas, porque a lei na argentina fez questão de esquecer o passado repressivo por meio da Ley de Punto Final, que serviu como um manto branco sobre a história. Tudo se perdeu, foi destruído. No Brasil, há milhares de arquivos e não se tem filmes sobre o assunto – lamenta.