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Rio de Janeiro, 29 de junho de 2017


Cultura

Pensadores ajudam a esclarecer mundo em que vivemos

Maria Clara Parente - aplicativo - Do Portal

28/09/2015

 Divulgação

Jean-Paul Sartre e o pensamento existencialista, Hanna Arendt e a banalidade do mal, Ronald Barthes e a imagem, Gilles Deleuze e o anti-Édipo. A importância destes pensadores para a atualidade, para além das teorias que difundiram, foi evidenciada nos sete encontros da série Três franceses e uma alemã, que se encerram nesta segunda-feira, 28, no Centro Cultural Banco do Brasil, reunindo especialistas e pesquisadores brasileiros e estrangeiros, e um público que lotou as duas salas destinadas ao evento.

Sartre, respostas incompletas e o teatro social

O filósofo Jean Paul Sartre (1905-1980), que nasceu na França em 1902 e por lá viveu toda sua vida, lecionando na Universidade de Sorbonne, levantou questões sobre o engajamento dos intelectuais e sobre a identidade, entendida, a partir do existencialismo, como sempre em construção, como explica o professor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, Danilo Marcondes, autor de diversos livros de filosofia, que apresentou a obra do filósofo:

“A relação entre os seres humanos não é, prioritariamente, da ordem cognitiva. Essa é a lição do pensamento existencial. Os comunicadores têm uma tendência a buscar respostas prontas, e Sartre está mostrando que não é assim. Ele mostra que uma resposta é sempre incompleta”. Para o professor, é inevitável buscar saídas na construção de um pensamento existencialista. Marcondes também cita a obra O idiota da família para refletir sobre a universalidade da vida: “Sartre está mostrando que não há uma fronteira entre filosofia, literatura, ensaio, estudo social e psicanálise. Ele parte de Gustave Flaubert e mostra que o que acontece ali é de certa forma universal”. 

Já no encontro A rua, a casa e o gabinete: escritas de vida e modo de ação intelectual, o professor Jacques Leenhardt, diretor de estudos na Ècole des Hauntes Ètudes em Sciences Sociales, da França, privilegiou o estudo do livro de Sartre A náusea e falou sobre a possibilidade de recontar e a consciência da vida como encenação (“um garçom representa o papel de garçom, como se tivesse um sentido estabelecido na ordem do mundo”). Para o sociólogo, as redes sociais não aumentam o teatro social com a superexposição voluntária: “O teatro social sempre esteve presente porque nós só existimos no olhar do outro”.

 

Deleuze, formas de educar e arte como exceção

Com base nas ideias de Deleuze, a educação foi tema da palestra de Walter Kohan, titular de filosofia da comunicação na Uerj, que propôs pensar como a educação pode se tornar política, a partir de um estímulo ao pensamento crítico. Já na palestra Alteridade, imagem, arte e imaginação, o professor João Camillo Penna abordou questões do momento brasileiro atual a partir da reflexão de Deleuze com Félix Guattari no livro O anti-Édipo: “Este livro nos ajuda a pensar esses novos movimentos que são criativos, políticos e também são produções coletivas que tentam transformar a realidade social através de pequenos aparelhos, de objetos artísticos. Deleuze pensava a partir de um diagnóstico que é o mesmo que fazemos agora, de que há uma crise no Estado, de que há um problema na nossa concepção política que pensa num modelo eleitoral, modelo da organização partidária como sendo um modelo falido, que seria preciso repensar a política”.

Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, o professor também chama atenção para a capacidade das redes sociais como mecanismos de pensamento produtivos, mas também lembra que, ao mesmo tempo, esses dispositivos podem gerar “pequenos fascismos”.

João Camillo Penna também aponta a oposição entre cultura e arte a partir de uma citação do filme Eu vos saúdo, Saravejo, de Jean-Luc Godard” (1993): “A cultura é a regra, a arte é a exceção. A regra da cultura é de alguma maneira matar a arte, o que mais ou menos está sendo preparado pela cultura europeia. A cultura seria o modo de organizar as diversas manifestações artísticas. Seria uma maneira de pensar a cultura, um modo de expressão, de representação do social”.

Barthes, hiperlinks e o slogan

No encontro de segunda-feira, 14, a principal biógrafa de Roland Barthes e professora de Literatura Comparada de Paris III, Tiphaine Samouyault, chamou atenção para os manuscritos do pensador, repletos de colagens e recortes. O caráter fragmentado presente na obra do autor remete a hiperlinks bem antes dos computadores: “Barthes já fazia hipertextos naquela época”, comparou Tiphaine, lembrando a paixão do autor por papelaria.

Para a francesa, o autor de foi um pensador de imagens: “A filosofia, antes dele, não se interessava muito pela imagem, em pensar a imagem e na relação de cada um de nós com a imagem. Ele é fascinado pela desconstrução das imagens, e a importância que deu às imagens o levou a ver os slogans muitas vezes como formas opressivas de poder”.

 

Hannah Arendt, a construção do pensamento e os totalitarismos que resistem

A reflexão sobre pensamento e conhecimento é, para o professor de Teoria Política da UFF e presidente da Biblioteca Nacional Renato Lessa, o legado mais importante deixado pela filósofa alemã Hannah Arendt. “Como conhecimento, é uma qualidade cognitiva voltada para resultados tangíveis. O pensamento não tem a perspectiva do resultado, é um exercício reflexivo que obriga o sujeito a refletir a respeito do que ele mesmo pensa.” Segundo o professor, a contribuição da pensadora também no ajuda a olhar criticamente para nossa maneira de educar, quase sempre vista como o ensino de um conhecimento com finalidades práticas:

“Os colégios de modo geral preparam as pessoas para profissões, que é o emprego de um conhecimento determinado com finalidade prática. Não há o espaço do pensamento e da reflexão. Não há o espaço de refletir com um eu interno, de pensar o meu pensamento, o que para ela define o núcleo fundamental da ideia de pensar”.

O pensamento seria uma maneira de dizer que o sujeito existe na capacidade de pensar a si próprio. Além disso, essa prática seria fundamental na proteção contra o automatismo da vida e da ideia da razão instrumental criadora de processos automáticos que nos descaracterizam.

Já a professora Marion Brephol citou a Banalização do Mal, expressão criada pela teórica política alemã, em seu livro Eichmann em Jerusalém, e sua presença em situações como o abandono de menores e no drama de refugiados da Europa, que tem grandes semelhanças com aquelas analisadas por Hannah Arendt em seu rigoroso perfil sobre Adolf Eichmann, oficial nazista considerado responsável pela morte de milhões de pessoas nos campos de concentração. Segundo a pensadora, a banalidade podia ser identificada quando ordens eram cumpridas sem questionamentos e sem reflexões sobre o Bem e o Mal. Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital a professora dá exemplos de totalitarismos modernos:

 “Eichmann está um pouco mais diluído, mas não está ausente; por exemplo, naquele que administra quantos menores vão para um orfanato, quantos consumidores de maconha devem ser presos. Então, há uma lógica do governo totalitário que é exatamente de exclusão daqueles que são diferentes, inúteis para a economia. Eles são encarcerados ou colocados longe dos nossos olhares”.

O encontro teve como curadores os professores Clarisse Fukelman e Gustavo Chataignier, do Departamento de Comunicação da PUC-Rio.

Jean-Paul Sartre e o pensamento existencialista, Hannah Arendt e a banalidade do mal, Roland Barthes e a imagem, Gilles Deleuze e o anti-Édipo. A importância destes pensadores para a atualidade, para além das teorias que difundiram, foi evidenciada nos sete encontros da série Três franceses e uma alemã, que se encerram nesta segunda-feira, 28, no Centro Cultural Banco do Brasil, reunindo especialistas e pesquisadores brasileiros e estrangeiros, e um público que lotou as duas salas destinadas ao evento.

Sartre, respostas incompletas e o teatro social

O filósofo Jean Paul Sartre (1905-1980), que nasceu na França e por lá viveu toda sua vida, lecionando na Universidade de Sorbonne, levantou questões sobre o engajamento dos intelectuais e sobre a identidade, entendida, a partir do existencialismo, como sempre em construção, como explica o professor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, Danilo Marcondes, autor de diversos livros de filosofia, que apresentou a obra do filósofo:

“A relação entre os seres humanos não é, prioritariamente, da ordem cognitiva. Essa é a lição do pensamento existencial. Os comunicadores têm uma tendência a buscar respostas prontas, e Sartre está mostrando que não é assim. Ele mostra que uma resposta é sempre incompleta”. Para o professor, é inevitável buscar saídas na construção de um pensamento existencialista. Marcondes também cita a obra O idiota da família para refletir sobre a universalidade da vida: “Sartre está mostrando que não há uma fronteira entre filosofia, literatura, ensaio, estudo social e psicanálise. Ele parte de Gustave Flaubert e mostra que o que acontece ali é de certa forma universal”. 

 Luisa Oliveira Já no encontro A rua, a casa e o gabinete: escritas de vida e modo de ação intelectual, o professor Jacques Leenhardt, diretor de estudos na Ècole des Hauntes Ètudes em Sciences Sociales, da França, privilegiou o estudo do livro de Sartre A náusea e falou sobre a possibilidade de recontar e a consciência da vida como encenação (“um garçom representa o papel de garçom, como se tivesse um sentido estabelecido na ordem do mundo”). Para o sociólogo, as redes sociais não aumentam o teatro social com a superexposição voluntária: “O teatro social sempre esteve presente porque nós só existimos no olhar do outro”.

 

Deleuze, formas de educar e arte como exceção

Com base nas ideias de Deleuze (1925-1995), a educação foi tema da palestra de Walter Kohan, titular de filosofia da comunicação na Uerj, que propôs pensar como a educação pode se tornar política, a partir de um estímulo ao pensamento crítico. Já na palestra Alteridade, imagem, arte e imaginação, o professor João Camillo Penna abordou questões do momento brasileiro atual a partir da reflexão de Deleuze com Félix Guattari no livro O anti-Édipo: “Este livro nos ajuda a pensar esses novos movimentos que são criativos, políticos e também são produções coletivas que tentam transformar a realidade social através de pequenos aparelhos, de objetos artísticos. Deleuze pensava a partir de um diagnóstico que é o mesmo que fazemos agora, de que há uma crise no Estado, de que há um problema na nossa concepção política que pensa num modelo eleitoral, modelo da organização partidária como sendo um modelo falido, que seria preciso repensar a política”.

Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, o professor também chama atenção para a capacidade das redes sociais como mecanismos de pensamento produtivos, mas também lembra que, ao mesmo tempo, esses dispositivos podem gerar “pequenos fascismos”.

João Camillo Penna também aponta a oposição entre cultura e arte a partir de uma citação do filme Eu vos saúdo, Saravejo, de Jean-Luc Godard” (1993): “A cultura é a regra, a arte é a exceção. A regra da cultura é de alguma maneira matar a arte, o que mais ou menos está sendo preparado pela cultura europeia. A cultura seria o modo de organizar as diversas manifestações artísticas. Seria uma maneira de pensar a cultura, um modo de expressão, de representação do social”.

Barthes, hiperlinks e o slogan

No encontro de segunda-feira, 14, a principal biógrafa de Roland Barthes (1915-1980) e professora de Literatura Comparada de Paris III, Tiphaine Samouyault, chamou atenção para os manuscritos do pensador, repletos de colagens e recortes. O caráter fragmentado presente na obra do autor remete a hiperlinks bem antes dos computadores: “Barthes já fazia hipertextos naquela época”, comparou Tiphaine, lembrando a paixão do autor por papelaria.

Para a francesa, o autor de foi um pensador de imagens: “A filosofia, antes dele, não se interessava muito pela imagem, em pensar a imagem e na relação de cada um de nós com a imagem. Ele é fascinado pela desconstrução das imagens, e a importância que deu às imagens o levou a ver os slogans muitas vezes como formas opressivas de poder”.

 

Hannah Arendt, a construção do pensamento e os totalitarismos que resistem

A reflexão sobre pensamento e conhecimento é, para o professor de Teoria Política da UFF e presidente da Biblioteca Nacional Renato Lessa, o legado mais importante deixado pela filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1965). “Como conhecimento, é uma qualidade cognitiva voltada para resultados tangíveis. O pensamento não tem a perspectiva do resultado, é um exercício reflexivo que obriga o sujeito a refletir a respeito do que ele mesmo pensa.” Segundo o professor, a contribuição da pensadora também no ajuda a olhar criticamente para nossa maneira de educar, quase sempre vista como o ensino de um conhecimento com finalidades práticas:

“Os colégios de modo geral preparam as pessoas para profissões, que é o emprego de um conhecimento determinado com finalidade prática. Não há o espaço do pensamento e da reflexão. Não há o espaço de refletir com um eu interno, de pensar o meu pensamento, o que para ela define o núcleo fundamental da ideia de pensar”.

O pensamento seria uma maneira de dizer que o sujeito existe na capacidade de pensar a si próprio. Além disso, essa prática seria fundamental na proteção contra o automatismo da vida e da ideia da razão instrumental criadora de processos automáticos que nos descaracterizam.

Já a professora Marion Brephol citou a Banalização do Mal, expressão criada pela teórica política alemã, em seu livro Eichmann em Jerusalém, e sua presença em situações como o abandono de menores e no drama de refugiados da Europa, que tem grandes semelhanças com aquelas analisadas por Hannah Arendt em seu rigoroso perfil sobre Adolf Eichmann, oficial nazista considerado responsável pela morte de milhões de pessoas nos campos de concentração. Segundo a pensadora, a banalidade podia ser identificada quando ordens eram cumpridas sem questionamentos e sem reflexões sobre o Bem e o Mal. Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital a professora dá exemplos de totalitarismos modernos:

 “Eichmann está um pouco mais diluído, mas não está ausente; por exemplo, naquele que administra quantos menores vão para um orfanato, quantos consumidores de maconha devem ser presos. Então, há uma lógica do governo totalitário que é exatamente de exclusão daqueles que são diferentes, inúteis para a economia. Eles são encarcerados ou colocados longe dos nossos olhares”.

O encontro teve como curadores os professores Clarisse Fukelman e Gustavo Chataignier, do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. O ciclo de encontros no Centro Cultura Banco do Brasil (CCBB) foi promovido pelo Ministério da Cultura e Banco do Brasil.